O Milionário Solitário II
O Milionário Solitário II
por Valentina Oliveira
O Milionário Solitário II
Autor: Valentina Oliveira
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Capítulo 16 — O Refúgio em Paraty e as Cicatrizes do Tempo
A chuva que diluviara sobre a serra, impulsionando a fuga apressada de Helena e Ricardo, agora se transformara em uma brisa amena acariciando o litoral de Paraty. O sol, tímido, tentava romper as nuvens densas que ainda pairavam sobre o horizonte, pintando o céu em tons de cinza e um azul pálido. A pequena pousada, aninhada entre as pedras coloniais e o verde exuberante da Mata Atlântica, oferecia um refúgio acolhedor para os corações feridos e as mentes em turbilhão.
Helena, deitada na cama macia, os olhos fixos no teto branco e simples, sentia o corpo ainda trêmulo pela adrenalina da fuga. O medo era um fantasma que se recusava a deixá-la, espreitando nas sombras dos cantos do quarto. Ao seu lado, Ricardo dormia um sono pesado, o rosto marcado pela exaustão e a preocupação. A mão dele, antes tão forte e protetora, agora repousava inertemente ao lado da dela. Ela o observava, buscando ali a paz que se teimava em não encontrar em si mesma. O rosto dele, tão familiar e amado, parecia agora um mapa de suas próprias angústias. As rugas ao redor dos olhos, que antes ela via como sinais de sabedoria e experiência, agora lhe pareciam cicatrizes de batalhas não contadas.
Paraty, com suas ruas de pedra, suas igrejas seculares e suas casarões coloridos, parecia um portal para outro tempo. Um lugar onde as pressões do mundo moderno se dissolviam suavemente na atmosfera de tranquilidade. Helena imaginou os séculos que aquelas pedras haviam presenciado, as histórias que aquelas paredes poderiam contar. Talvez fosse ali, longe do burburinho de São Paulo, longe dos perigos que os espreitavam, que eles pudessem, finalmente, respirar.
Lembrou-se das palavras de Ricardo naquela noite, na casa da praia. Ele, tão reticente em compartilhar suas dores, finalmente se abrira, como um livro cujas páginas estavam manchadas de um passado obscuro. A desconfiança de sua família, a ruína financeira, a traição de quem ele mais confiava… tudo isso pesava sobre seus ombros como uma rocha. E ela, sentindo a fragilidade dele, sentiu uma onda de ternura tão intensa que a sufocou. O homem que ela conhecera como um titã, um indivíduo impenetrável, revelava-se, naquele momento, terrivelmente humano.
"Você não está sozinha", ela sussurrara, a voz embargada. E ele, com um olhar que misturava gratidão e vulnerabilidade, a abraçou como se ela fosse o único porto seguro em meio a um oceano revolto.
Agora, o silêncio do quarto era quebrado apenas pelo som ritmado da respiração de Ricardo e pelo canto distante dos pássaros. Helena sentiu uma pontada de culpa. Ela o havia arrastado para essa fuga, para essa incerteza. O que seria de Ricardo se algo acontecesse a ela? A fragilidade que ele mostrara a comovia, mas também a apavorava.
Decidiu que era hora de se levantar. Precisava de ar, de movimento. Deslizando para fora da cama com o máximo cuidado para não acordá-lo, vestiu um vestido leve de algodão que havia trazido. O tecido fresco contra sua pele era um alívio bem-vindo. Abriu a porta de madeira maciça e saiu para a varanda, onde um pequeno jardim florido a esperava.
O cheiro de jasmim e terra molhada pairava no ar. Colocou uma xícara de café na mesinha rústica e sentou-se, observando o nascer do sol que, finalmente, conseguia dissipar as últimas nuvens. A paisagem era de uma beleza arrebatadora. As montanhas verdejantes se erguiam imponentes, e a orla azul do mar, ainda distante, prometia paz.
Enquanto tomava o café, sua mente vagava. A complexidade da situação que os cercava era assustadora. A ameaça representada por aqueles homens, a implacabilidade de tudo o que eles representavam, parecia um roteiro de filme. Mas ali, em Paraty, a realidade era palpável, tangível. A textura das pedras sob seus pés, o aroma das flores, a brisa suave em seu rosto.
Ricardo finalmente apareceu na porta da varanda, os cabelos despenteados e um sono preguiçoso nos olhos. Um leve sorriso surgiu em seus lábios ao vê-la.
"Bom dia, meu amor", ele disse, a voz rouca de sono. Caminhou até ela, beijando-lhe a testa com ternura.
"Bom dia", Helena respondeu, o coração aquecido pela simplicidade daquele gesto.
Ele sentou-se ao lado dela, o braço envolvendo-a. "Você parece pensativa."
"Só estava admirando a vista. E pensando… pensando em tudo", ela confessou.
Ricardo suspirou. "Eu sei. Eu também. Mas estamos aqui agora. Juntos." Ele apertou-a levemente. "E isso é o que importa."
Helena se aninhou em seu peito. "Eu me sinto tão insegura, Ricardo. Como se a qualquer momento tudo pudesse desmoronar de novo."
"Eu sei que você se sente assim. Mas prometo que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que isso não aconteça", ele disse, a voz firme, com uma determinação que a tranquilizou. "Precisamos ser fortes. Por nós dois."
"E o que você acha que devemos fazer agora? Para onde ir depois daqui?" Helena perguntou, a voz baixa.
Ricardo ficou em silêncio por um momento, o olhar perdido na paisagem. "Primeiro, precisamos ter certeza de que estamos seguros. Precisamos ganhar tempo. Preciso pensar em um plano. Um plano que nos proteja de uma vez por todas." Ele virou-se para ela, os olhos cheios de uma intensidade que a fez tremer. "E eu tenho algumas ideias. Ideias que envolvem pessoas que podem nos ajudar. Pessoas que, assim como nós, foram vítimas de pessoas como o Dr. Valeriano e seus associados."
"Quem?" Helena perguntou, a curiosidade misturada com a apreensão.
"Velhos conhecidos. Pessoas que, em algum momento, também sofreram nas mãos deles. Pessoas que, assim como eu, têm contas a acertar. Mas antes disso, preciso resolver algumas pendências. Preciso ter certeza de que o que me resta da minha família está seguro."
Helena sabia que ele se referia à sua irmã, Sofia, e ao pequeno sobrinho. A preocupação com eles era uma sombra constante no coração de Ricardo, algo que ele mal conseguia expressar em palavras.
"E… e a sua irmã? E o pequeno Leo?" ela perguntou, hesitante.
"Eles estão com a tia Lúcia, em um lugar seguro. Por enquanto. Mas eu preciso ir até lá. Preciso garantir que ela saiba o que está acontecendo, que eles estejam verdadeiramente protegidos. E preciso pegar alguns documentos importantes que ficaram na casa. Documentos que provam a extensão das fraudes do Valeriano e a minha inocência. Documentos que, se caírem em mãos erradas, podem nos prejudicar ainda mais."
A ideia de ele se expor, de ir até o perigo, fez o coração de Helena disparar. "Ricardo, isso é muito perigoso!"
"Eu sei. Mas é necessário. E eu não vou sozinho. Você virá comigo." Ele disse com firmeza, olhando-a nos olhos. "Nós vamos juntos. E vamos sair dessa. Juntos."
Helena assentiu, sentindo uma mistura de medo e determinação. O amor que sentia por Ricardo era a força que a impulsionava. Se ele estava disposto a enfrentar o perigo, ela estaria ao seu lado, em cada passo. A jornada deles estava longe de terminar.