O Milionário Solitário II
O Milionário Solitário II
por Valentina Oliveira
O Milionário Solitário II
Por Valentina Oliveira
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Capítulo 11 — O Voo da Borboleta e a Trama dos Desejos
O sol da manhã em Copacabana, ainda tímido, pintava o céu de tons alaranjados e rosados, um espetáculo que a cada dia enchia os olhos de Sofia com uma nova promessa. Na varanda do seu modesto apartamento, com o aroma inebriante de jasmim pairando no ar, ela observava a cidade despertar. A brisa marinha trazia consigo o murmúrio das ondas e, para ela, um sopro de esperança que parecia ter chegado com Eduardo. Desde que ele reaparecera em sua vida, como um raio de sol após uma tempestade, tudo parecia possível. O peso da incerteza sobre a herança de sua avó, a dura realidade de sua luta diária, tudo isso se tornava um pouco mais leve quando ele estava por perto.
Eduardo, em sua mansão em Santa Teresa, sentia a mesma euforia, um sentimento que há muito tempo não o visitava. A presença vibrante e genuína de Sofia era como um bálsamo para sua alma, acostumada à frieza e ao jogo de aparências do mundo dos negócios. Ele se pegava sorrindo à toa, lembrando-se do jeito desajeitado dela ao tentar consertar um vaso de samambaia que ele insistira em lhe dar, do brilho nos olhos quando falava sobre os livros que amava, da risada cristalina que ecoava em sua casa como uma música esquecida. A ideia de se envolver com Sofia era ao mesmo tempo tentadora e aterradora. Seus pais, a memória fria do escândalo que quase arruinara a reputação da família, a pressão para manter as aparências… tudo isso o assombrava. Mas o desejo, essa força primitiva e indomável, falava mais alto.
Naquela manhã, Eduardo tomou uma decisão. Ligou para o seu advogado, Dr. Arnaldo, um homem de confiança com quem compartilhava segredos guardados a sete chaves.
“Arnaldo, preciso que você investigue algo para mim. De forma discreta, é claro”, disse Eduardo, a voz firme, mas com uma pitada de apreensão.
“Pode falar, Eduardo. O que o aflige?”, respondeu Arnaldo, sua voz calma e profissional.
“Sofia. Preciso saber tudo sobre a família dela, especialmente sobre a herança da avó. Quero detalhes sobre os bens, as dívidas, quem são os outros envolvidos… tudo.”
Arnaldo suspirou levemente. “Eduardo, você sabe que não gosto quando você se envolve em assuntos pessoais dessa forma. Mas, se é o que deseja…”
“É o que desejo. E seja rápido. O tempo é crucial.”
Enquanto isso, no apartamento de Sofia, a rotina era interrompida por um toque estridente no interfone. Era uma entrega. Um vaso grande e reluzente de orquídeas, com um cartão simples e elegante. “Para a mais bela flor do meu jardim. Com carinho, E.” Sofia sentiu o rosto corar. A ousadia dele a desarmava, a gentileza o encantava. Ela arrumou as orquídeas na sala, o perfume adocicado se misturando ao do jasmim. Sentiu um pontada de culpa ao pensar em como ele a tratava com tanta deferência, enquanto ela ainda guardava tantos segredos.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Sofia recebeu uma ligação inesperada. Era Clara, a antiga colega de trabalho de sua avó, a mulher que ela havia visto brevemente na mansão do Dr. Monteiro.
“Sofia, querida? Sou eu, Clara. Espero não estar incomodando.” A voz de Clara era suave, mas carregada de uma urgência contida.
“Clara! Que surpresa. Claro que não está incomodando. Como você está?” Sofia tentou disfarçar a ansiedade que a tomou. Algo em Clara a inquietava.
“Estou bem, querida. Ou melhor, estaria melhor se pudesse te ver. Tenho algo importante para te contar. Algo que pode mudar tudo.”
O coração de Sofia disparou. “Me contar? Algo sobre a minha avó?”
“Sim, sobre sua avó. E sobre a herança. Mas não podemos falar por telefone. Encontre-me amanhã, no mesmo lugar de sempre. O café da Dona Lurdes, às dez. Por favor, Sofia. É urgente.”
O café da Dona Lurdes era um pequeno refúgio, um lugar simples e acolhedor onde Sofia costumava ir com a avó. O local parecia carregar as memórias de tempos mais felizes. A sugestão de Clara, ali, a fez sentir um arrepio.
Enquanto isso, Eduardo, inconformado com a distância, decidiu fazer uma visita surpresa a Sofia. Ele dirigiu seu carro luxuoso pelas ruas de Copacabana, o coração batendo descompassado a cada curva. A ideia de vê-la, de ouvir sua voz, de sentir a sua presença, era um vício que ele não conseguia controlar. Chegou ao prédio de Sofia e tocou a campainha.
Sofia estava escolhendo as roupas para o dia seguinte, tentando encontrar um equilíbrio entre a elegância e a simplicidade, quando ouviu o interfone. Esperava ser o entregador de flores novamente, ou talvez uma amiga. Ao ouvir a voz de Eduardo, seu coração deu um salto.
“Eduardo? O que faz aqui?”
“Surpresa! Precisava te ver. Posso subir?” A voz dele era carregada de um desejo mal disfarçado.
Sofia hesitou por um instante. Ela precisava falar com Clara, precisava descobrir mais sobre a herança. Mas a presença dele era sempre tão… magnética. “Claro, pode subir.”
Quando Eduardo entrou no apartamento, seus olhos pousaram nas orquídeas. Um sorriso discreto brincou em seus lábios. “Vejo que gostou do presente.”
Sofia sorriu, sentindo-se um pouco envergonhada. “São lindas, Eduardo. Obrigada.”
A conversa fluiu com a naturalidade de sempre, mas por baixo da superfície, as inquietações de ambos borbulhavam. Eduardo observava Sofia com uma intensidade que a fazia corar. Ele a envolvia com seu olhar, com gestos que revelavam um afeto crescente.
“Sofia”, ele disse, pegando a mão dela, “você tem sido uma inspiração para mim. Sua força, sua bondade… você me faz ver o mundo de outra maneira.”
Sofia sentiu um nó na garganta. “Eduardo, eu…”
“Não diga nada ainda”, ele a interrompeu suavemente, acariciando seu rosto. “Apenas me deixe estar aqui, com você.”
Naquela noite, enquanto Eduardo se despedia de Sofia com um beijo que prometia mais do que palavras, ele sentiu a força de seus sentimentos se intensificarem. Ele sabia que estava se arriscando, mas a perspectiva de um futuro com Sofia era um tesouro que ele estava disposto a lutar para conquistar. Sofia, por sua vez, ficou na varanda, observando as luzes da cidade, com o coração dividido entre a paixão que nascia e os segredos que a envolviam. A borboleta em seu peito, antes assustada, agora voava com uma liberdade cautelosa, mas o vento da incerteza ainda sussurrava perigosas melodias. E, em algum lugar na trama dos desejos, as sombras do passado começavam a se mover novamente, prenunciando novas tempestades.