Entre o Amor e o Ódio III
Capítulo 2 — O Reencontro Inesperado sob Chuva Forte
por Isabela Santos
Capítulo 2 — O Reencontro Inesperado sob Chuva Forte
A chuva caía com uma fúria que espelhava a turbulência que começava a agitar a alma de Sofia. As gotas grossas e incessantes transformavam as ruas do Rio em rios escuros e brilhantes, e o som constante do aguaceiro abafava os ruídos da cidade, criando uma atmosfera de introspecção forçada. Sofia, sentada à mesa de seu elegante apartamento na Urca, observava a cortina d'água que descia pela imensa janela panorâmica, sentindo um calafrio que não provinha apenas da brisa que entrava pela fresta de uma janela mal fechada.
A sensação de que o passado batia à sua porta era cada vez mais palpável. A presença de André em território carioca não era mais um mero boato, mas um fato anunciado pelos jornais de fofoca e sussurrado nos círculos empresariais. Ele voltara. Depois de cinco anos de silêncio absoluto, como um fantasma de sua antiga vida, André Vasconcelos havia retornado. E o simples fato de seu nome ecoar novamente em sua mente era o suficiente para desestabilizá-la, para despertar as memórias adormecidas que ela lutava tanto para manter aprisionadas.
"Droga", ela murmurou, apertando a caneca de chá entre as mãos. A força que ela exibia em seus casos jurídicos, a frieza que a tornara uma advogada temida, pareciam se esvair diante da simples menção do nome dele. André não era apenas um ex-amor; era a personificação de sua maior dor, a lembrança viva de um amor que a consumiu e a deixou em pedaços.
Ricardo, que a visitava naquela noite para discutir um caso pendente, a observava com atenção. Ele sabia que a volta de André seria um gatilho para Sofia, e se preocupava com o impacto que isso teria sobre ela. "Ele disse que está em um hotel no Leblon. Nada de extraordinário para um homem de sua magnitude", comentou Ricardo, tentando soar casual. "Mas confesso que a volta dele me deixa intrigado. O que será que o traz de volta ao Brasil depois de tanto tempo?"
Sofia deu de ombros, mas seus olhos, fixos na chuva lá fora, revelavam uma tensão crescente. "Provavelmente os mesmos motivos que o levaram a fugir: dinheiro e poder. André nunca foi de cultivar laços afetivos, Ricardo. Seus interesses são puramente egoístas." A aspereza em sua voz era uma armadura bem polida.
"E você acredita que ele não tem mais interesse em você?", Ricardo perguntou, ousando ir direto ao ponto.
Sofia virou-se para ele, seus olhos verdes faiscando. "Eu não acredito que ele tenha interesse em ninguém além dele mesmo. E eu, Ricardo, estou muito longe de ser um alvo fácil. Ele aprendeu isso da pior maneira." A lembrança do dia em que ela o confrontou, quando descobriu sua traição, ainda a arrepiava. A dor fora avassaladora, mas a raiva a impulsionou. Ela se reinventou, construiu uma carreira sólida, e se tornou uma mulher que ele jamais reconheceria.
"Espero que esteja certa", disse Ricardo, sincero. "Porque se ele voltar para tentar te manipular novamente, a Sofia de hoje não é a mesma que ele deixou para trás."
O som do interfone quebrou o silêncio tenso entre eles. Sofia se levantou com um sobressalto. "Quem poderia ser a essa hora, com essa chuva toda?" Ela caminhou até o intercomunicador, o coração batendo descompassado. Ao ver o nome na tela, seu sangue gelou. André Vasconcelos.
Por um instante, ela pensou em não atender. Em ignorar a presença dele como se ele fosse apenas mais um fantasma em sua mente. Mas a advogada resiliente que habitava nela não se deixava abater por fantasmas. Ela ativou o microfone. "Sim?"
A voz dele, grave e inconfundível, atravessou o interfone, carregada de uma familiaridade que a atingiu como um soco. "Sofia. Sou eu. André."
Um silêncio se estendeu, preenchido apenas pelo som da chuva. Sofia sentiu um nó se formar em sua garganta. Era real. Ele estava ali, na porta de seu prédio.
"O que você quer, André?", ela perguntou, sua voz surpreendentemente firme, apesar da tempestade interna que a assolava.
Houve uma pausa. "Podemos conversar? Só um minuto."
Ricardo observava Sofia, a tensão em seu rosto era palpável. Ele sabia que essa era uma batalha que ela teria que enfrentar sozinha.
Sofia respirou fundo. Ela não fugiria. Não mais. "Suba."
Enquanto esperava, ela se arrumou, tentou controlar a respiração, a batida frenética de seu coração. A sala de estar, antes um refúgio de paz, agora parecia um palco de um drama que ela não desejava encenar. Ela se sentia exposta, vulnerável, apesar de toda a sua força aparente.
O som do elevador chegando ao seu andar ecoou pelo apartamento. Segundos depois, a campainha tocou. Sofia hesitou por um momento, a mão pairando sobre a maçaneta. Então, com um suspiro profundo, ela abriu a porta.
E lá estava ele. André Vasconcelos.
O homem que ela amou com todas as forças de sua alma, o homem que a despedaçou. Ele estava mais velho, com os cabelos levemente grisalhos nas têmporas, o rosto marcado por linhas de expressão que não estavam lá antes. Mas seus olhos... seus olhos eram os mesmos. Um azul profundo, intenso, que parecia penetrar em sua alma. Ele usava um terno escuro, elegante, que acentuava sua postura imponente. A chuva fina que ainda caía sobre ele deixava seus ombros molhados, mas ele parecia indiferente ao frio.
O silêncio se estendeu entre eles, carregado de anos de dor, de mágoas e de um amor que se transformara em algo quase irreconhecível. Sofia o observava, tentando decifrar seus pensamentos, o que o trazia ali, à sua porta, depois de tanto tempo.
André deu um passo à frente, seu olhar fixo no dela. "Sofia." Sua voz era um sussurro rouco, carregado de emoção. "Você está linda."
A observação, tão natural anos atrás, agora soava como uma provocação. Sofia ergueu o queixo, uma barreira de gelo se formando ao redor de seu coração. "Por que você veio, André?"
Ele suspirou, um som carregado de cansaço. "Eu... eu precisava te ver. Saber se você estava bem."
"Bem?", Sofia riu, um riso amargo e sem alegria. "Eu estou ótima, André. Construí uma vida sem você. Uma vida que você nunca fez parte." Ela apontou para o interior do apartamento. "Se quer conversar, entre. Mas não espere que eu sirva chá e bolinhos, como antigamente."
André a encarou por um longo momento, seus olhos percorrendo cada detalhe do rosto dela, como se tentasse encontrar a Sofia que ele conheceu. Mas ele encontrou uma mulher diferente. Mais forte, mais dura.
Ele entrou, sem ser convidado a se sentar. O apartamento era elegante, moderno, com obras de arte nas paredes e uma vista deslumbrante para a Baía de Guanabara, apesar da chuva. Era a prova de que ela havia seguido em frente. E isso, de alguma forma, o atingia.
"Eu não vim para reviver o passado, Sofia", disse André, sua voz recuperando a firmeza de antes. "Eu voltei para resolver negócios em meu nome. E por respeito a tudo o que um dia tivemos, eu senti que deveria te avisar, pessoalmente."
"Respeito?", Sofia repetiu, uma pontada de sarcasmo em sua voz. "Você fala de respeito, André? Onde estava o seu respeito quando você me destruiu?" A dor, contida por anos, ameaçava transbordar.
André desviou o olhar, uma sombra passando por seu rosto. "Eu sei que magoei você, Sofia. Mais do que imaginei. E eu... eu sinto muito por isso."
"Sente muito?", Sofia riu novamente, um riso mais alto e mais incrédulo. "Cinco anos de silêncio e agora você vem com um 'sinto muito'? Isso não apaga a dor, André. Não apaga a traição."
"Eu sei que não", ele admitiu, olhando-a nos olhos. Havia uma sinceridade em seu olhar que, por um instante, a fez vacilar. "Mas eu não vim para pedir perdão. Vim para te dizer que estou de volta, e que você não tem nada a temer de mim."
"Nada a temer de você?", Sofia se aproximou dele, seus olhos verdes brilhando com uma fúria contida. "Você destruiu meu coração, André. Você me humilhou. O que eu poderia temer de alguém que já me tirou tudo?"
O ar entre eles estava carregado de eletricidade, uma mistura de raiva, ressentimento e, perigosamente, uma faísca do amor que um dia os uniu. A chuva lá fora continuava a cair, um testemunho da tempestade que se formava dentro daquelas paredes. O reencontro, tão inesperado quanto inevitável, havia finalmente acontecido. E Sofia sabia, com uma certeza assustadora, que sua vida nunca mais seria a mesma. O passado havia voltado para assombrá-la, e ele tinha o nome de André Vasconcelos.