Amor Proibido III

Capítulo 2 — Ecos na Mansão Sombria

por Valentina Oliveira

Capítulo 2 — Ecos na Mansão Sombria

A mansão era um espetáculo sombrio sob a fúria da tempestade. Os relâmpagos iluminavam por breves instantes as paredes altas e imponentes, revelando detalhes arquitetônicos que outrora foram motivo de orgulho e agora pareciam sombrios e melancólicos. O vento uivava pelas frestas das janelas, como um lamento ancestral, e a chuva batia contra os vidros com a força de mil tambores.

Ricardo fechou a porta de madeira maciça atrás deles, o som grave ecoando pelo hall de entrada. O interior da mansão era tão familiar quanto o exterior, mas também carregava a marca indelével do tempo e da ausência. O cheiro de mofo e de cera de abelha pairava no ar, misturado ao perfume sutil de flores secas. Os móveis antigos, cobertos por lençóis brancos, pareciam fantasmas sentados em silêncio. A poltrona de couro onde a tia Carmem costumava tricotar, o piano de cauda que um dia ressoou com a música de Helena, o retrato a óleo do avô materno, severo e altivo. Tudo estava ali, congelado no tempo, esperando o retorno de seus antigos moradores.

Helena tirou o casaco molhado, sentindo o frio penetrar até os ossos. Ricardo a observava, o rosto emoldurado pela luz fraca que vinha de um abajur antigo na sala de estar. Seus olhos azuis pareciam ainda mais intensos no crepúsculo artificial da mansão.

"Você deve estar exausta", ele disse, a voz suave, quebrando o silêncio carregado. "Deixe-me pegar uma toalha para você."

Ele se afastou em direção à cozinha, e Helena aproveitou para observar o ambiente. Cada objeto, cada cantinho, era um gatilho para lembranças. Lembrou-se das tardes de infância, quando corria pelos corredores, explorando cada cômodo com a curiosidade incessante de uma criança. Lembrou-se das brigas com Ricardo, dos seus beijos roubados na biblioteca, das promessas sussurradas sob o luar. E lembrou-se, com uma dor aguda, do dia em que tudo desmoronou, do dia em que ela partiu, levando consigo uma parte da alma e deixando para trás o homem que amava.

Ricardo retornou com uma toalha macia e perfumada. Seus dedos roçaram os dela ao entregá-la, e um arrepio percorreu seu corpo. Ele sabia que aquele toque era perigoso, que a proximidade dele era um convite irrecusável para revisitar as feridas.

"Obrigada", ela murmurou, o rosto corando levemente. Começou a secar os cabelos, os movimentos bruscos em sua tentativa de afastar os pensamentos intrusivos.

"Tia Carmem deixou tudo organizado para você", Ricardo disse, apontando para uma porta lateral. "Seu quarto. Está como você o deixou, apenas com um pouco mais de poeira."

Helena assentiu, sentindo um nó na garganta. Seu quarto. O santuário de sua adolescência, o lugar onde sonhara com o futuro, com ele. A ideia de voltar para lá era ao mesmo tempo reconfortante e aterrorizante.

"Eu… eu não sei por onde começar", ela confessou, a voz embargada. "São tantas coisas…"

Ricardo se aproximou, hesitante. "Você não precisa fazer tudo sozinha, Helena. Eu estou aqui. Nós estamos aqui."

"Nós?" A palavra soou como um eco de um passado que ela tentava esquecer.

"A família. A fazenda. Eu", ele completou, o olhar fixo no dela. Havia uma sinceridade em seu olhar que a desarmava.

Ela desviou o olhar, incapaz de sustentar a intensidade daquele azul. "Eu… preciso de um tempo. Para processar tudo."

"Eu entendo", ele disse, um suspiro escapando de seus lábios. "Vou preparar um chá. E talvez haja algo forte na adega que possa ajudar a aquecer essa noite fria."

Ele se afastou novamente, e Helena se permitiu andar pela sala de estar. Cada passo na madeira polida parecia ressoar com os ecos de sua própria história. O piano, com suas teclas amareladas, parecia chorar em silêncio. Ela imaginou suas mãos, jovens e ágeis, deslizando sobre as teclas, compondo melodias para ele.

Lembrou-se de uma noite específica, de um baile de inverno, onde ela vestia um vestido vermelho esvoaçante e ele, um smoking impecável. Dançaram a noite toda, os corpos colados, os olhares trocando promessas sussurradas. Naquele baile, ela se sentiu a mulher mais linda do mundo, a mais amada. E depois, na biblioteca, sob a luz suave de uma lamparina, eles se entregaram a uma paixão avassaladora, uma paixão que parecia desafiar o tempo e o espaço.

"Onde estão todas as pessoas?", Helena perguntou, a voz um sussurro, ao ver a mansão tão vazia.

Ricardo retornou com uma bandeja de prata, carregando uma chaleira fumegante e duas xícaras de porcelana fina. "Após o funeral, a maioria foi embora. As obrigações, sabe. A vida segue para alguns." Ele serviu o chá, o vapor perfumado se espalhando pelo ambiente. "Mas alguns de nós… ficamos."

"Como você", Helena disse, pegando a xícara quente. O calor era reconfortante.

"Eu não podia ir embora. Esta terra… esta casa… são parte de mim", ele respondeu, o olhar perdido no passado. "E você também é, Helena. Uma parte muito importante."

A confissão caiu como uma bomba no silêncio. Helena sentiu o coração acelerar novamente. Ela tentava se convencer de que estava ali apenas para cumprir seus deveres para com a tia Carmem, para organizar a herança. Mas a presença de Ricardo, a atmosfera carregada da mansão, tudo isso a puxava de volta para o turbilhão de emoções que ela tanto tentara reprimir.

"Eu me afastei", ela disse, a voz baixa. "Precisava seguir meu caminho."

"E seguiu", Ricardo concordou, com um toque de amargura na voz. "Construiu uma vida linda em São Paulo. Ouvi falar de você. Suas obras são incríveis."

"Fiz o meu melhor", ela respondeu, sentindo uma pontada de culpa. "Mas aqui… aqui é diferente. É onde minhas raízes estão."

O vento lá fora uivou mais forte, as janelas tremeram. A tempestade parecia refletir a tempestade interna que se formava em Helena. Ela sabia que não poderia simplesmente vir, resolver as questões burocráticas e ir embora como se nada tivesse acontecido. Aquele lugar, e aquele homem, eram parte de sua história, um capítulo que ela pensara ter encerrado, mas que, de alguma forma, se recusava a ser esquecido.

"Eu também precisei seguir meu caminho", Ricardo disse, com um sorriso fraco. "Cuidei da fazenda, honrei o legado da tia Carmem. Mas… o vazio que você deixou… ele permaneceu."

O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo som da chuva e pelos batimentos acelerados de seus corações. Helena sentiu o olhar dele sobre si, intenso e penetrante. Ela ergueu os olhos e o encontrou. Havia uma dor antiga ali, uma saudade que parecia não ter fim.

"Ricardo…", ela começou, mas as palavras se perderam em sua garganta. O que dizer? Como explicar a complexidade de seus sentimentos? Como dizer que, apesar de tudo, o amava ainda?

Ele se levantou e caminhou até a janela, observando a chuva incessante. "A tempestade vai durar a noite toda. Você não tem para onde ir agora. Vou providenciar seu quarto."

Helena assentiu, grata pela sua discrição, mas ao mesmo tempo, frustrada por sua reticência. Ela queria que ele falasse, que dissesse o que sentia, que confrontasse o passado com ela. Mas Ricardo sempre fora um homem de poucas palavras, de ações contundentes.

"Obrigada", ela repetiu, a voz mais firme. "Por tudo."

Ele se virou para ela, um brilho fugaz em seus olhos. "Por nada, Helena. Você é… você é da família. Sempre será."

A palavra "família" soou como um eufemismo cruel. Eles não eram apenas família. Foram amantes, almas gêmeas, o amor proibido que os separara e agora, aparentemente, os reunia.

Enquanto se dirigia para o quarto, Helena sentiu o peso da mansão sobre seus ombros. Era um lugar de memórias doces e amargas, de paixão e dor, de reencontros inesperados e despedidas dolorosas. E ali, naquela noite tempestuosa, ela sabia que a história de amor proibido deles estava longe de ter chegado ao fim. Os ecos do passado ressoavam nos corredores sombrios, e o futuro era uma tela em branco, a ser pintada pelas cores de um amor que desafiava o tempo e a razão.

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