Contrato de Amor II
Capítulo 2 — Segredos e Sussurros na Vinícola
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 2 — Segredos e Sussurros na Vinícola
A tarde avançava em Ouro Preto, pintando o céu com tons alaranjados e rosados, um espetáculo que, outrora, Isabella contemplava com o coração leve. Agora, cada pôr do sol parecia carregar um peso extra, um lembrete silencioso do tempo que passara e das mudanças que o tempo impõe. O jantar na casa dos pais, um ritual familiar que ela tanto evitara, finalmente se materializou. A casa, a mesma em que crescera, exalava o perfume reconfortante do bolo de fubá e do café fresco, mas para Isabella, era também o aroma de memórias agridoce.
Sua mãe, Dona Helena, uma senhora de cabelos brancos e olhar doce, a abraçou com a força de quem não vê a filha há anos. O reencontro foi caloroso, repleto de lágrimas e sorrisos. Seu pai, Seu Antônio, um homem de poucas palavras, mas de afeto transbordante, a recebeu com um aperto firme de mão e um abraço paternal que a fez se sentir, por um instante, segura novamente. Manuela, a noiva radiante, não cabia em si de felicidade, correndo de um lado para outro, ansiosa com os preparativos do casamento.
"Você demorou tanto, mana!", Manuela exclamou, os olhos brilhando de expectativa. "Eu estava morrendo de saudades!"
"Também senti saudades, minha linda. Mal posso esperar para ver você subir ao altar."
O jantar transcorreu em meio a conversas animadas, risadas e a troca de notícias. Isabella se esforçou para manter a fachada de serenidade, de quem está totalmente presente e feliz. Mas a cada menção a Ouro Preto, a cada sorriso de sua família, a sombra de Alexandre Vilela pairava em sua mente. Ela se perguntava se ele sabia do jantar, se ele estaria pensando nela. A paranoia a consumia, um sentimento que ela reconhecia como um legado de sua relação com ele.
"E o Alexandre, você o encontrou?", Dona Helena perguntou, de repente, com uma inocência que a fez engasgar com o suco.
Isabella tossiu, disfarçando. "Encontrei, mãe. Foi uma coincidência."
"Ah, que bom!", Dona Helena suspirou, aliviada. "Ele é um rapaz tão bom, Isabella. Sempre soube que vocês dois tinham algo especial."
Isabella sentiu o rosto corar. "Mãe, já faz muito tempo. E ele está noivo, não está?"
Manuela pigarreou, um leve rubor nas bochechas. "Não, mana. O Alexandre não está noivo. Quer dizer… ele esteve noivo por um tempo, mas terminou."
Um nó se formou na garganta de Isabella. A notícia, que deveria ser indiferente, a atingiu com força inesperada. "Ah, é? Não sabia."
"Sim, ele terminou há uns seis meses", continuou Manuela, com uma naturalidade que contrastava com a agitação interna de Isabella. "A noiva era uma moça de Belo Horizonte. Dizem que era por causa da vinícola. Ele é muito dedicado a isso."
A dedicação. Sempre a dedicação. Isabella sentiu um misto de alívio e um pesar inexplicável. Ela sabia que a vinícola era a paixão de Alexandre, seu legado. Mas a ideia de que ele pudesse ter encontrado um amor compatível, que pudesse ter seguido em frente de verdade, era algo que a incomodava mais do que ela estava disposta a admitir.
"Ele se tornou um homem de sucesso, não é?", Seu Antônio comentou, limpando os óbios. "Sempre soube que ele seria um grande empresário. A vinícola Vilela é um orgulho para Ouro Preto."
Isabella concordou com a cabeça, a mente a mil. A vinícola. Era o palco principal de muitas de suas memórias com Alexandre. Os passeios pelos parreirais, as degustações secretas no porão, as noites estreladas onde ele lhe jurara amor eterno.
"Aliás", disse Dona Helena, com um brilho nos olhos, "Manuel e eu vamos dar uma festa na vinícola na semana que vem. Uma recepção para os noivos, para reunir os amigos mais próximos. Você precisa vir, Isabella. E o Alexandre também confirmou."
O coração de Isabella deu um salto. Uma festa. Na vinícola. Com Alexandre. Era como se o destino estivesse rindo dela, orquestrando um reencontro ainda mais inevitável. Ela forçou um sorriso. "Claro, mãe. Não perderia por nada."
Nos dias seguintes, Ouro Preto parecia conspirar para aproximá-la de Alexandre. Em cada esquina, em cada café, ela se pegava procurando por ele. A cidade, com sua beleza bucólica e seu ritmo lento, parecia ter se tornado pequena demais para abrigar as memórias de ambos. Isabella tentava se ocupar com os preparativos do casamento, com as compras, com as visitas a amigos antigos. Mas a presença mental de Alexandre era constante.
Um dia, enquanto examinava uma loja de artesanato, um colar de prata com um pequeno pingente de pedra da sorte chamou sua atenção. Era idêntico a um que Alexandre lhe dera anos atrás, antes de tudo desmoronar. Ela o pegou, os dedos traçando a forma familiar, uma onda de nostalgia a inundando. Por um instante, ela quase o comprou. Mas o bom senso prevaleceu. Ela não precisava de lembretes físicos.
Na noite anterior à festa na vinícola, Isabella decidiu fazer uma caminhada pelas ruas históricas. A lua cheia banhava as construções coloniais com uma luz prateada, criando um cenário de tirar o fôlego. Ela se sentiu atraída pela estrada que levava à vinícola Vilela, um caminho que ela conhecia de cor. A tentação era forte demais.
Ela parou no portão, as mãos apertando o volante. As luzes da casa principal estavam acesas. A música suave ecoava pelo ar. O aroma das uvas e da terra chegava até ela. Respirou fundo, o coração acelerado. A curiosidade a impelia. Queria ver, queria sentir o ambiente que ele tanto amava.
Ela desceu do carro, as sandálias de salto afundando levemente na terra batida. Caminhou em direção aos parreirais, a silhueta esguia de sua figura destacando-se contra a paisagem iluminada. As videiras, curvadas sob o peso dos cachos de uvas maduras, pareciam segredos ancestrais sussurrando ao vento.
"Bellissima?"
A voz, suave e inesperada, fez com que ela se virasse bruscamente. Alexandre estava ali, perto de uma das videiras, um copo de vinho na mão, observando-a com um sorriso nos lábios. Ele parecia estar relaxado, em seu ambiente natural.
"Alexandre", ela murmurou, surpresa, mas não totalmente chocada. Era quase como se ela o tivesse esperado.
"O que faz aqui tão tarde? Perdida?"
"Não. Só… passeando. Eu gosto daqui."
"Eu sei que gosta", ele disse, aproximando-se dela. "Você sempre gostou." Ele parou a poucos passos de distância, o olhar fixo no dela. "Veio ver como estão as coisas?"
"Algo assim. É impressionante, Alexandre. A vinícola… você fez um trabalho incrível."
"É o meu legado, Isabella. E o legado da minha família. Algo que aprendi com você, sabia?"
"Comigo? Como assim?"
"Com a sua paixão pela moda. A sua dedicação. Você me mostrou o que significa amar o que se faz." Ele tomou um gole de vinho, os olhos nunca deixando os dela. "E isso me inspirou a amar ainda mais a vinícola."
Ela sentiu um arrepio. As palavras dele tinham um duplo sentido que a perturbava. "Alexandre, eu…"
"Não precisa dizer nada, Isabella", ele a interrompeu suavemente. "Eu sei que você está aqui por Manuela. E eu também. Mas… seria mentira dizer que não fiquei feliz em te ver."
Um silêncio se instalou entre eles, preenchido apenas pelo som distante da música e o sussurro do vento entre as folhas das videiras. Isabella sentiu o peso de todos aqueles anos, de todas as mágoas e de toda a saudade reprimida. O contrato de amor, que ela acreditava ter sido assinado e selado em um passado distante, parecia estar ali, em volta deles, invisível, mas palpável. A festa na vinícola seria apenas o começo. Os segredos e os sussurros do passado estavam prestes a ressurgir, mais intensos do que nunca.