Entre o Amor e o Ódio III

Capítulo 3 — O Jogo de Sombras em Nova Friburgo

por Isabela Santos

Capítulo 3 — O Jogo de Sombras em Nova Friburgo

A bruma fria de Nova Friburgo abraçava as montanhas como um véu de mistério, abafando os sons da natureza e conferindo à paisagem uma beleza melancólica e sedutora. Era nesse cenário de introspecção e silêncio que Sofia buscava refúgio, longe do furacão que se instalara em sua vida com o retorno de André. O pequeno chalé que ela alugara, aninhado entre araucárias antigas, era seu santuário, um lugar onde ela podia tentar reconstruir os pedaços de sua alma, longe dos olhares e dos fantasmas do passado.

Cinco anos. Cinco anos de esforço incansável para se erguer das cinzas, para se tornar a mulher forte e independente que era hoje. E agora, André voltara, trazendo consigo a sombra de um amor que se transformara em tormento, a lembrança de uma traição que ainda ardia em seu peito. O reencontro na porta de seu apartamento, sob a chuva torrencial, fora um choque brutal. A frieza calculista que ela cultivara por tanto tempo ameaçou desmoronar diante daquele olhar intenso, da voz rouca que ela pensava ter esquecido.

Ela se sentia acuada, como um animal encurralado. A cidade do Rio, palco de sua ascensão e de sua queda, parecia ter se tornado pequena demais para abrigar tanto rancor e tanta memória. Por isso a fuga para Nova Friburgo. Uma tentativa desesperada de encontrar paz, de se curar.

No entanto, mesmo longe, André parecia ser capaz de invadir seus pensamentos. Seus olhos azuis, a forma como ele a olhava, as palavras não ditas que pairavam no ar… Tudo isso a assombrava. Ela se perguntava o que ele realmente queria. Seria apenas um acerto de contas superficial, uma formalidade antes de desaparecer novamente? Ou havia algo mais sombrio por trás de seu retorno?

"Não pense nele, Sofia", ela sussurrou para si mesma, apertando a manta sobre seus ombros. O crepitar da lareira era o único som a quebrar o silêncio, e o aroma de pinho preenchia o ar. Ela tentava se concentrar em seu trabalho, em um caso de grande importância que exigia sua atenção. Mas a imagem de André se sobrepunha a cada documento, a cada argumento jurídico.

Enquanto isso, no Rio, André Vasconcelos se movia pelos corredores do poder com a mesma eficiência implacável que o caracterizava. Ele havia retornado com um propósito claro: consolidar seu império e, de quebra, resolver uma pendência pessoal que o corroía há anos. Ver Sofia novamente fora mais impactante do que ele imaginara. A mulher que ele amou, e que depois odiou por ter se tornado uma figura tão distante e fria, ainda possuía o poder de desarmá-lo.

Ele sabia que o reencontro havia sido um choque para ela. Mas ele não podia ter agido de outra forma. Havia assuntos que precisavam ser tratados, e a omissão, para André, era um luxo que ele não podia mais se permitir. Ele sentia a resistência dela, a barreira de gelo que ela havia erguido ao redor de seu coração. E, de certa forma, isso o intrigava. Ele queria entender quem era a Sofia de hoje, a advogada de sucesso, a mulher que parecia ter superado a dor.

Uma ligação inesperada o tirou de seus pensamentos. Era seu advogado, informando sobre uma reunião de última hora com um antigo sócio, um homem conhecido por seus métodos pouco ortodoxos. "Ele quer discutir um acordo em Nova Friburgo, André. Um lugar discreto", disse o advogado, com a voz tensa.

André sentiu um arrepio. Nova Friburgo. A cidade onde Sofia estava. Seria uma coincidência? Ou o destino, com seu senso de humor perverso, estava prestes a jogar mais uma peça em seu tabuleiro? Ele sabia que aquele homem não era confiável, e que um encontro em um local isolado poderia ser perigoso. Mas o acordo em questão era crucial para seus planos.

"Eu vou", André respondeu, sua voz firme. "Prepare tudo. E certifique-se de que a segurança seja máxima."

No chalé em Nova Friburgo, Sofia sentia uma inquietação crescente. A paz que ela buscava parecia mais distante do que nunca. Ela sentia como se estivesse sendo observada, como se os arbustos e as árvores ao redor do chalé escondessem segredos. A paranoia, um resquício da dor do passado, começava a aflorá-la.

De repente, o som de um carro se aproximando quebrou o silêncio. Sofia se levantou bruscamente, o coração acelerado. Quem poderia ser? Ela não esperava ninguém. Talvez fosse o dono do chalé, vindo verificar algo.

Ela caminhou lentamente até a janela, espiando por entre as cortinas de renda. O carro preto, importado e luxuoso, parou a poucos metros da entrada. E dele, desceu um homem. Um homem que ela conhecia bem. Um homem que ela tentava esquecer.

André.

Sofia sentiu o chão sumir sob seus pés. Ele estava ali. Em Nova Friburgo. Na porta de seu refúgio. Aquele reencontro inesperado, que ela pensou ter deixado para trás no Rio, agora se materializava em sua frente. Ela não sabia se sentia raiva, medo ou uma estranha e perturbadora atração.

André, por sua vez, não parecia surpreso ao vê-la. Talvez ele soubesse que ela estaria ali. Talvez fosse um jogo de sombras, um encontro orquestrado pelo destino. Ele se aproximou da porta, com aquela postura confiante que ela tanto amava, e tanto odiava.

Sofia hesitou. Deveria fugir? Esconder-se? Ou enfrentá-lo? A advogada em sua alma gritava para que ela enfrentasse o desafio. E, pela primeira vez em anos, a mulher que amara André sentiu um misto de curiosidade e apreensão.

Ela respirou fundo e abriu a porta.

"André", ela disse, a voz controlada, mas com uma leve tremedeira. "O que você faz aqui?"

Ele a olhou, seus olhos azuis vasculhando seu rosto, como se procurasse por alguma falha em sua armadura. "Sofia. Precisamos conversar."

"Conversar?", ela repetiu, um sorriso sarcástico nos lábios. "Você não veio me convidar para um chá na sua nova mansão?"

André ignorou a ironia. "Eu sei que você está fugindo. Mas você não pode fugir para sempre."

Sofia deu um passo à frente, a chuva fria beijando seu rosto. "Eu não estou fugindo, André. Estou me protegendo. De você."

Ele se aproximou, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de chuva e de seu perfume amadeirado a envolveu. "Eu não vim para te machucar, Sofia. Vim para resolver algo. E você faz parte disso."

Sofia franziu a testa. "Eu faço parte do quê? De mais um de seus jogos?"

"Não", ele disse, sua voz mais baixa, mais intensa. "Um jogo perigoso. E eu não quero que você se machuque."

Aquelas palavras, ditas por ele, soaram falsas. Ou talvez fossem um aviso sincero. Sofia não sabia mais em quem confiar. Ela sentia que estava em um labirinto de sombras, onde cada passo a levava mais para o fundo de um mistério.

Naquela noite, sob o céu nublado de Nova Friburgo, Sofia e André se encontraram novamente. O passado, que ela tentara enterrar, ressurgia com força total, misturando o amor que um dia sentiram com o ódio que os separou. E Sofia sabia, com uma certeza assustadora, que a tempestade que começou no Rio agora a seguia até a serra, e que seu jogo de sombras estava apenas começando. Ela estava presa em um dilema, dividida entre a necessidade de se proteger e a impossível tarefa de desvendar as reais intenções de André.

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