Amor sem Retorno III

Amor sem Retorno III

por Valentina Oliveira

Amor sem Retorno III

Autor: Valentina Oliveira

Capítulo 16 — O Sussurro do Passado na Chuva Sergipana

A chuva caía em Salvador como um véu de saudades, lavando as ruas de paralelepípedos e o coração de Helena. Os pingos pesados batiam nas vidraças da sua cobertura, ecoando o ritmo incerto da sua vida. Havia semanas que a notícia do acidente de Rafael a assolava, um fantasma persistente que se recusava a desaparecer. Cada raio de sol parecia um escárnio, cada brisa, um sopro gélido de incerteza. A empresa, que antes era seu refúgio e propósito, agora parecia um labirinto de responsabilidades sombreadas pela ausência dele.

“Helena?”, a voz de Clara, sua fiel amiga e sócia, rompeu o silêncio denso do escritório. Clara entrou com uma bandeja de café fumegante, os olhos castanhos cheios de uma preocupação genuína que Helena já não sabia mais como aceitar.

“Clara, você não precisava…”, Helena murmurou, desviando o olhar para a cidade embaçada pela garoa.

“Não seja boba. Você mal tem comido, mal tem dormido. Essa obsessão com o que pode ter acontecido com o Rafael não vai te trazer nenhuma resposta. O que a polícia disse é que ele desapareceu. Desapareceu, Helena. Não que ele esteja…”, Clara hesitou, buscando as palavras certas.

“Morto?”, Helena completou, a voz embargada. “É isso que todos esperam, não é? Que eu chore o corpo dele e siga em frente. Mas como eu sigo em frente quando a última lembrança que tenho é dele me dizendo que eu era a única coisa que importava? Que ele não podia mais viver sem mim?” As lágrimas começaram a rolar, quentes e amargas, traçando caminhos na sua pele pálida.

Clara pousou a bandeja e sentou-se ao lado dela, um abraço apertado envolvendo seus ombros. “Eu sei que é difícil, amiga. Mas você tem que se cuidar. O Rafael que você amou, aquele que te fez sorrir com um simples olhar, não ia querer te ver assim. E se ele estiver vivo, ele vai querer te ver forte, lutando.”

“Mas lutando por quê, Clara? Por um fantasma? A polícia não encontrou nada. Nenhuma pista. É como se o chão tivesse engolido ele e aquele barco. E o mais cruel é que ele partiu justamente quando… quando eu estava prestes a…” Helena se calou, incapaz de verbalizar as palavras que a atormentavam.

“Prestess a quê, Helena?”, Clara insistiu suavemente. “O que você estava prestes a fazer?”

Helena respirou fundo, o cheiro amargo do café misturando-se ao perfume das flores que enfeitavam a sala. “A contar para ele. A contar que ele não estava mentindo. Que eu também… que eu também senti algo por ele. Algo que me assustou, mas que era real.”

Clara a olhou, surpresa, mas também com um brilho de compreensão nos olhos. “Eu percebi que algo havia mudado entre vocês nas últimas semanas. Você estava mais… leve, quando falava dele. Mas nunca imaginei que fosse tão profundo.”

“E era. Era perigoso. Porque eu já tinha prometido a mim mesma que nunca mais me entregaria a um amor assim. E ele… ele era tudo o que eu jurava evitar. Um homem marcado pelo destino, com um passado obscuro e um presente incerto. Mas, Clara, ele tinha um jeito de olhar para mim que me desarmava. Um sorriso que prometia mundos e um toque que incendiou minha alma.” Helena soltou um suspiro trêmulo. “Agora, ele se foi. E eu fico aqui, com esse amor não dito, com essa saudade que dói como ferida aberta.”

As duas mulheres ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas o som da chuva quebrando a melancolia. De repente, o celular de Helena vibrou na mesa. Era uma mensagem de um número desconhecido. A curiosidade, um impulso sombrio, a fez desbloquear o aparelho.

“O quê? Quem é?”, Clara perguntou, percebendo a expressão no rosto de Helena.

“Um número estranho. Diz… diz que ele não está morto. Que ele está em Aracaju. E que preciso ir até lá se quiser saber a verdade.” O coração de Helena disparou, uma mistura de esperança e medo a invadindo. Aracaju. Era o último lugar no mundo que ela imaginaria encontrar Rafael.

“Aracaju? Helena, isso pode ser uma armadilha. Alguém brincando com seus sentimentos. Ou pior.” Clara tentou alertá-la.

“Mas e se não for? E se for ele? Ou alguém que sabe onde ele está? Clara, eu não posso ignorar isso. Eu preciso saber. Preciso ter certeza, seja qual for a resposta.” Helena já sentia a decisão se formar em sua mente. A chuva lá fora parecia diminuir, como se o céu também estivesse aguardando sua escolha.

“Eu vou com você”, Clara disse firmemente, quebrando o silêncio. “Você não vai sozinha para Aracaju em busca de um desconhecido.”

Helena olhou para a amiga, um sorriso fraco surgindo em seus lábios. “Obrigada, Clara. Eu não sei o que faria sem você.”

“Você faria o que sempre faz: enfrentaria tudo de cabeça erguida. Só que agora, você terá uma aliada. E quem sabe? Talvez em Aracaju, o sol brilhe um pouco mais forte.”

Enquanto a chuva cessava em Salvador, uma nova tempestade se formava no coração de Helena, impulsionada pelo desejo de encontrar Rafael e pela incerteza do que a aguardava em solo sergipano. O amor, como a chuva, podia ser destrutivo, mas também podia lavar a alma e trazer o florescer de novas esperanças.

Capítulo 17 — As Areias de Aracaju e o Eco de um Segredo

O sol em Aracaju era implacável, um banho de luz dourada que contrastava com a névoa cinzenta que pairava sobre a alma de Helena. A brisa marinha trazia o cheiro salgado do Atlântico, misturado ao aroma adocicado das mangueiras que ladeavam a estrada para a cidade. O voo de Salvador fora curto, mas a ansiedade que a acompanhava parecia ter esticado cada minuto em horas. Ao seu lado, Clara observava a paisagem com uma calma estudada, mas seus olhos revelavam a mesma apreensão que fervilhava em Helena.

“Você tem certeza disso, Helena?”, Clara perguntou pela décima vez desde que pousaram. “Esse número não mandou mais nenhuma mensagem. Poderia ser um engano, um trote cruel.”

“Eu não posso pensar assim, Clara. Aquele pedido… a forma como ele descreveu o que eu precisava fazer para encontrar a pessoa que me daria a informação… Era específico demais para ser um engano.” Helena olhou para o pequeno bilhete amassado que guardava no bolso. As instruções eram enigmáticas: ‘Praça Fausto Cardoso, no coreto, ao pôr do sol. Traga a caixa preta. Ele saberá quem você é.’

“A caixa preta…”, Clara murmurou, olhando para a pequena e pesada maleta de couro que Helena trazia consigo. Era a caixa que o pai de Rafael havia deixado para ele, cheia de documentos e pertences que contavam a história de uma vida que ele nunca conhecera. Helena a havia herdado após a morte do advogado, um símbolo de um legado que ela sentia pesar em suas mãos.

“É tudo o que ele deixou. Se Rafael estiver vivo, talvez isso tenha algum significado para ele. Ou para quem quer que esteja nos guiando até ele.” Helena apertou a alça da maleta, sentindo o peso do passado e a incerteza do futuro.

Chegaram ao centro da cidade, um emaranhado de ruas movimentadas, casarões coloniais e o burburinho típico de uma capital nordestina. A Praça Fausto Cardoso era um oásis de verde em meio ao concreto, com suas palmeiras imperiais, canteiros floridos e um lago sereno. No centro, erguia-se o coreto, uma estrutura de ferro fundido com um telhado pontiagudo, que parecia esperar por eles.

O sol já começava a descer no horizonte, pintando o céu com tons de laranja, rosa e dourado. A atmosfera na praça mudou, tornando-se mais calma, com famílias passeando, casais sentados nos bancos e crianças correndo. Helena sentiu um frio na espinha.

“O que faremos agora?”, Clara sussurrou, os olhos atentos vasculhando a multidão.

“Esperamos. E observamos.” Helena sentou-se em um banco próximo ao coreto, colocando a caixa preta entre seus pés. Respirou fundo, tentando absorver a calma do lugar, mas seu coração batia em um ritmo frenético.

Minutos se arrastaram. O sol se aproximava do horizonte, lançando sombras longas sobre a praça. Foi então que Helena o viu. Um homem. Ele não se parecia em nada com as descrições que ela tinha de Rafael. Era mais velho, com cabelos grisalhos desalinhados e um rosto marcado pelo tempo e pela preocupação. Ele usava roupas simples, mas sua postura exalava uma autoridade discreta. Ele caminhava pela praça, com os olhos fixos no coreto, como se procurasse algo ou alguém.

Quando ele se aproximou, Helena sentiu um arrepio. Havia algo familiar nele, um traço sutil que a fez prender a respiração. O homem parou a poucos metros de distância, seus olhos pousando na caixa preta aos pés de Helena. Um misto de surpresa e reconhecimento cruzou seu rosto.

“Você… você é a Helena?”, ele perguntou, a voz grave e embargada.

Helena assentiu, incapaz de falar. Clara apertou seu braço em um gesto de apoio.

O homem olhou para a caixa preta novamente, e então para Helena, como se a visse de verdade pela primeira vez. “Eu sou o Dr. Américo. Fui advogado do Rafael… e do pai dele. Fui eu que enviei a mensagem.”

O nome ‘Américo’ ecoou na mente de Helena. Era ele. O homem que Rafael mencionara uma vez, de passagem, como alguém que o ajudara em um momento difícil. Mas o que ele queria com a caixa preta? E onde estava Rafael?

“Onde… onde ele está?”, Helena conseguiu perguntar, a voz rouca de emoção.

Dr. Américo suspirou, um som pesado de resignação. “Rafael não está em Aracaju, Helena. Ele… ele foi forçado a desaparecer. Por conta de pessoas perigosas que o estavam perseguindo. Pessoas que queriam os segredos que o pai dele deixou.”

Helena sentiu o chão sumir sob seus pés. “Desaparecer? Mas por quê? O que ele fez?”

“Ele não fez nada, Helena. Ele é a vítima. O pai dele era um homem com inimigos poderosos. Ele sabia que estava sendo caçado, então escondeu informações cruciais, documentos que poderiam desestabilizar muita gente. Ele confiou a mim a tarefa de cuidar dessas informações e entregá-las a Rafael no momento certo. E quando o pai dele morreu, ele me pediu para… para que entregasse a caixa a você, se algo acontecesse com ele.”

As palavras de Dr. Américo caíam como pedras na água calma da praça. Helena não conseguia processar tudo. Rafael estava fugindo? Por causa do pai dele?

“Mas por que eu? Por que ele confiaria em mim?”, Helena perguntou, a confusão misturada à angústia.

Dr. Américo sorriu tristemente. “Porque ele me disse que você era a única pessoa em quem ele confiava. A única que o fazia querer ser um homem melhor. Ele disse que você era a luz que ele sempre buscou, mesmo sem saber que a procurava.” Ele olhou para Helena com uma profundidade que a fez se sentir exposta. “Ele estava apaixonado por você, Helena. De uma forma que eu nunca o vi apaixonado por ninguém.”

As palavras atingiram Helena como um raio. Apaixonado. Era o que ela temia e desejava ouvir. Mas agora, a alegria desse reconhecimento estava obscurecida pela ameaça que pairava sobre ele.

“Então… ele está vivo?”, ela implorou.

“Sim, Helena. Ele está vivo. Mas está em perigo. Ele precisa da ajuda de quem ele confia. E ele me pediu para dizer que, se você estivesse disposta a arriscar tudo por ele, você saberia como encontrá-lo. Ele me deu uma pista… uma pista que só você entenderia.”

Dr. Américo tirou um pequeno pedaço de papel do bolso. Nele, havia uma única frase escrita em uma caligrafia elegante, mas apressada: ‘Onde as ondas beijam o sol nascente, a promessa espera.’

Helena olhou para a frase, sua mente correndo. Onde as ondas beijam o sol nascente… O sol nasce a leste. Ela pensou em todos os lugares que eles haviam compartilhado, em todas as conversas que tiveram. De repente, uma imagem surgiu em sua mente: uma pequena ilha, isolada, no litoral do Espírito Santo. Um lugar que Rafael a levara em um de seus primeiros encontros secretos, onde eles haviam compartilhado um momento de profunda conexão. Um lugar onde ele lhe fizera uma promessa… uma promessa de um futuro que ela nunca pensou que seria possível.

“Eu sei”, Helena sussurrou, o coração batendo forte. “Eu sei onde ele está.”

Clara apertou sua mão com força. “Não se preocupe, Helena. Nós vamos encontrá-lo. Juntas.”

Dr. Américo assentiu, um vislumbre de esperança em seus olhos cansados. “Tenha cuidado, Helena. As pessoas que estão atrás dele são implacáveis. Mas ele confia em você. E eu também. Boa sorte.”

Enquanto o último raio de sol desaparecia no horizonte, deixando um rastro de cores vibrantes no céu de Aracaju, Helena sentiu uma determinação renovada. O passado havia lhe trazido a verdade sobre o amor de Rafael, e agora o futuro a chamava para uma perigosa jornada. A promessa feita sob o sol nascente esperava por ela.

Capítulo 18 — A Ilha Esquecida e a Tempestade Iminente

O pequeno avião fretado rasgava o céu azul do litoral capixaba, deixando para trás a agitação de Aracaju e a incerteza que parecia persegui-la. O destino: uma ilha remota no Espírito Santo, um ponto minúsculo no mapa, mas um universo inteiro no coração de Helena. A frase de Rafael – ‘Onde as ondas beijam o sol nascente, a promessa espera’ – ressoava em sua mente como um mantra, impulsionando-a para o desconhecido. Clara, sentada ao seu lado, observava a paisagem com uma serenidade disfarçada, os olhos fixos em Helena, como se pudesse protegê-la apenas com sua presença.

“Você tem certeza absoluta, Helena?”, Clara perguntou, a voz calma, mas firme. “Essa ilha… não é um lugar comum. É quase desabitada.”

“Tenho. Lembro daquele dia. Foi logo depois que começamos a nos encontrar às escondidas. Ele me levou para lá. Disse que era o lugar mais seguro e bonito que ele conhecia. Que lá, as promessas que ele fizesse seriam ouvidas pelo mar e carregadas pelo vento. Ele me disse que me amava, Clara. Foi a primeira vez. E me prometeu que, um dia, poderíamos viver nosso amor sem medo, sem fugir.” Helena sentiu um nó na garganta. A lembrança era vívida, tingida pela doçura do amor jovem e pela amargura da separação.

“E a caixa preta?”, Clara perguntou, olhando para a maleta de couro que repousava entre elas.

“Ainda não sei o que fazer com ela. O Dr. Américo disse que Rafael a confiou a mim. Talvez ele precise dela. Ou talvez o conteúdo seja a chave para protegê-lo.” Helena acariciou a superfície fria do couro. Era um peso físico e emocional, um elo tangível com o homem que amava e com os perigos que o cercavam.

O piloto, um homem grisalho e experiente, informou que estavam se aproximando. Do alto, a ilha era um fragmento de verde exuberante emoldurado por areias brancas e um mar azul-turquesa de tirar o fôlego. Pequenas enseadas escondiam águas cristalinas, e uma vegetação densa cobria o interior. Havia apenas uma pequena clareira, que servia de pista de pouso improvisada.

Ao pousarem, o silêncio os envolveu. Um silêncio profundo, quebrado apenas pelo canto dos pássaros e pelo murmúrio das ondas. O ar era fresco, carregado com o perfume de flores silvestres e a salinidade do mar. Helena respirou fundo, sentindo uma estranha paz invadir seu peito. Era como se a ilha, com sua beleza selvagem e isolada, fosse um santuário.

“Vamos”, Helena disse, pegando a caixa preta e guiando Clara para fora do avião.

Eles caminharam por uma trilha estreita que serpenteava pela mata. A luz do sol filtrava-se pelas copas das árvores, criando um jogo de sombras dançantes no chão. O som das ondas se tornava mais intenso à medida que se aproximavam da costa. Helena sentia o coração acelerar a cada passo, uma mistura de esperança e apreensão.

Chegaram a uma praia deslumbrante, com areia fina e clara, onde as ondas quebravam suavemente na beira. Era um cenário de cartão postal, idílico e intocado. No centro da praia, havia uma pequena formação rochosa, como um altar natural. Helena reconheceu o lugar imediatamente. Era ali.

Ela se aproximou da rocha, com Clara ao seu lado. Olhou para o mar, para o horizonte vasto e infinito. O sol já começava a se inclinar para o oeste, mas a luz ainda era intensa, dourando a água e a areia.

“Rafael!”, Helena chamou, a voz ecoando na imensidão. “Rafael, sou eu! Helena!”

O silêncio respondeu. Apenas o som das ondas.

Helena sentiu um nó de desespero se formar em sua garganta. E se ele não estivesse ali? E se a pista fosse falsa? E se ele já tivesse sido capturado?

De repente, um movimento na vegetação, na divisa da praia com a mata, chamou sua atenção. Uma figura emergiu das sombras. Era ele.

Rafael.

Ele estava mais magro, a pele bronzeada marcada por um cansaço profundo, mas seus olhos, aqueles olhos verdes intensos que Helena conhecia tão bem, brilhavam com uma força renovada ao vê-la. Ele usava roupas desgastadas, mas sua presença irradiava a mesma aura de mistério e paixão que a havia cativado desde o início.

“Helena…”, ele sussurrou, o nome dela soando como uma prece.

Helena correu em sua direção, sem hesitar. As palavras se perderam em meio à emoção avassaladora. Ela se lançou em seus braços, sentindo a força dele, o cheiro familiar de sua pele. As lágrimas rolavam livremente, lágrimas de alívio, de alegria, de saudade.

“Rafael… você está vivo…”, ela soluçou, agarrando-se a ele como se ele fosse a única âncora em um mar de tempestade.

“Eu nunca te deixei, Helena. Nem por um segundo”, ele murmurou em seu cabelo, a voz embargada. “Eu precisava sumir para me proteger. Para proteger você. Mas eu nunca pensei que você viesse até aqui. Que você me seguisse.”

Clara observava a cena a uma distância respeitosa, um sorriso de alívio no rosto.

Rafael se afastou um pouco, apenas o suficiente para olhar Helena nos olhos. “Você é mais corajosa do que eu jamais imaginei.”

“Eu te amo, Rafael”, Helena disse, as palavras saindo de forma clara e definitiva, sem medos ou hesitações. “Eu te amo mais do que tudo. E não posso viver sem você.”

O olhar de Rafael se intensificou, um turbilhão de emoções cruzando seu rosto. A dor, a esperança, o amor. “Eu também te amo, Helena. Mais do que a minha própria vida. E eu… eu não queria ter partido assim. Mas era a única forma de te manter segura.”

“Segura de quê, Rafael? O que está acontecendo?”, Helena perguntou, o tom de voz ainda carregado de emoção, mas com uma ponta de urgência.

Rafael olhou para a caixa preta que Helena segurava. Seus olhos se fixaram nela, e um lampejo de compreensão cruzou seu rosto. “A caixa… você a trouxe.”

“Sim. O Dr. Américo disse que você a confiou a mim.”

Rafael assentiu. “Meu pai… ele sabia que seria caçado. Ele escondeu documentos cruciais que provam a corrupção de pessoas muito poderosas. Ele me deixou essa caixa com tudo o que precisava para expô-los. Mas eles descobriram. Me perseguiram. Eu tive que desaparecer para não colocar você em perigo.”

“Então, o perigo ainda existe?”, Helena perguntou, o tom de sua voz mudando de alívio para apreensão.

Rafael a puxou para perto, seus olhos fixos nos dela, a urgência estampada em seu rosto. “Sim, Helena. O perigo é real. E eles sabem que você tem a caixa. Eles sabem que você pode ser a chave para tudo.”

Nesse momento, um som rompeu o silêncio da ilha. O rugido distante de um motor. Um barco. E não era um barco de pesca tranquilo. O som era agressivo, ameaçador.

Helena e Rafael se entreolharam, a compreensão mútua explodindo em seus olhos. Eles não estavam sozinhos.

“Eles nos encontraram”, Rafael disse, a voz baixa e tensa. “Nós precisamos ir. Agora.”

Clara, que se mantinha vigilante, correu até eles. “Helena! Rafael! Um barco está se aproximando rapidamente da costa!”

O sol, que antes parecia um farol de esperança, agora se escondia atrás das nuvens que se formavam no horizonte, prenunciando a tempestade que se aproximava. A paz da ilha fora quebrada. A luta pelo amor e pela verdade estava apenas começando.

Capítulo 19 — Fuga Implacável e a Sombra da Traição

O rugido do motor do barco se intensificava, um som sinistro que rasgava a tranquilidade da ilha. O céu, antes de um azul sereno, agora exibia um véu de nuvens escuras, como se o próprio clima estivesse se alinhando ao perigo iminente. Helena sentiu o pânico subir em sua garganta, mas o olhar firme de Rafael a ancorou.

“Temos que sair daqui!”, Rafael disse, puxando Helena para perto. “Clara, venha!”

Eles correram pela areia, em direção à mata, o som do barco se aproximando cada vez mais. A ilha, que antes parecia um refúgio, agora se tornava uma armadilha.

“Para onde vamos?”, Clara perguntou, a respiração ofegante.

“Há um ponto na costa norte onde o mar é mais raso. Podemos tentar usar um bote inflável que deixei escondido. É nossa única chance”, Rafael explicou, a mente trabalhando em alta velocidade.

Eles se embrenharam na vegetação densa, o corpo de Rafael protegendo Helena dos galhos que se estalavam e das folhas que arranhavam. O cheiro de terra molhada e de vegetação úmida preenchia o ar. O barulho do motor ecoava, cada vez mais perto, cada vez mais ameaçador.

Ao chegarem à costa norte, avistaram o pequeno bote inflável escondido entre as rochas. Era precário, mas era uma chance. Enquanto Rafael o desdobrava e o enchia com a bomba portátil, Helena olhava para o mar. O barco inimigo era rápido, um vulto escuro se aproximando em alta velocidade.

“Eles são rápidos!”, Clara alertou, os olhos arregalados.

“Não o suficiente para nos pegar se formos ágeis”, Rafael disse, a voz tensa. Ele olhou para Helena, seus olhos verdes transmitindo uma urgência desesperada. “Helena, pegue a caixa. É tudo o que importa.”

Helena pegou a maleta de couro, sentindo o peso familiar e a responsabilidade que ela carregava.

“Entre no bote!”, Rafael ordenou. Clara entrou primeiro, seguida por Helena. Rafael se apressou em empurrar o bote para a água, pulando para dentro no último segundo. Ele remava com força, impulsionando o frágil veículo para longe da costa, em direção ao mar aberto.

O barco inimigo se aproximou da praia, seus holofotes varrendo a areia. Homens armados desceram rapidamente, seus rostos sombrios e determinados. Eles pareciam saber exatamente para onde se dirigir.

“Eles sabiam que eu estaria aqui”, Rafael murmurou, a frustração misturada à raiva. “Alguém nos traiu.”

Helena sentiu um aperto no coração. Traição? Quem poderia ter os traído?

Eles remavam desesperadamente, as mãos doloridas, os músculos queimando. O barco inimigo começou a persegui-los, seus potentes motores fazendo a água espirrar em sua direção. Os homens a bordo começaram a atirar.

Os tiros ecoavam, o som agudo e aterrorizante cortando o ar. Helena se encolheu no fundo do bote, abraçando a caixa preta com força. Clara, ao seu lado, tentava mantê-la calma.

“Não olhe para eles, Helena. Fique quieta”, Clara disse, a voz firme, embora seus olhos traíssem o medo.

Rafael manobrava o bote com habilidade surpreendente, desviando dos tiros com agilidade. Mas o barco inimigo era mais rápido, mais poderoso. Eles estavam perdendo terreno.

“Não vamos conseguir fugir assim”, Rafael disse, a voz embargada pela fadiga e pela adrenalina. “Eles nos cercaram.”

Helena olhou para trás. Os homens no barco inimigo estavam se aproximando, seus rostos impassíveis sob a luz dos holofotes. Um deles, em particular, chamou sua atenção. Um homem alto, com um olhar frio e calculista. Algo nele parecia familiar, mas ela não conseguia identificar.

De repente, o homem apontou para Helena. Um dos tiros atingiu o bote, perto de onde ela estava sentada. A água começou a entrar, inundando o frágil veículo.

“O bote está furado!”, Clara gritou.

“Precisamos nadar!”, Rafael ordenou. “Helena, me dê a caixa!”

Helena hesitou por um segundo. A caixa era tudo o que Rafael tinha do pai, a única esperança de justiça. Mas a vida dele…

“Leve você!”, ela disse, entregando a caixa preta para ele. “Eu vou nadar com a Clara.”

Rafael a olhou, seus olhos cheios de uma dor profunda. “Não. Você fica com a caixa. Você a protegerá. Eu vou nadar para longe deles, para distraí-los. Vá para a ilha novamente. Encontre o ponto mais seguro e espere.”

“Não, Rafael! Eu não vou te deixar!”, Helena protestou, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

“Você precisa, Helena! Por mim! Por nós!”, ele implorou, sua voz carregada de desespero. “Eu te amo, Helena. Lembre-se disso.”

Antes que Helena pudesse responder, Rafael pulou na água, nadando com todas as suas forças para longe do bote furado, em direção ao barco inimigo. Os homens a bordo voltaram sua atenção para ele, atirando em sua direção.

“Rafael!”, Helena gritou, o coração partido.

“Vamos, Helena! Temos que ir!”, Clara a puxou, forçando-a a nadar.

Helena nadou com todas as suas forças, impulsionada pela adrenalina e pelo desespero. A água gelada a envolvia, mas o frio parecia insignificante comparado ao terror que a consumia. Ela olhou para trás uma última vez. Rafael estava nadando bravamente, mas os tiros eram implacáveis. Ele estava caindo.

Helena sentiu uma onda de desespero a invadir. Ela não podia acreditar. Rafael… ele estava…

“Não! Não!”, ela gritou, o som de sua voz se perdendo no barulho do mar.

Clara a segurou com força. “Helena, você tem que ser forte! Pelo Rafael! Você tem que sobreviver!”

Com a caixa preta pesando em suas mãos, Helena nadou em direção à ilha, com Clara ao seu lado, deixando para trás a escuridão que engolia o homem que amava.

Enquanto Helena lutava para sobreviver, uma lembrança sombria a atingiu. O rosto do homem no barco inimigo. Aquele olhar calculista. Ela a vira antes. Em uma foto antiga, no escritório do pai de Rafael. Era o rosto de Marcus Vinícius, o sócio do pai de Rafael. O homem que, segundo os boatos, havia se aproveitado da morte do amigo para assumir o controle dos negócios.

A verdade a atingiu como um golpe fatal. Marcus Vinícius estava por trás de tudo. Ele era quem a perseguia. E ele havia traído Rafael.

Capítulo 20 — O Santuário da Dor e a Chama da Vingança

O corpo de Helena ardia em cada fibra, o sal do mar irritando sua pele e a água fria penetrando até os ossos. A exaustão era um fardo pesado, mas a imagem de Rafael afundando nas águas escuras a impulsionava adiante. Clara, ao seu lado, nadava com uma determinação feroz, os olhos fixos na costa que se aproximava. A ilha, que antes representava esperança, agora se tornava um refúgio sombrio, o palco de sua dor dilacerante.

Finalmente, alcançaram a praia. Helena desabou na areia, o corpo tremendo incontrolavelmente. Clara se ajoelhou ao seu lado, abraçando-a com força.

“Ele se foi, Clara”, Helena sussurrou, a voz rouca de lágrimas e de desespero. “Rafael se foi.”

Clara a apertou mais forte. “Não diga isso, Helena. Não ainda. Precisamos ser fortes. Pelo Rafael. Você tem a caixa. É o que ele queria.”

Helena olhou para a maleta preta, que ainda apertava em seus braços. Era a última lembrança tangível de Rafael, o legado de um homem que amara com a intensidade de um furacão. Mas agora, essa caixa pesava mais do que qualquer outra coisa em sua vida. Era a prova do crime, o motor de sua dor e a faísca de uma vingança que começava a se acender em seu peito.

Eles se arrastaram para a vegetação, em busca de um local seguro para se esconder. Encontraram uma pequena caverna escondida atrás de uma cascata, um santuário natural que parecia selado do mundo exterior. Lá dentro, o ar era úmido e fresco, e a luz que filtrava pela água criava um jogo de reflexos místicos.

Helena abriu a caixa preta. Documentos, cartas antigas, fotografias em preto e branco. Ela folheou tudo com mãos trêmulas, buscando um significado, uma resposta para a tragédia que a assombrava. Encontrou cartas de amor entre o pai de Rafael e uma mulher desconhecida, documentos financeiros que revelavam transações suspeitas, e fotografias de Rafael com seu pai, sorrindo, em momentos felizes que agora pareciam distantes e irreais.

“Quem era Marcus Vinícius para o pai de Rafael?”, Helena perguntou, sua voz ecoando na caverna.

Clara, que examinava outro compartimento da caixa, respondeu: “Parece que eram sócios. Mas essas cartas… o pai de Rafael desconfiava dele. Achava que Marcus Vinícius estava se aproveitando dele, desviando dinheiro.”

“Ele o matou, Clara. Marcus Vinícius matou o pai de Rafael. E agora… ele matou Rafael para proteger seu segredo. Ele é um monstro.” A raiva, antes latente, explodia em Helena, uma força avassaladora que a consumia.

“Temos que ter cuidado, Helena. Se ele sabe que você está aqui, ele virá atrás de você. Ele quer essa caixa.” Clara alertou, a preocupação em sua voz.

“Ele não vai me pegar”, Helena disse, a voz firme e resoluta. “Rafael não morreu em vão. Eu vou expor Marcus Vinícius. Eu vou fazer justiça a ele e ao pai dele.”

Os dias na ilha se arrastaram em um ciclo de dor, luto e planejamento. Helena passava horas estudando os documentos, buscando cada detalhe, cada falha que pudesse incriminar Marcus Vinícius. Clara a apoiava incondicionalmente, sua presença uma âncora em meio à tempestade emocional.

Uma noite, enquanto a lua cheia banhava a ilha em uma luz prateada, Helena tomou uma decisão. Ela não podia mais se esconder. Ela precisava sair da ilha e enfrentar Marcus Vinícius.

“Eu vou voltar para Salvador”, Helena anunciou para Clara. “Tenho um plano.”

“Helena, isso é muito perigoso!”, Clara protestou.

“Eu sei. Mas não posso ficar aqui. Rafael confiou em mim. Ele confiou a mim a verdade. E eu não vou decepcioná-lo.” Helena pegou um dos envelopes da caixa, um com o selo de um advogado renomado em Salvador. “Este advogado trabalhou com o pai de Rafael. Se ele ainda estiver vivo, ele pode nos ajudar a expor Marcus Vinícius.”

Na manhã seguinte, com a caixa preta cuidadosamente escondida em uma bolsa impermeável, Helena e Clara partiram da ilha em um pequeno bote salva-vidas que encontraram. A brisa marinha parecia um prenúncio de perigo, mas Helena sentia uma força incomum percorrer seu corpo. A dor da perda se transformara em uma chama ardente de determinação. Ela não era mais a mulher que temia o amor, a mulher que se escondia nas sombras. Ela era uma mulher em busca de justiça, impulsionada pela memória do amor que a havia transformado e pela promessa de vingança que agora a guiava. O amor sem retorno havia deixado uma cicatriz em sua alma, mas também havia acendido nela uma chama indomável. E essa chama, ela sabia, seria a sua arma.

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