Contrato de Amor II
Capítulo 3 — O Brinde e a Dança do Passado
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 3 — O Brinde e a Dança do Passado
A festa na vinícola Vilela era um espetáculo de luzes e aromas. Lanternas suspensas entre as videiras projetavam um brilho dourado sobre os convidados, criando uma atmosfera mágica e intimista. O perfume das uvas maduras misturava-se ao aroma adocicado das flores em arranjos impecáveis, e o som suave de um quarteto de cordas preenchia o ar. Era a celebração do amor de Manuela e seu noivo, mas para Isabella, era também um palco para um reencontro que ela tentava desesperadamente controlar.
Ela estava deslumbrante. Um vestido longo de seda azul-marinho, que realçava a elegância de sua silhueta, e cabelos presos em um coque sofisticado, com alguns fios soltos emoldurando seu rosto. Estava acompanhada de seus pais e de Manuela, que irradiava felicidade em um vestido branco simples e elegante.
Alexandre, impecável em um terno escuro, era o anfitrião perfeito. Circulava entre os convidados com desenvoltura, distribuindo sorrisos e cumprimentos. Seus olhos, de vez em quando, cruzavam com os de Isabella, e cada olhar era como um choque elétrico, carregado de um passado que eles não conseguiam apagar.
O brinde foi um momento de emoção. Seu Antônio, com a voz embargada, homenageou a filha e o futuro genro, desejando-lhes toda a felicidade do mundo. Dona Helena, emocionada, compartilhou memórias de infância de Manuela, arrancando risos e lágrimas dos presentes. Quando chegou a vez de Alexandre, ele pegou a taça com uma serenidade que contrastava com a turbulência que Isabella sentia.
"É uma honra para mim, como vizinho e amigo da família Albuquerque, estar aqui celebrando o amor de Manuela e [Nome do Noivo]", ele começou, a voz ressoando clara e potente. "Sempre vi Manuela como uma irmã mais nova, e hoje, vê-la tão feliz ao lado de [Nome do Noivo], enche meu coração de alegria. Desejo a vocês uma vida repleta de amor, cumplicidade e felicidade. Que cada dia seja uma nova descoberta, e que o amor que os une se fortaleça a cada amanhecer."
Ele ergueu a taça, e todos o acompanharam. Isabella ergueu a sua, o olhar fixo em Alexandre. Ele sustentou o olhar por um instante, e um leve sorriso surgiu em seus lábios. Um sorriso que ela conhecia tão bem, carregado de significados que apenas os dois podiam decifrar.
Após o brinde, a música mudou, tornando-se mais animada, convidando os presentes para a pista improvisada entre as mesas. Manuela, puxada pelo noivo, logo se juntou à dança. Isabella, no entanto, permaneceu sentada, observando o movimento. Ela não se sentia pronta para dançar, para se entregar àquele ambiente festivo, enquanto as lembranças a assaltavam a cada instante.
"Não vai dançar?", Alexandre perguntou, aparecendo ao seu lado como um fantasma. Ele segurava duas taças de vinho.
Ela o olhou, surpresa. "Estou um pouco cansada."
"Um pouco de dança faz bem para alma", ele disse, estendendo-lhe uma taça. "E para matar a saudade do passado."
Ela hesitou por um momento, mas acabou aceitando a taça. "Obrigada."
"Eu me lembro de uma vez", ele começou, a voz baixa, como se compartilhasse um segredo. "No seu aniversário de dezoito anos. Você estava usando um vestido vermelho, e eu a puxei para dançar essa mesma música. Você estava tão linda, e eu me senti o homem mais sortudo do mundo."
Isabella sentiu um rubor subir pelo pescoço. A memória era vívida. Ele a girara pela pista, os olhos fixos nos dela, sussurrando palavras que fizeram seu coração disparar. "Eu me lembro", ela respondeu, a voz quase inaudível.
"E você se lembra do que eu te disse depois?", ele perguntou, a voz ainda mais baixa, carregada de uma intensidade que a fez estremecer.
Ela negou com a cabeça, o coração batendo descompassado.
Ele se aproximou, o hálito quente em seu rosto. "Eu te disse que a amava. Que a amava mais do que a tudo neste mundo."
As palavras, ditas ali, naquele lugar, naquele momento, a atingiram com a força de um raio. Ela olhou nos olhos dele, procurando por sinais de brincadeira, de sarcasmo. Mas encontrou apenas a mesma paixão que a consumira anos atrás.
"Alexandre, por favor...", ela sussurrou, tentando se afastar.
"Por favor o quê, Isabella? Por favor, não te diga que ainda te amo? Que ainda sonho com você todas as noites?"
Ele a puxou delicadamente pela mão, conduzindo-a para o centro da pista de dança. A música, que antes parecia animada, agora soava como um eco de seus corações acelerados. Ele a abraçou pela cintura, e ela, sem perceber, envolveu os braços em seu pescoço. Dançavam lentamente, um passo à frente, um passo atrás, em um ritmo que parecia pertencer apenas a eles.
"Você não deveria fazer isso, Alexandre", ela murmurou contra o peito dele. "Isso é errado."
"Errado é fingir que o que sentimos não existe", ele respondeu, a voz rouca. "Cinco anos, Isabella. Cinco anos tentando te esquecer. E não consegui."
Ela levantou o olhar para ele. A lua cheia parecia iluminar seus rostos, testemunha silenciosa daquele reencontro proibido. As lágrimas começaram a rolar por seu rosto, e ela não se preocupou em contê-las.
"Eu sofri tanto, Alexandre", ela disse, a voz embargada pelo choro. "Você me destruiu."
"Eu sei", ele sussurrou, apertando-a mais forte. "E eu me arrependo todos os dias. Mas eu era jovem, Isabella. Burro. Com medo."
"Medo de quê?"
"Medo de que você fosse mais feliz sem mim. Medo de que a minha paixão te sufocasse. E, no fim, eu te sufoquei com a minha ausência." Ele afastou um pouco o rosto, os olhos fixos nos dela. "Eu te amo, Isabella. E eu nunca deixei de te amar."
A confissão pairou no ar, carregada de anos de silêncio e dor. Isabella sentiu seu corpo tremer. Ela queria correr, fugir daquela intensidade, daquela paixão que a consumia. Mas seus pés pareciam presos ao chão.
De repente, Manuela se aproximou, o sorriso radiante no rosto. "Mana! Que bom que você veio dançar! Que casal lindo vocês fazem!"
Isabella se afastou rapidamente de Alexandre, o coração disparado. A realidade a atingiu com força. Manuela. O casamento. A família. Ela não podia se deixar levar por aquele momento.
"É uma música antiga, Manuela", ela disse, forçando um sorriso. "Só quis matar a saudade."
Alexandre a observava, o olhar carregado de uma tristeza que ela reconheceu. Ele sabia, assim como ela, que aquele momento, por mais intenso que fosse, era apenas um resquício do passado.
"Vou buscar um pouco de água", Isabella disse, se afastando rapidamente.
Ela se refugiou em um canto mais afastado da festa, perto das barricas de vinho. A mente a mil. Alexandre. O amor dele. A dor dela. Aquele contrato de amor que ela pensava ter encerrado, parecia estar ganhando vida própria, ressurgindo das cinzas com uma força avassaladora. A festa, que deveria ser uma celebração de um novo amor, estava se tornando o palco de um drama antigo, reescrito com a intensidade da paixão e a dor da separação. A dança havia terminado, mas a melodia do passado continuava a ecoar em seu coração, prometendo um futuro incerto e perigoso.