Amor sem Retorno III
Capítulo 4 — A Fuga para o Desconhecido
por Valentina Oliveira
Capítulo 4 — A Fuga para o Desconhecido
A notícia da confissão de Ricardo pesava sobre Isabella como uma rocha. As palavras dele, carregadas de remorso e confissão, ecoavam em sua mente, distorcendo a beleza serena de Paraty em um cenário de pesadelo. Cada onda que quebrava na praia parecia zombar dela, cada raio de sol parecia iluminar a escuridão de sua alma. Ela não podia mais ficar ali, respirando o mesmo ar que o homem que, direta ou indiretamente, fora responsável pela morte do amor de sua vida.
Enquanto Ricardo tentava, desesperadamente, argumentar, pedir perdão, Isabella sentia apenas um vazio crescente, uma necessidade avassaladora de fugir. Fugir dele, fugir daquele lugar, fugir de si mesma.
"Isabella, por favor, me escute!", Ricardo implorava, a voz rouca de desespero. "Eu sei que te magoei, que te assustei. Mas eu te amo! Eu te amo mais do que a minha própria vida! Eu não sou mais aquele homem. Deixe-me provar isso!"
Ela o olhou, os olhos transbordando de uma mistura de tristeza e repulsa. "Provar o quê, Ricardo? Que você é um manipulador perigoso? Que você brincou com a minha dor? Que você destruiu o homem que eu amava e agora quer me ter como seu prêmio de consolação?" Sua voz era um misto de fúria contida e fraqueza. "Você não me ama. Você me quer. E eu nunca mais serei sua."
Ela se virou, decidida. "Eu estou indo embora. Agora."
"Para onde você vai? Você não pode ir assim, sozinha!", Ricardo tentou impedi-la, agarrando seu braço.
Isabella o empurrou com força, a adrenalina correndo em suas veias. "Não me toque! Você não tem esse direito!" Ela correu para dentro da casa, o coração disparado, a mente em um turbilhão. Ela pegou a bolsa, sem se preocupar com o que levava, apenas com a urgência de partir.
Ao sair da mansão, Ricardo a seguiu, o rosto pálido, a voz cheia de angústia. "Isabella, por favor! Deixe-me te levar! Para onde você for, eu irei!"
Ela o ignorou, atravessando o gramado em direção à estrada. Um táxi, que ela havia discretamente chamado antes da confissão, esperava por ela. Ela abriu a porta traseira e entrou, sem olhar para trás.
"Para onde, senhorita?", perguntou o motorista, um homem de meia-idade com um semblante curioso.
Isabella hesitou por um instante. Para onde? A cidade parecia um lugar de dor. A casa de sua mãe, um poço de convenções sociais. A Europa? Os Estados Unidos? Ela não tinha um plano, apenas um impulso.
"Para o aeroporto", ela disse, a voz firme. "Qualquer voo para o sul. O mais rápido possível."
O motorista assentiu e acelerou. Isabella encostou a cabeça no banco, os olhos fechados, tentando processar a avalanche de emoções. A traição de Ricardo, a dor pela perda de Rafael intensificada pela culpa dele, a sensação de estar completamente perdida.
No aeroporto, ela comprou uma passagem de última hora para Porto Alegre, sem saber por que escolhera aquele destino. Talvez fosse o acaso, talvez uma força interior a guiasse para longe de tudo o que conhecia. O voo foi longo e silencioso. Ela observou as nuvens passarem, cada uma delas um pensamento fugaz, uma lembrança dolorosa.
Ao pousar em Porto Alegre, o ar frio do sul a atingiu, um contraste bem-vindo com o calor úmido do Rio. Ela pegou um táxi, a cidade desconhecida à sua frente, um borrão de luzes e edifícios.
"Onde a senhora gostaria de ir?", perguntou o motorista.
Isabella pensou por um instante. Ela precisava de um lugar para ficar, um lugar onde pudesse desaparecer por um tempo. "Um hotel simples, por favor. O mais discreto que você conhecer."
O motorista a levou a um pequeno hotel no centro da cidade, um lugar limpo, mas sem luxo. Isabella pagou a diária e subiu para o quarto, sentindo um misto de alívio e exaustão. Ela jogou a bolsa no chão e se jogou na cama, as lágrimas finalmente rolando livremente.
Os dias seguintes foram um borrão. Ela se isolou no quarto, saindo apenas para comer algo rápido e caminhar sem rumo pelas ruas de Porto Alegre. A cidade, com sua arquitetura histórica e seu clima ameno, oferecia um tipo diferente de solidão, um tipo mais silencioso, menos opressor. Ela observava as pessoas, suas vidas cotidianas, e se perguntava se algum dia conseguiria voltar a ser uma delas.
Uma tarde, enquanto caminhava pelo Parque Farroupilha, viu uma livraria charmosa, com uma vitrine repleta de livros antigos. Impulsionada por um súbito interesse, ela entrou. O aroma de papel e poeira a envolveu, um cheiro familiar e reconfortante. Ela vagou pelos corredores, seus dedos deslizando pelas lombadas dos livros.
Em uma prateleira mais afastada, encontrou uma coleção de poesias de Cecília Meireles. Ela pegou um dos livros, "Romanceiro da Inconfidência", e sentou-se em uma poltrona antiga, abrindo-o ao acaso. Seus olhos pousaram em um poema sobre a saudade, e uma lágrima solitária rolou por seu rosto.
De repente, uma voz a tirou de seus pensamentos. "Um belo livro, não acha?"
Isabella ergueu os olhos e viu um homem alto, com cabelos grisalhos e olhos gentis, um sorriso caloroso em seu rosto. Era o dono da livraria, como ela viria a descobrir.
"Sim", ela respondeu, a voz ainda embargada. "É lindo."
"A poesia tem esse poder, não é?", ele disse, aproximando-se um pouco. "De nos transportar para outros lugares, de nos fazer sentir coisas que guardamos no fundo do peito."
Isabella assentiu, sentindo uma conexão inesperada com aquele estranho. "Eu... eu nunca pensei muito sobre isso."
"Talvez seja a hora de começar", ele respondeu, com um brilho nos olhos. "Eu sou o Frederico, o dono desta humilde livraria. E se a senhora precisar de um refúgio, de um lugar para se perder em palavras, este lugar está sempre de portas abertas."
Ela sorriu, um sorriso genuíno, o primeiro em muito tempo. "Eu sou Isabella. E talvez... talvez eu precise de um refúgio."
Naquele momento, naquele pequeno refúgio de livros em uma cidade desconhecida, Isabella sentiu um fio tênue de esperança. A fuga para o desconhecido, por mais dolorosa que tivesse sido, estava começando a lhe oferecer algo que ela tanto buscava: um novo começo.
Enquanto isso, de volta a Paraty, Ricardo observava a mansão vazia, um eco de sua própria desolação. Ele sabia que havia perdido Isabella. E sabia que a confissão, embora necessária, fora o golpe final. Mas ele não desistiria. Ele a encontraria. Ele provaria a ela que seu amor era real, que ele podia ser o homem que ela merecia. A busca por Isabella havia se tornado a sua nova obsessão, o seu novo projeto. E ele era conhecido por nunca desistir de seus objetivos.