Apaixonada pelo Chefe
Capítulo 22 — Cicatrizes do Coração
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 22 — Cicatrizes do Coração
O apartamento de Ricardo, antes um refúgio de calor e promessas, parecia agora um labirinto de ecos silenciosos. Isabella, encolhida no sofá da sala, sentia o peso da noite anterior esmagando-a. As palavras de Ricardo ecoavam em sua mente, mas não eram suficientes para dissipar as imagens que Mariana havia plantado em sua imaginação. A ex-noiva, com sua beleza melancólica e suas histórias de um passado compartilhado com Ricardo, era uma força poderosa, um lembrete tangível de que o amor raramente é um caminho reto e livre de obstáculos.
Ela apertou o copo de água fria em suas mãos, os dedos brancos pela força. O amor que ela sentia por Ricardo era avassalador, um vulcão em erupção dentro de seu peito. Mas a dúvida, como uma serpente insidiosa, rastejava em sua mente, sussurrando inseguranças. Seria Ricardo capaz de deixar o passado completamente para trás? Ou ele seria para sempre assombrado por ele? A vulnerabilidade que ela expôs ao se entregar a ele agora a deixava exposta, ferida, como um pássaro com as asas quebradas.
Ricardo entrou na sala, o semblante ainda carregado. Seus olhos buscaram Isabella, e um lampejo de esperança misturado com apreensão passou por eles ao encontrá-la. Ele se aproximou com cautela, como quem se aproxima de um animal assustado.
"Bom dia", ele disse, a voz baixa.
Isabella levantou o olhar, seus olhos opacos e cansados. "Bom dia."
Ele sentou-se ao lado dela, mas manteve uma distância respeitosa. "Você dormiu?"
"Não muito", respondeu ela, desviando o olhar.
Um silêncio constrangedor pairou entre eles. Ricardo parecia ponderar sobre suas próximas palavras, a urgência de reconquistar a confiança de Isabella visível em sua postura.
"Isabella, eu sei que ontem foi difícil. Para nós dois. Mas eu preciso que você saiba... eu não estou fugindo de nada. Eu estou enfrentando. Enfrentando o passado, sim, mas com você ao meu lado, eu sinto que posso fazer isso." Ele pegou a mão dela, e desta vez, Isabella não se afastou. Seus dedos estavam frios, mas ele os apertou com firmeza.
"É que... é como se existisse uma parte sua que eu não conheço. Uma parte ligada a ela. E isso me assusta, Ricardo." A voz dela era um sussurro quase inaudível. As palavras saíam com dificuldade, carregadas de uma dor antiga que ela pensava ter superado, mas que agora ressurgia com força total.
Ricardo suspirou, e a melodia de sua voz era uma canção de angústia. "Mariana foi... uma tempestade na minha vida. Ela era intensa, apaixonada, e nós éramos jovens e impulsivos. Terminamos de uma forma que deixou muitas pontas soltas. E sim, reencontrá-la mexeu com algumas coisas. Mas não mudou o que eu sinto por você. O que eu sinto por você é calmo, forte, verdadeiro. Não tem nada a ver com o furacão que foi com Mariana."
"Mas você falou em 'inacabado'. Falou em 'dívidas'." Isabella o olhou nos olhos, buscando uma resposta que pudesse apaziguar sua alma inquieta. "Isso me faz pensar se você não a ama mais, mas se você ainda sente algo por ela."
"Eu sinto responsabilidade, Isabella. E talvez uma pontada de pena pela forma como as coisas terminaram. Mas amor? Não. O amor que eu tenho por você é tão diferente, tão mais profundo. Mariana é uma cicatriz, Isabella. Uma lembrança de um tempo que eu superei. Você é a cura. Você é o presente."
Ele se inclinou e beijou a mão dela. Um beijo suave, mas carregado de significado. Isabella fechou os olhos, permitindo-se sentir o calor de seus lábios. Mas a imagem de Mariana pairava, persistente.
"Eu entendo a sua hesitação", Ricardo continuou. "E eu não vou pressionar você. Eu só quero que você saiba que eu estou aqui. Que eu vou fazer o que for preciso para que você se sinta segura. Que você me entenda."
Ele se afastou um pouco, o olhar perdido. "Minha mãe... ela sempre teve uma relação complicada com Mariana. E quando ela soube que eu a encontrei, ela ficou muito preocupada. Ela tem medo que eu me machuque de novo. E eu acho que, de certa forma, ela projetou isso em mim. Me fez pensar em todos os erros que cometi no passado."
Isabella sentiu uma pontada de compaixão, misturada com a própria dor. A família de Ricardo, os fantasmas do passado, tudo parecia conspirar para criar um véu de incerteza sobre o amor deles.
"Eu também tive um passado, Ricardo", ela disse, a voz ganhando força. "Um passado que me deixou marcas. E eu também pensei que nunca mais seria capaz de amar. Mas você apareceu. E tudo mudou. Eu me permiti sentir de novo. Eu me entreguei a você." Um fio de lágrimas escapou de seus olhos. "Não é justo que eu tenha que duvidar de um amor tão bom por causa de um fantasma do seu passado."
Ricardo a abraçou, a mão acariciando suas costas. "Eu sei que não é justo. E eu sinto muito por ter te colocado nessa situação. Mariana apareceu em um momento de fragilidade minha. Eu não estava preparado. Mas agora eu estou. E eu quero que você seja a minha prioridade. Sempre."
Ele a afastou suavemente, os olhos fixos nos dela. "Que tal fazermos isso juntos? Enfrentarmos essa dúvida juntos. Eu te mostro que meu coração pertence a você. E você me ajuda a fechar de vez as portas do passado."
Isabella o observou, o coração dividido entre a esperança e o medo. A ideia de enfrentar isso com ele era tentadora. Mas a cicatriz que Mariana representava era profunda. Ela respirou fundo, o ar pesado em seus pulmões.
"Eu não sei se consigo, Ricardo", ela confessou, a voz embargada. "Ainda dói. Dói pensar que você pode ter um espaço no seu coração que eu não posso alcançar."
"Você pode, Isabella. Você já alcançou", ele disse com convicção. "Você tem todo o meu coração. Mariana é uma memória, um capítulo que foi encerrado. Você é o livro inteiro." Ele a beijou suavemente na testa. "Eu te amo, Isabella. E eu não vou desistir de nós."
As palavras dele, sinceras e cheias de paixão, trouxeram um pequeno alívio. Mas a incerteza ainda pairava, um fantasma teimoso. Ela sabia que a confiança não se reconstrói em um dia. E as cicatrizes do coração, por mais que se tente curá-las, sempre deixam uma marca sutil.
Mais tarde naquele dia, Isabella estava no escritório, tentando se concentrar em seu trabalho. Mas a mente dela vagava, voltando para as conversas com Ricardo, para a incerteza que se instalara. De repente, seu celular tocou. Era uma mensagem de um número desconhecido.
"Olá, Isabella. Sou eu, Mariana. Gostaria de conversar. Tenho algo importante para te contar sobre Ricardo. É crucial que nos encontremos. Amanhã, no mesmo café de sempre, às 10h."
Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A mensagem era um golpe baixo, um lembrete de que a batalha não havia terminado. Ela olhou para a porta do escritório de Ricardo, sentindo uma mistura de raiva e apreensão. Seria essa uma nova tentativa de Mariana de se intrometer em suas vidas? Ou haveria algo verdadeiramente importante a ser dito? A tempestade silenciosa dentro dela parecia ganhar força, prenunciando uma nova fase de turbulência. As cicatrizes do coração eram profundas, e Isabella sentia que precisava enfrentá-las de frente, por mais doloroso que fosse.