Contrato de Amor II
Capítulo 12 — A Visita Inesperada e a Teia de Mentiras
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 12 — A Visita Inesperada e a Teia de Mentiras
O sol da manhã mal despontava no horizonte, tingindo o céu de tons rosados e dourados, mas Helena já estava desperta. A noite anterior, marcada pela intensidade do beijo com Rafael e a subsequente sombra de dúvida, a deixara em um estado de vigília permanente. Sentada à mesa do café da manhã na varanda, com uma xícara de café fumegante entre as mãos, ela tentava organizar os pensamentos. A imagem de Rafael, a luta em seus olhos, as palavras evasivas... tudo isso a perturbava profundamente.
O som de uma buzina distante quebrou a tranquilidade. Helena franziu o cenho. Era cedo demais para visitas. O carro prateado parou em frente ao portão principal, e logo uma figura familiar desceu. Helena sentiu o estômago apertar. Era Clara, sua antiga rival no amor e nos negócios, agora casada com um dos mais poderosos empresários da região, o Sr. Valença.
Helena se levantou, a xícara pousada com um leve ruído na mesinha. A visita de Clara não podia ser coincidência. Algo estava errado. Ela caminhou até a porta de entrada, o coração batendo mais forte.
Clara, elegantemente vestida em um tailleur azul-marinho, desceu do carro com um sorriso forçado no rosto. Seus olhos, sempre perspicazes e um tanto frios, analisaram Helena de cima a baixo com uma sutileza que não passou despercebida.
"Helena, querida. Que surpresa não é?", disse Clara, a voz melodiosa, mas com um tom de ironia subjacente. "Perdoe a minha ousadia de aparecer tão cedo, mas é que eu estava passando pela região e pensei... por que não dar um alô?"
Helena forçou um sorriso. "Clara. É realmente uma surpresa. Mas entre, por favor. Que te traz por estas bandas?"
Enquanto Clara entrava na mansão, seus olhos percorriam cada detalhe com uma curiosidade quase invasiva. Ela parecia apreciar a opulência da casa, mas havia um brilho de inveja em seu olhar.
"Ah, você sabe", respondeu Clara, sentando-se em um dos sofás luxuosos da sala de estar, sem ser convidada. "Só vim ver como você estava. Ouvi uns boatos... sabe como é, o mundo dos negócios é pequeno."
Helena sentou-se em frente a ela, mantendo uma postura controlada. "Boatos? Que tipo de boatos?"
Clara tomou um gole da água que Helena lhe ofereceu, os olhos fixos nos dela. "Ah, boatos sobre... investimentos. Sobre novas parcerias. E, claro, sobre o retorno do nosso querido Rafael ao cenário empresarial."
A menção de Rafael fez Helena prender a respiração por um instante. Era óbvio que Clara não viera por acaso. "Rafael está focado em seus projetos. Nada de novo por aqui."
"Sério?", Clara arqueou uma sobrancelha, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios. "Porque o que chegou aos meus ouvidos foi bem diferente. Dizem que ele está fazendo uma parceria estratégica com uma nova empresa. Uma empresa que, curiosamente, está sendo gerida por você, Helena. Uma parceria que, aliás, tem um sabor bem familiar. Quase como um déjà vu do passado."
Helena sentiu um suor frio escorrer pela testa. Era impossível que Clara soubesse. Como ela poderia saber? "Não sei do que você está falando, Clara. Rafael e eu estamos apenas... reconectando em um nível pessoal. Os negócios são assuntos separados."
"Ah, Helena, você sempre foi tão ingênua", Clara riu, um som que não alcançou seus olhos. "Acha mesmo que Rafael faria algo assim sem envolver o que é dele? Sem reaver o que ele sente que lhe pertence? Ou talvez você esteja envolvida de outra forma. Uma forma mais... íntima."
A insinuação era clara e cruel. Helena se sentiu invadida, enojada pela malícia de Clara. "Não ouse, Clara. Você não sabe nada sobre nós."
"Eu sei o suficiente", Clara retrucou, inclinando-se para frente. "Sei que Rafael tem um passado complicado. Sei que ele foi traído. E sei que ele é um homem que não perdoa facilmente. E agora, ele está de volta, com todo o poder que o dinheiro e a vingança podem comprar. E você, Helena, parece estar bem no meio dessa tempestade."
A menção da vingança fez um arrepio percorrer a espinha de Helena. Rafael havia falado sobre proteção, sobre perigo. Seria isso? Uma vingança elaborada onde ela seria uma peça?
"Você está insinuando algo terrível, Clara", Helena disse, a voz tremendo levemente. "Rafael nunca faria algo para me machucar."
"Ah, mas o amor pode ser um veneno poderoso, querida. E a vingança, uma arma ainda maior", Clara disse, levantando-se. "Só vim te alertar. O passado tem uma forma de se repetir, e os erros de hoje podem ser muito mais caros amanhã. Especialmente quando envolvem um homem como Rafael. Pense bem, Helena. Pense nas pessoas que podem ser prejudicadas nesse jogo. Pense no seu próprio futuro."
Com essas palavras, Clara se dirigiu à porta, deixando Helena em um estado de profunda angústia. A visita de Clara, longe de ser uma demonstração de preocupação, fora uma clara tentativa de plantar sementes de dúvida e medo. A teia de mentiras e insinuações que Clara teceu parecia se fechar sobre Helena, sufocando a pouca confiança que ela havia começado a depositar em Rafael.
Helena correu para o escritório de Rafael, o coração em disparada. Ela precisava confrontá-lo, entender o que Clara quis dizer. Encontrou-o em meio a pilhas de documentos, a testa franzida em concentração.
"Rafael!", ela exclamou, a voz carregada de urgência.
Ele levantou a cabeça, surpreso com a agitação dela. "Helena? O que aconteceu?"
"Clara esteve aqui", Helena disse, a respiração ofegante. "Ela disse coisas... sobre você, sobre nós, sobre os negócios. Ela insinuou que você está usando nossa reaproximação para um objetivo maior. Que há uma vingança envolvida."
Rafael suspirou, o peso do mundo parecendo cair sobre seus ombros. Ele fechou os papéis com um movimento brusco. "Clara sempre foi uma manipuladora. Ela tenta criar discórdia onde não existe."
"Mas e se existir, Rafael?", Helena insistiu, os olhos marejados. "Ela disse que você está fazendo uma parceria com a minha empresa. Que há um sabor familiar nisso. Ela insinuou que você está voltando para reaver o que é seu. O que ela quis dizer com isso?"
Rafael se levantou, caminhando até ela. Ele a segurou pelos braços, o olhar intenso. "Helena, o que Clara disse é uma distorção da verdade. Sim, há uma parceria. Uma parceria que eu estou construindo com você. Uma forma de unir nossos mundos, de criar algo novo. E, sim, o passado é complexo, mas não é uma arma que pretendo usar contra você."
"Mas e a vingança, Rafael? Ela falou sobre vingança. Sobre traição." A voz de Helena era um sussurro.
Rafael hesitou, um lampejo de dor cruzando seu rosto. "Houve traição, Helena. No passado. Mas não da sua parte. E a vingança que você menciona... é uma vingança contra aqueles que me prejudicaram, que prejudicaram minha família. Não é contra você. Nunca seria."
"E quem são essas pessoas, Rafael? Por que você não me conta? Por que esconder isso de mim se você diz que quer reconstruir algo?" A angústia em sua voz era palpável. Ela precisava da verdade, não de meias-palavras.
Rafael desviou o olhar, a luta interna evidente em seu semblante. "É complicado, Helena. Proteger você é a minha prioridade. Algumas verdades são pesadas demais para serem compartilhadas sem que causem dano."
"Mas o silêncio também causa dano, Rafael!", Helena exclamou, as lágrimas finalmente escorrendo por seu rosto. "Clara plantou a dúvida. E o seu silêncio, sua evasiva... só a alimenta. Eu preciso saber em quem acreditar. E, neste momento, a única certeza que tenho é a minha própria confusão."
Ela se afastou dele, a dor da incerteza pesando em seu peito. A visita de Clara fora um golpe certeiro, e a falta de transparência de Rafael, por mais que ele alegasse ser para protegê-la, só a afastava dele. A teia de mentiras, tecida por Clara e reforçada pelo silêncio de Rafael, parecia envolver Helena, ameaçando prendê-la em um labirinto de desconfiança e sofrimento. A promessa de um futuro que parecia tão próxima na noite anterior, agora, parecia mais distante do que nunca.