Entre o Amor e o Ódio III
Capítulo 4 — A Ambição Oculta e a Sombra da Traição
por Isabela Santos
Capítulo 4 — A Ambição Oculta e a Sombra da Traição
A noite em Nova Friburgo era um manto denso e frio, pontuado pelo uivar distante do vento nas copas das araucárias. Dentro do chalé, a tensão entre Sofia e André era palpável, um campo de batalha invisível onde antigas feridas se misturavam a novas suspeitas. A revelação de André sobre um "jogo perigoso" e a necessidade de "resolver algo" pairava no ar, espessa como a neblina que envolvia a cidade.
Sofia o observava atentamente, tentando decifrar a verdade por trás de sua fachada de preocupação. A mulher que ele havia conhecido, a Sofia apaixonada e ingênua, havia sido substituída por uma advogada perspicaz, acostumada a desvendar mentiras e a expor segredos. E ela sentia, em cada palavra calculada de André, em cada olhar furtivo, que ele não estava sendo completamente sincero.
"Que 'algo' é esse, André?", Sofia perguntou, sua voz fria e firme, sem ceder à pressão em seu olhar. "Que jogo é esse que você diz ser perigoso, e que de repente me inclui?"
André deu um passo em direção à lareira, o calor das chamas projetando sombras dançantes em seu rosto. Ele parecia relutante em responder, como se cada palavra pudesse ser uma armadilha. "São negócios, Sofia. Negócios que envolvem pessoas que não hesitam em usar métodos desleais. Eu voltei para proteger meus interesses. E para garantir que ninguém, nem mesmo você, se machuque nesse processo."
"Proteger meus interesses?", Sofia riu, um som amargo. "Você sempre soube proteger seus interesses, André. Geralmente, à custa dos outros. E o que me garante que você não vai me usar como peão nesse seu novo 'jogo'?"
"Eu nunca usaria você, Sofia", ele disse, sua voz carregada de uma intensidade que a fez vacilar por um instante. "Você foi a única pessoa que eu... que eu já amei de verdade." A confissão, dita em meio àquela atmosfera de desconfiança, soou como um eco do passado, um fantasma que se recusava a ser exorcizado.
Sofia desviou o olhar, sentindo o rubor subir por seu pescoço. A menção ao amor, vinda dele, ainda a afetava de uma forma dolorosa e inexplicável. Ela se forçou a voltar à realidade. "O amor que você dizia sentir era uma mentira, André. Assim como tudo mais."
"Não foi uma mentira", ele insistiu, aproximando-se dela novamente. "O que aconteceu entre nós... foi complicado. E eu admito, cometi erros terríveis. Mas o que eu sinto por você, Sofia, isso sempre foi real." Ele estendeu a mão, como se quisesse tocar seu rosto, mas hesitou no último momento.
Sofia deu um passo para trás, erguendo uma barreira invisível entre eles. "Não. Não se aproxime. Eu não sou mais a mesma Sofia que você deixou para trás. E você não é mais o homem que eu amei."
"Talvez não", ele admitiu, a tristeza evidente em seus olhos. "Mas há coisas do passado que ainda nos unem. E que podem nos colocar em perigo."
"Que coisas?", ela exigiu. "Fale de uma vez, André. Sem rodeios, sem meias palavras. O que está acontecendo?"
André suspirou, parecendo ponderar suas palavras cuidadosamente. "Há um homem, um antigo sócio meu, chamado Marcus. Ele é perigoso, Sofia. Ele está tentando tirar proveito da minha ausência para recuperar o que ele acha que lhe é devido. E ele não tem escrúpulos. Ele não hesitará em usar qualquer meio para conseguir o que quer. Inclusive... você."
Sofia o encarou, perplexa. "Eu? Por quê eu? Eu não tenho nada a ver com seus negócios."
"Ele sabe do nosso passado, Sofia", André explicou, a seriedade em sua voz aumentando. "Ele sabe que você foi a única pessoa que me abalou. Ele pode tentar te usar como moeda de troca, como alavancagem contra mim. Ele pode tentar te prejudicar para me atingir."
O medo, uma sensação que Sofia raramente permitia sentir, começou a infiltrar-se em sua alma. Marcus. Um nome desconhecido, mas que representava uma ameaça real. "E você acha que eu deveria acreditar em você? Depois de tudo?"
"Eu não estou pedindo que você acredite em mim, Sofia", disse André, seus olhos fixos nos dela. "Estou pedindo que você se cuide. Que confie em mim para te proteger. Eu não vou deixar que ele toque em um fio de cabelo seu."
Apesar da desconfiança, uma parte de Sofia sentiu um pingo de alívio ao ouvir aquelas palavras. A ideia de André, o homem que a destruiu, defendendo-a, era paradoxal. Mas a ameaça de Marcus parecia real, e ela sabia que, em meio a tantos jogos de poder, a inocência podia ser o alvo mais fácil.
"E como você pretende me proteger?", ela perguntou, cética. "Você mesmo disse que ele não tem escrúpulos. E você, André, também não costuma ter."
"Eu aprendi com meus erros, Sofia", ele disse, uma sinceridade genuína em seu tom. "E o meu maior erro foi ter perdido você. Eu não vou cometer o mesmo erro de te perder de novo, nem de permitir que algo ruim lhe aconteça."
Sofia sentiu uma pontada de dor, misturada com uma esperança tênue. Seria possível que André tivesse mudado? Que a arrogância e a ambição que o consumiram tivessem dado lugar a um arrependimento sincero? Ou seria tudo parte de um plano mais elaborado, de um jogo de sombras onde ela seria apenas mais uma peça?
"Eu preciso de provas, André", Sofia declarou, sua mente de advogada trabalhando a todo vapor. "Não posso simplesmente confiar em suas palavras. Preciso de fatos."
André assentiu. "Eu entendo. Eu vou te dar o que você precisa. Mas, por enquanto, fique aqui. Não saia, não fale com ninguém. Especialmente com Marcus, caso ele tente entrar em contato."
Naquela noite, enquanto a chuva continuava a cair lá fora, Sofia e André permaneceram em lados opostos da sala, separados por um abismo de desconfiança e pelo peso de um passado doloroso. Mas algo havia mudado. A ameaça de Marcus os uniu, mesmo que por um fio. E Sofia sabia que, em meio a essa teia de intrigas e ambições ocultas, ela teria que confiar em seus instintos e em sua inteligência para sobreviver. O jogo de sombras havia se intensificado, e ela estava no centro dele, dividida entre o amor que um dia sentiu e o ódio que a protegia.
Enquanto isso, nas sombras de um luxuoso apartamento no Rio de Janeiro, Marcus Thorne observava um dossiê com a foto de Sofia em destaque. Um sorriso frio brincou em seus lábios. André Vasconcelos estava de volta, e com ele, a oportunidade perfeita para um jogo mais divertido e perigoso. Ele sabia dos laços que André um dia teve com aquela mulher. E sabia que usá-la seria a maneira mais eficaz de atingir seu antigo sócio. O plano estava em andamento, e a inocência de Sofia, como ele a via, seria sua maior arma.