O Retorno do Amor II

Capítulo 3 — A Sombra do Passado no Presente

por Camila Costa

Capítulo 3 — A Sombra do Passado no Presente

Os dias se tornaram semanas, e a rotina em Paraty parecia se consolidar. Sofia continuou sua peregrinação diária à livraria Vagalume, onde suas conversas com André se aprofundavam. Ele a inspirava com sua calma, seu bom humor e sua paixão por livros. Falavam sobre arte, sobre a vida boêmia de São Paulo que ele deixara para trás, sobre os desafios de administrar um negócio em uma cidade histórica.

"Sabe, Sofia", disse André certa tarde, enquanto organizavam uma seção de poesia, "eu sempre fui fascinado pela forma como os livros nos transportam. Como uma única história pode mudar a perspectiva de uma pessoa, ou até mesmo o curso de sua vida. É por isso que abri a livraria. Para compartilhar essa magia."

Sofia sorriu, sentindo a sinceridade em suas palavras. "Eu entendo. Com a cerâmica, é um pouco parecido. Uma peça pode carregar tantas emoções, tantas memórias." Ela hesitou por um momento, depois continuou: "Eu passei por um período em que não conseguia mais criar. Como se a fonte tivesse secado."

André a olhou com empatia. "Sei como é. O bloqueio criativo pode ser devastador. Mas o importante é não desistir de si mesma. A inspiração sempre volta, às vezes dos lugares mais inesperados." Seus olhos azuis encontraram os dela, transmitindo um conforto silencioso.

Paralelamente, a relação com Helena se fortaleceu. Elas passaram a se encontrar com mais frequência, saindo para almoçar, caminhando pela orla. Helena se desculpava a cada encontro pela sua ausência durante o divórcio de Sofia, e Sofia, aos poucos, aceitava as desculpas, reconhecendo a sinceridade em sua amiga. "Eu fui fraca, Sofia", Helena confessou em um almoço no famoso restaurante "Gosto de Paraty". "Fiquei assustada com a intensidade da situação e me refugiei na inércia. Mas isso não justifica nada. Me perdoe."

Sofia segurou a mão de Helena sobre a mesa. "Eu te perdoo, Helena. O importante é que estamos juntas agora."

No entanto, nem todo o perfume das flores de Paraty conseguia apagar completamente as sombras do passado. Uma tarde, enquanto Sofia estava na praça principal, esperando Helena, um carro importado, imponente e familiar, estacionou a poucos metros de distância. A porta se abriu e dele saiu Ricardo.

O coração de Sofia deu um salto doloroso. Ricardo. O homem com quem ela compartilhou anos de vida, sonhos e planos. Ele estava mais elegante do que nunca, o terno impecável acentuando sua figura alta e esguia. Ao avistá-la, uma expressão de surpresa – e algo que Sofia interpretou como um certo constrangimento – cruzou seu rosto.

"Sofia?", ele chamou, a voz soando distante, como um eco de outro tempo. "O que você faz por aqui?"

Sofia sentiu um arrepio. A presença dele era como um fantasma do passado que, de repente, se tornava palpável. "Eu voltei a morar em Paraty, Ricardo. Com a minha avó."

Ricardo assentiu, os olhos percorrendo o corpo dela, como se a estivesse avaliando. "Ah, sim. Ouvi dizer. Sinto muito pelo que aconteceu com a sua galeria em São Paulo." Havia um tom de condescendência em sua voz que a incomodou.

Sofia forçou um sorriso. "A vida é feita de altos e baixos, não é mesmo?"

Naquele momento, Helena chegou, o sorriso no rosto desaparecendo ao avistar Ricardo. A antiga amizade entre os dois era evidente, mas agora pairava no ar uma tensão sutil, um reflexo da dinâmica complexa que se estabelecera entre eles e Sofia.

"Ricardo", Helena cumprimentou, a voz fria.

"Helena. Que coincidência", Ricardo respondeu, um leve sarcasmo em seu tom. Ele se virou para Sofia. "Vejo que você já fez novas amizades por aqui." A observação, dita com um sorriso, carregava um duplo sentido que não passou despercebido por Sofia.

A conversa se tornou tensa, evasiva. Ricardo, com sua habilidade de manipulação, parecia querer reafirmar seu lugar, mesmo que fosse apenas como uma sombra do passado. Ele mencionou a São Paulo, os negócios, alguns nomes de pessoas que Sofia conhecia, em uma tentativa clara de mostrar que sua vida continuava em ascensão, enquanto Sofia parecia ter "voltado para o ninho".

"Eu estava pensando em passar uns dias em Paraty em breve", Ricardo disse, com um sorriso que não chegava aos olhos. "Talvez possamos tomar um café, colocar o papo em dia. Falar sobre os velhos tempos."

Sofia sentiu um arrepio de repulsa. "Não acho que seja uma boa ideia, Ricardo", ela respondeu, a voz firme. "Nós não temos mais nada para colocar em dia."

Helena, percebendo o desconforto de Sofia, interveio. "Ricardo, acho que a Sofia já deixou claro. Nós temos nossos compromissos. Talvez em outra ocasião."

Ricardo lançou um olhar de desaprovação para Helena, mas sorriu para Sofia. "Como quiser, Sofia. Mas saiba que eu desejo o melhor para você." A despedida foi fria, e o carro importado partiu, deixando para trás um rastro de incerteza e desconforto.

Naquela noite, Sofia não conseguiu dormir direito. A visão de Ricardo a perturbou profundamente. Aquele homem, que um dia amou, que um dia foi seu parceiro, agora representava um capítulo doloroso de sua vida, um capítulo que ela pensava ter encerrado.

Ela se levantou da cama e foi até o ateliê. A luz da lua entrava pelas janelas, iluminando as peças inacabadas. Pegou um pedaço de argila, e suas mãos, antes hesitantes, começaram a trabalhar. A tensão acumulada se transformou em energia, em movimento. Ela moldou a argila com força, criando formas angulosas, expressando a raiva, a decepção, a força que ela sentia dentro de si.

Enquanto trabalhava, pensou em André. Na sua calma, na sua gentileza. Ele era o oposto de Ricardo. Ele era a promessa de um novo começo, enquanto Ricardo era o fantasma do fim. Mas o fantasma, mesmo que do passado, tinha o poder de assombrar o presente.

Na manhã seguinte, Sofia foi à livraria mais cedo. André estava lá, arrumando uma estante de livros de história.

"Bom dia, André", ela disse, a voz ainda carregando um certo cansaço.

"Bom dia, Sofia. Tudo bem?", ele perguntou, percebendo algo diferente em seu semblante.

Sofia hesitou. Ela sentia uma necessidade de compartilhar, de desabafar, mas também receio de assustá-lo com a complexidade de seu passado. "Eu… eu vi o meu ex-marido ontem em Paraty", ela disse, de repente.

André a olhou com atenção. "Ah, sim? E como foi?"

"Não foi bom", Sofia respondeu, a voz baixa. "Ele é… uma sombra do passado que insiste em aparecer." Ela explicou a situação, as palavras fluindo com a segurança que André lhe transmitia. Falou sobre a frieza dele, a tentativa de reaver algum tipo de controle, a sensação de que ele não aceitava que ela seguisse em frente.

André ouviu pacientemente, sem interromper. Quando Sofia terminou, ele se aproximou dela e segurou suas mãos. "Sofia, o passado pode ser assustador, mas ele não precisa definir o seu presente. O que importa é o que você faz agora. E eu vejo que você está fazendo muitas coisas boas." Ele sorriu, um sorriso que transmitia força e apoio. "Você tem uma força incrível dentro de você. Não deixe que as sombras do passado a apaguem."

As palavras de André eram um bálsamo para a alma de Sofia. Ela sentiu uma nova onda de esperança, uma certeza de que, apesar dos fantasmas, ela estava no caminho certo. O brilho em seus olhos retornou, e um sorriso genuíno iluminou seu rosto. "Obrigada, André. Por tudo."

Naquele momento, Sofia sentiu que, pela primeira vez desde que chegara a Paraty, estava verdadeiramente livre para construir seu futuro. O retorno do amor, talvez, não se tratasse apenas de encontrar um novo amor, mas de se reencontrar consigo mesma. E com o apoio de André e a amizade renovada de Helena, ela sentia que isso era possível.

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