Alma Gêmea II
Capítulo 8 — O Confronto Implacável no Escritório de André
por Valentina Oliveira
Capítulo 8 — O Confronto Implacável no Escritório de André
O regresso a São Paulo foi carregado de uma tensão palpável. Sofia sentia-se um barco à deriva, oscilando entre a culpa esmagadora e a atração irresistível por Gabriel. A rotina no escritório de André, antes um refúgio de estabilidade, agora parecia um campo minado. Cada olhar dele, cada gesto de carinho, era uma facada em sua consciência. Ela sabia que não poderia mais adiar o inevitável. A verdade precisava vir à tona, por mais dolorosa que fosse.
André, alheio à tempestade que se formava no coração de Sofia, continuava a tratá-la com a mesma gentileza e devoção de sempre. Ele a via mais distante, mais pensativa, e atribuía isso ao estresse do trabalho e à organização do casamento. "Meu amor, você parece um pouco preocupada", ele disse em uma tarde, enquanto tomavam café em sua sala. "Ainda pensando na decoração da festa? Ou talvez no nosso futuro ninho de amor?"
Sofia forçou um sorriso, o estômago revirando. "Um pouco de tudo, André. Só estou tentando absorver tudo, planejar cada detalhe para que seja perfeito."
Ele segurou a mão dela, um gesto reconfortante que, ironicamente, a fez sentir-se ainda mais culpada. "E será perfeito, meu bem. Porque estaremos juntos. Não se preocupe com nada."
Mas ela se preocupava. Preocupava-se com a mentira que pairava entre eles, com o beijo roubado que a assombrava e com a figura de Gabriel, que se tornara uma presença constante em seus pensamentos. Naquela noite, após mais um jantar em que se sentiu uma fraude, Sofia tomou a decisão. Ela precisava confrontar André. Precisava ser honesta, mesmo que isso significasse perder tudo o que havia construído.
Na manhã seguinte, com o coração martelando no peito, Sofia foi até o escritório de André mais cedo do que o usual. Ela sabia que ele teria uma agenda cheia, mas precisava encontrá-lo em um momento de relativa calma. A secretária, Dona Clara, uma mulher bondosa que a conhecia há anos, a cumprimentou com um sorriso.
"Bom dia, Sofia! O Dr. André já está por aqui. Quer que eu o avise que você chegou?"
"Por favor, Dona Clara. Diga que é algo urgente", Sofia respondeu, a voz trêmula.
Dona Clara percebeu a apreensão no rosto de Sofia e lançou-lhe um olhar de preocupação, mas foi cumprir a tarefa. Poucos minutos depois, André surgiu no corredor, um sorriso no rosto que se desfez ao ver a expressão de Sofia.
"Sofia? O que houve? Você está pálida." Ele a conduziu para dentro de seu amplo escritório, com vista para a movimentada Avenida Paulista.
Eles se sentaram em frente à mesa imponente, a atmosfera impregnada de uma tensão que André não conseguia compreender. Sofia respirou fundo, reunindo toda a coragem que lhe restava.
"André, eu preciso te contar uma coisa. E não é fácil." As palavras saíram em um sussurro embargado.
Ele franziu a testa, a preocupação aumentando. "O que é, meu amor? Você está me assustando."
"Eu... eu estive em Paraty com Gabriel", ela começou, o nome dele soando como um trovão em seus próprios ouvidos.
André arregalou os olhos, a surpresa inicial rapidamente substituída por uma sombra de desconfiança. "Gabriel? O antigo sócio do meu pai? O que você estava fazendo com ele?" Havia uma ponta de frieza em sua voz que Sofia não esperava.
"Nós nos encontramos por acaso. Ele estava lá por conta de um projeto dele, e eu fui a uma festa com amigos. Acabamos conversando, e... e as coisas aconteceram." Sofia sentiu o rosto queimar.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. André permaneceu imóvel, o olhar fixo em Sofia, como se tentasse decifrar cada palavra, cada nuance de sua expressão. A cada segundo que passava, a raiva começava a se manifestar em seu rosto, substituindo a surpresa e a preocupação.
"Coisas aconteceram? O que exatamente você quer dizer com 'coisas aconteceram', Sofia?", ele perguntou, a voz baixa, mas com uma força contida que a fez recuar.
"Nós... nós nos beijamos, André." A confissão saiu em um sopro, e Sofia sentiu como se um peso gigantesco tivesse sido retirado de seus ombros, apenas para ser substituído pela dor do confronto iminente.
A reação de André foi imediata e avassaladora. Ele se levantou bruscamente, a cadeira raspando no chão de madeira. Seus olhos, antes cheios de afeto, agora faiscavam de fúria.
"Você me beijou?", ele repetiu, a voz elevando-se, transbordando de incredulidade e dor. "Você está me dizendo que, enquanto estávamos planejando nosso casamento, você estava beijando outro homem? E esse homem é o Gabriel? O mesmo Gabriel que tem uma história tão turbulenta com a minha família?"
"André, eu sei que parece horrível. E eu sinto muito, de verdade. Eu não planejei isso. Foi um momento de fraqueza, de confusão. Eu... eu me senti atraída por ele, eu não posso negar." As lágrimas começaram a rolar por seu rosto.
Ele deu uma risada amarga, sem humor algum. "Atraída? Confusão? Sofia, nós estamos noivos! Você vai se casar comigo! Como você pôde fazer isso comigo? Como pôde me trair dessa forma?" Ele caminhou pela sala, agitado, as mãos nos cabelos. "E o pior de tudo, você se deixou levar por Gabriel! O homem que quase arruinou a empresa do meu pai! O homem que representa tudo o que eu lutei para superar!"
"Eu sei, André, eu sei que é complicado. E eu assumo toda a responsabilidade. Eu errei. Eu fui fraca. Mas eu precisava te contar a verdade. Eu não poderia continuar te enganando."
"Enganando?", ele gritou, virando-se para ela com o rosto vermelho de raiva. "Você não me enganou, Sofia. Você me destruiu! Você destruiu a confiança que eu tinha em você, a confiança que eu tinha em nós!" Ele se aproximou dela, o olhar acusador. "Você estava apenas brincando comigo? Era tudo um jogo para você? Ou você realmente achou que poderia ter os dois? Que poderia me usar como um porto seguro enquanto explora essa... essa atração doentia por Gabriel?"
As acusações de André eram cruéis, e embora ela compreendesse sua dor e sua raiva, elas a machucavam profundamente. "Não, André, você sabe que não é isso. Eu te amo. Eu sempre te amei. Mas o que aconteceu com Gabriel... foi algo que eu não esperava. Algo que mexeu comigo de uma forma que eu não consigo explicar."
"Mexeu com você? E o que você acha que aconteceu comigo agora, Sofia? Você acha que eu estou feliz em saber que a mulher que eu amo, a mulher com quem eu planejo passar o resto da minha vida, está beijando outro homem? E não é qualquer homem, é o Gabriel!" Ele parou em frente a ela, a voz embargada. "Eu não consigo. Eu não consigo acreditar nisso. Eu preciso pensar. Eu preciso... eu preciso de espaço."
Ele a olhou uma última vez, o olhar carregado de mágoa e decepção, antes de se virar e sair do escritório, deixando Sofia sozinha em meio à ruína de seu relacionamento, o eco de suas palavras e a dor de sua traição ressoando nas paredes frias do escritório. O confronto implacável havia chegado, e as consequências seriam devastadoras para todos os envolvidos.