Contrato de Amor II

Contrato de Amor II

por Ana Clara Ferreira

Contrato de Amor II

Autor: Ana Clara Ferreira

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Capítulo 1 — O Retorno Inesperado

O sol, impiedoso, castigava as ruas de paralelepípedos de Ouro Preto, fazendo a pedra reter o calor e devolvê-lo em ondas sufocantes. Mas para Isabella Albuquerque, o calor que a envolvia não vinha apenas do clima implacável de Minas Gerais. Era um calor que emanava de dentro, uma mistura de ansiedade e uma ponta de esperança que ela se recusava a admitir em voz alta. A mala pesava em sua mão, não pelo conteúdo, mas pelo simbolismo que carregava: o fim de uma era, o recomeço incerto.

Há cinco anos, Isabella saíra daquela cidade histórica com o coração em frangalhos e a alma em pedaços. Deixara para trás não apenas a casa aconchegante da família, mas também a sombra de um amor que a consumira e a destruíra em igual medida. Alexandre Vilela. O nome, mesmo após tanto tempo, ainda ecoava em sua mente como um trovão distante, capaz de fazer tremer as fundações de sua recém-construída fortaleza emocional.

Ela parou por um instante, os olhos percorrendo a fachada imponente da Igreja de São Francisco de Assis, com sua ornamentação barroca, que parecia desafiar o tempo e a modernidade. As mesmas pedras antigas, os mesmos sinos que um dia anunciaram a felicidade e, em seguida, a desgraça. Tudo ali parecia imutável, enquanto ela, Isabella, era um turbilhão de mudanças. Tornara-se uma mulher mais forte, mais independente, com uma carreira sólida no mundo da moda em São Paulo. Tinha seu próprio apartamento, suas conquistas. Mas, no fundo, uma parte dela ainda se sentia a mesma garota assustada que fugira, buscando refúgio longe das memórias dolorosas.

O motivo do seu retorno era, ironicamente, o oposto de tudo o que ela desejava: o casamento de sua irmã mais nova, Manuela. Manuela, a eterna caçula, que sempre a vira como sua heroína, sua confidente. A ideia de reencontrar a família, de ser a irmã perfeita e a filha exemplar, era uma máscara que Isabella se propunha a usar. Mas a ideia de reencontrar Alexandre… essa era a verdadeira tempestade que a assustava.

Ela sabia que ele ainda morava em Ouro Preto. Sabia que ele havia herdado a vinícola da família, um negócio próspero que ele sempre amara com uma paixão avassaladora. Paixão que, um dia, ele jurara sentir por ela. A ironia era cruel.

"Isabella?"

A voz, grave e familiar, a atingiu como um golpe. Congelou, o sangue gelando nas veias. Virou-se lentamente, o coração martelando no peito, como se tentasse escapar da gaiola de costelas. Ali estava ele. Mais alto, talvez, com os ombros mais largos, a mandíbula ainda mais marcada. O mesmo olhar penetrante, capaz de desnudar sua alma. Alexandre Vilela, imperturbável como sempre, parado a poucos metros de distância, o sol realçando o brilho intenso de seus olhos escuros.

Seus cabelos negros estavam mais curtos, mas o jeito de se apoiar no carro de luxo, um modelo que ela não reconhecia, era o mesmo. Havia uma aura de poder e sucesso ao redor dele que a desarmava. Ela se esforçou para manter a compostura, para não demonstrar a avalanche de sentimentos que a invadia.

"Alexandre", ela conseguiu dizer, a voz mais rouca do que esperava.

Um leve sorriso brincou nos lábios dele, um sorriso que ela conhecia bem, capaz de derreter o gelo mais persistente. "Que surpresa agradável. Pensei que você não viria."

"Manuela é minha irmã, Alexandre. Eu não perderia o casamento dela por nada", respondeu, tentando manter um tom neutro, profissional.

Ele se aproximou, um passo hesitante, depois outro. O ar entre eles vibrava com a eletricidade do passado. Isabella podia sentir o cheiro dele, uma fragrância amadeirada e sutil, que avivava memórias adormecidas. "Você está… diferente", ele disse, os olhos percorrendo-a de cima a baixo, com uma intensidade que a fez sentir-se exposta.

"Cinco anos é tempo suficiente para qualquer um mudar, não acha?", ela retrucou, a voz um pouco mais firme.

"E você mudou muito. Está linda, Isabella. Mais do que eu me lembrava."

As palavras, ditas com tanta naturalidade, a atingiram como um afago indesejado. Ela desviou o olhar, fixando-o em um ponto qualquer da rua. "Obrigada. Você também parece… bem."

Ele riu, um som baixo e rouco. "Bem é pouco. Estou ótimo. A vinícola está indo de vento em popa. Ganhamos vários prêmios internacionais."

"Fico feliz por você", ela disse, e desta vez, havia uma ponta de verdade em suas palavras. Ela sempre admirara a dedicação dele àquela terra, àquela paixão.

"E você? São Paulo te tratou bem?"

"Tratou. Construí minha carreira lá."

"Eu imagino", ele disse, a voz carregada de uma ironia sutil. "A pequena Isabella Albuquerque se tornou a grande Isabella Albuquerque. O mundo da moda te abraçou, não é?"

Ela sentiu um aperto no peito. Ele sempre soube como cutucar suas inseguranças, como acessar as feridas que ela tanto se esforçava para manter fechadas. "Eu trabalhei duro por isso, Alexandre. E me orgulho do que conquistei."

"Eu sei que trabalhou. Você sempre foi determinada." Ele deu mais um passo, invadindo seu espaço pessoal de forma quase imperceptível. "Eu nunca duvidei disso."

O silêncio se instalou entre eles, denso e carregado de palavras não ditas, de sentimentos reprimidos. Isabella sentiu a necessidade de fugir, de se recolher em seu hotel, longe daquele homem que representava tudo o que ela tentara esquecer.

"Preciso ir", ela disse, quebrando o silêncio. "Minha mãe deve estar me esperando em casa."

Alexandre assentiu, o olhar fixo no dela. "Claro. Mas… quem sabe a gente não se esbarra por aí? Ouro Preto é um vilarejo pequeno."

Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "Talvez", respondeu, sem se comprometer. "Até mais, Alexandre."

"Até mais, Isabella."

Ela se virou e começou a caminhar, tentando controlar a respiração ofegante. A cada passo, sentia os olhos dele em suas costas, como um feitiço. O sol continuava a brilhar, mas para Isabella, o clima em Ouro Preto havia mudado drasticamente. Aquele retorno, que ela imaginara como um desafio a ser superado, acabara de se transformar em um campo minado. E Alexandre Vilela, o homem que a amou e a deixou, era o epicentro de tudo. O contrato de amor que ela pensava ter rasgado há muito tempo, parecia estar sendo reescrito com tinta invisível, prestes a emergir em toda a sua intensidade.

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