Contrato de Amor II
Capítulo 7 — A Armadilha e a Confissão Ardente
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 7 — A Armadilha e a Confissão Ardente
O silêncio na Villa Conti era denso, pesado com as emoções que borbulhavam sob a superfície. Sofia, com um curativo na testa e um ar de fragilidade calculada, era o centro das atenções de Lorenzo. Ele a ajudava a se sentar em um sofá de veludo, sua preocupação transbordando em gestos gentis. Isabella observava a cena de longe, um nó se apertando em sua garganta. A proximidade deles, a forma como ele a olhava, acendia nela uma chama de insegurança que ela lutava para controlar.
"Eu ainda não consigo acreditar que você caiu daquele jeito, Sofia", Lorenzo dizia, a voz cheia de apreensão. "Você tem certeza que está bem? Devíamos chamar um médico."
Sofia acariciou a testa, um sorriso melancólico nos lábios. "Não, Lorenzo, não se preocupe comigo. É apenas um arranhão. O que me machucou de verdade foi o susto. E a forma como você me olhou quando eu caí..." Ela lançou um olhar significativo para Isabella, que desviou o olhar, sentindo as bochechas corarem. "Parecia que você estava me acusando de algo."
Isabella sentiu uma onda de indignação. Acusando? Ela não estava acusando, estava apenas observando. Mas a manipulação de Sofia era tão óbvia, tão cruel. Ela sabia que aquela queda não fora um acidente. Era uma jogada, uma armadilha para criar uma cena, para forçar Lorenzo a tomar partido, para afastá-la.
"Ninguém está acusando você de nada, Sofia", Lorenzo disse, tentando apaziguar os ânimos. "Isabella apenas se assustou com o barulho. Todos nós nos assustamos."
"Ah, sim, o barulho...", Sofia murmurou, olhando para o caco de vidro ainda no chão. "Parece que minhas mãos começaram a tremer de repente. Devo estar mais abalada do que pensei." Ela se virou para Isabella, com um sorriso que não alcançava os olhos. "Desculpe, Isabella. Eu realmente não queria te assustar."
A falsidade da desculpa era palpável. Isabella deu um passo à frente, a raiva superando o medo. "Sofia, você sabe muito bem que isso não foi um acidente. Você fez isso de propósito."
Os olhos de Sofia se arregalaram, fingindo surpresa. "Como você pode dizer uma coisa dessas, Isabella? Eu estou machucada! E você me acusa de encenar?"
"Eu a vi", Isabella declarou, a voz firme. "Você estava me olhando. E então você deixou o abajur cair."
Lorenzo se levantou, a expressão tensa. "Isabella, por favor. Não vamos criar um escândalo."
"Escândalo?", Isabella repetiu, a voz embargada pela emoção. "O escândalo foi você me deixar à mercê dela ontem à noite! O escândalo é você tratá-la como uma rainha ferida, quando ela é a única que está jogando sujo aqui!"
As palavras saíram em um jorro, uma torrente de frustração e dor acumulada. Ela se virou para Lorenzo, os olhos marejados. "Eu não entendo, Lorenzo. Por que você está fazendo isso comigo? Por que você está me afastando?"
Lorenzo a olhou, o semblante atormentado. Ele sabia que Isabella estava certa. Sabia que Sofia estava manipulando a situação. Mas o medo era maior do que a sua coragem. O medo de que Sofia revelasse o segredo, o medo de perder tudo.
Sofia, percebendo a fragilidade de Lorenzo, aproveitou o momento. Ela se levantou, apoiando-se em Lorenzo, e sussurrou em seu ouvido: "Lorenzo, eu realmente não me sinto bem. Talvez eu devesse ir para o meu quarto. E talvez eu precise descansar longe de... tensões."
Lorenzo assentiu, um misto de alívio e culpa estampados no rosto. "Claro, Sofia. Vou te acompanhar." Ele se virou para Isabella, um pedido de desculpas silencioso em seus olhos. "Isabella, depois conversamos."
Mas Isabella já não esperava por uma conversa. A confiança que ela começara a depositar nele se despedaçara. Ela se sentiu traída, humilhada. Sem dizer mais uma palavra, ela se virou e saiu da sala, deixando Lorenzo para trás com sua "amiga" do passado.
Correndo para os seus aposentos, Isabella trancou a porta e desabou em lágrimas. A vinícola, que antes parecia um refúgio, agora se transformara em uma gaiola de decepções. Ela pensou em voltar para o Brasil, em desistir de tudo. O contrato, a paixão incipiente por Lorenzo, tudo parecia um sonho distante e irrealizável.
Enquanto isso, Lorenzo, após deixar Sofia em seu quarto, sentiu o peso da própria covardia. Ele sabia que estava cometendo um erro. Isabella o encarava com uma sinceridade que o desarmava, e ele, em seu medo, a afastara. Ele precisava falar com ela, precisava contar a verdade, mesmo que isso o colocasse em risco.
Ele foi até o quarto de Isabella, bateu na porta, mas não obteve resposta. Ele bateu novamente, mais forte. "Isabella, por favor, me deixe entrar. Precisamos conversar."
O silêncio do outro lado da porta era a única resposta. Lorenzo se sentou no chão, encostado na madeira fria, sentindo a frustração crescer. Ele havia se permitido sentir algo por Isabella, algo que há muito tempo acreditava ter perdido para sempre. E agora, por causa de seu medo e da manipulação de Sofia, ele estava prestes a estragar tudo.
Horas depois, quando a noite já caíra e as estrelas começavam a pontilhar o céu, Isabella ainda estava em seu quarto, o peito apertado. A porta se abriu de repente. Era Lorenzo. Ele entrou, o rosto marcado pela preocupação e pela resolução.
"Isabella, eu não posso mais fingir", ele disse, a voz carregada de uma urgência que a fez erguer o olhar. "Sofia é uma ameaça. Ela quer me destruir, e se ela conseguir, vai destruir você também."
Ele se aproximou dela, ajoelhou-se diante dela, segurando suas mãos. "Eu fui um covarde. Eu deixei o medo me dominar. Mas eu não posso mais. Eu preciso te contar a verdade."
Os olhos de Lorenzo eram intensos, desesperados. Ele não estava mais se escondendo. "Sofia e eu... tivemos um relacionamento há muitos anos. Um relacionamento tóxico, controlador. Ela se tornou obcecada por mim. Quando eu a deixei, ela jurou que se vingaria. E essa vingança envolveu... me chantagear. Ela tem algo que pode arruinar minha reputação, minha empresa, tudo o que eu construí."
Isabella o ouvia, o coração batendo forte no peito. A confissão era avassaladora, mas a sinceridade nos olhos de Lorenzo era inegável.
"E ela veio para cá, para a Itália, porque sabe que eu estou com você. Ela quer me ver sofrer. Ela quer separar nós dois." Lorenzo apertou as mãos de Isabella. "Eu me apaixonei por você, Isabella. Pela sua força, pela sua bondade, pela sua luz. E eu não vou deixar que Sofia tire isso de mim. Eu não vou deixar que ela te machuque."
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Isabella. Era uma lágrima de alívio, de compreensão, mas também de medo. O amor que ela começava a sentir por Lorenzo era real, profundo. E agora, ele estava envolto em um perigo que ela não imaginava.
"E o contrato?", ela sussurrou. "Era por causa disso que você estava me mantendo distante?"
Lorenzo negou com a cabeça. "O contrato foi o início. Foi uma forma de ter você por perto, de te proteger sob meu teto. Mas eu me apaixonei de verdade, Isabella. E o contrato se tornou secundário. O que me assusta é a ideia de perder você para sempre, de ver você machucada por causa dos meus erros."
Ele se aproximou mais, o rosto a centímetros do dela. O perfume dele, a aura de perigo e paixão que o cercava, tudo a atraía irresistivelmente. "Eu sei que confiei em você, e você não me decepcionou. Agora é a minha vez de te mostrar que você pode confiar em mim."
Seus lábios se encontraram em um beijo que era ao mesmo tempo desesperado e urgente. Um beijo que falava de segredos revelados, de medos superados, de uma paixão que ardia mais forte do que qualquer ameaça. Era um beijo de entrega, de promessa, um beijo que selava não apenas um contrato, mas um destino. E naquele momento, sob o olhar cúmplice das estrelas, Isabella soube que estava irrevogavelmente apaixonada por Lorenzo Conti.