Segredos do Coração II

Segredos do Coração II

por Ana Clara Ferreira

Segredos do Coração II

Autor: Ana Clara Ferreira

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Capítulo 1 — O Retorno Inesperado

O sol da Bahia tingia o céu com tons de laranja e rosa, um espetáculo que se repetia todos os fins de tarde em Salvador, mas que, para Helena, parecia ter uma beleza renovada, quase melancólica. O vento salgado acariciava seus cabelos castanhos enquanto ela observava o movimento frenético do porto. As gaivotas gritavam, os navios apitavam, e as vozes dos trabalhadores se misturavam ao burburinho distante da cidade. Tinha sido um longo ano, um ano de distanciamento forçado, de silêncios incômodos e de uma dor que, em vez de diminuir, parecia se intensificar com o passar dos meses.

Helena apertou a alça da sua mala de couro surrada, um presente de seu pai antes de sua partida. Parecia que havia uma eternidade desde que pisara naquele chão. Cinco anos. Cinco anos longe de tudo que um dia chamou de lar. Cinco anos desde que a tragédia a arrancara de sua vida e a jogara em um exílio autoimposto, em busca de um recomeço em um país distante, onde as lembranças não a assombrassem a cada esquina. Mas o destino, caprichoso e implacável, a trouxera de volta.

Um arrepio percorreu sua espinha. Não era o frio da brisa, mas a antecipação do que a esperava. A casa da família, no Pelourinho, ainda estaria lá, guardando seus fantasmas e seus segredos. A tia Carmem, com suas histórias intermináveis e seu abraço apertado, a receberia com o mesmo amor incondicional de sempre. Mas havia alguém mais, alguém cujo nome ela tentara apagar de sua memória, mas que ressurgia com a força de um furacão agora que estava de volta.

Um táxi antigo, com a pintura descascada, parou a poucos metros dela. O motorista, um senhor de idade com um chapéu panamá surrado, sorriu para ela.

"Precisa de uma carona, moça? Parece que está esperando alguém."

Helena hesitou por um instante, então balançou a cabeça. "Não, obrigada. Estou esperando meu irmão."

O motorista deu de ombros e seguiu seu caminho. Helena voltou a olhar para o mar, sentindo o peso da responsabilidade que a trouxera de volta. A doença de seu pai, o Sr. Afonso, havia sido o estopim. Ele estava fraco, precisava dela. E, mesmo que a ideia de encarar o passado a apavorasse, o amor filial falava mais alto.

Uma voz familiar, rouca e marcada pelo tempo, a tirou de seus devaneios.

"Helena! Meu Deus, é você mesmo?"

Helena se virou, o coração disparado. Lá estava ele, mais velho, com os cabelos grisalhos nas têmporas, mas com o mesmo sorriso encantador que ela tanto se lembrava. Marcos. Seu primeiro amor, seu grande amor, aquele que ela acreditava ter deixado para trás para sempre.

"Marcos", ela sussurrou, a voz embargada.

Ele se aproximou, os olhos azuis brilhando de surpresa e de uma emoção que Helena não conseguia decifrar. Havia algo em seu olhar, uma mistura de mágoa e desejo, que a fez sentir um nó na garganta.

"Eu não acreditava quando a tia Carmem me disse que você estava voltando. Achei que era só mais uma das suas histórias mirabolantes."

Helena riu, um riso nervoso. "Não, Marcos. Desta vez é real. Voltei para ficar."

Ele a olhou por um longo momento, como se a estivesse estudando, tentando entender as mudanças que cinco anos haviam operado nela. Helena também o observava. Ele parecia mais maduro, mais seguro de si. Aquele brilho nos olhos, que um dia a fez perder o chão, ainda estava lá, mais intenso do que nunca.

"Você… você está linda, Helena", ele disse, a voz um pouco trêmula.

O elogio a pegou de surpresa. Ela não se sentia linda. Sentia-se cansada, assustada e sobrecarregada. "Obrigada, Marcos. Você também não mudou muito."

Era uma mentira. Ele havia mudado. E ela também. A distância, as experiências, tudo os havia moldado de formas diferentes.

"Vamos, seu pai deve estar ansioso para te ver", disse Marcos, pegando uma de suas malas. "Eu te dou uma carona."

Helena hesitou novamente. Estar perto dele era perigoso. O passado, com todas as suas dores e paixões, ameaçava inundá-la. Mas não havia como recusar. Ele era o único ali que a entendia, que compartilhara com ela tantas memórias.

"Claro", ela respondeu, com um suspiro. "Seria ótimo."

Enquanto caminhavam em direção ao carro de Marcos, um carro moderno e reluzente, diferente do táxi que ela havia dispensado, Helena sentiu os olhares curiosos das pessoas no porto. Salvador era uma cidade pequena em muitos aspectos, e a volta de Helena, a filha pródiga, certamente seria motivo de burburinho.

Dentro do carro, o silêncio pairava no ar, denso e carregado de palavras não ditas. Helena olhava pela janela, a paisagem de Salvador desfilando diante de seus olhos. As cores vibrantes, a arquitetura colonial, as pessoas sorridentes. Era tudo tão familiar, e ao mesmo tempo, tão estranho.

"Como foi lá fora?", Marcos perguntou, finalmente quebrando o silêncio. Sua voz era calma, mas Helena percebeu uma pontada de curiosidade genuína.

"Foi… diferente", respondeu Helena, escolhendo as palavras com cuidado. "Aprendi muito. Cresci. Mas nada se compara a estar em casa."

"Você fugiu, Helena", Marcos disse, sem rodeios. "Fugiu de tudo. De mim. De nós."

A acusação a atingiu como um tapa. Helena desviou o olhar, sentindo o rosto corar. "Não foi bem assim, Marcos."

"Ah, não? E como foi, então? Porque eu me lembro de ter acordado um dia e você ter desaparecido. Sem uma palavra, sem um adeus. Apenas… sumiu." A voz dele ganhou um tom de amargura que ela não esperava.

"Eu estava quebrada, Marcos. Eu precisava de um tempo para me curar."

"E eu? E o que eu sentia? Isso não importava?"

Helena finalmente o olhou nos olhos. A dor neles era palpável. "Importava, Marcos. Importava mais do que tudo. Mas eu não sabia como lidar com aquilo tudo. A perda… a dor… eu me sentia sufocada. A distância foi a única saída que eu encontrei."

Um silêncio pesado se instalou novamente. Marcos apertou o volante com força, seus nós dos dedos brancos. Helena sabia que a conversa estava apenas começando. O passado não a deixaria ir tão facilmente. E o reencontro com Marcos era apenas o prelúdio de uma tempestade que ameaçava engoli-la.

Ao chegarem ao Pelourinho, a casa da família, com suas paredes coloridas e a varanda florida, parecia um oásis de tranquilidade em meio à agitação da cidade. A tia Carmem, uma senhora robusta com cabelos brancos presos em um coque e um sorriso largo no rosto, esperava na porta.

"Helena! Minha filha!" Tia Carmem a abraçou com tanta força que Helena sentiu o ar faltar. "Eu não sabia se ia conseguir te ver de novo! Que alegria!"

As lágrimas brotaram nos olhos de Helena. O abraço de tia Carmem era um bálsamo para sua alma ferida. "Tia Carmem, eu também senti tanto a sua falta."

Marcos observava a cena com um leve sorriso. Era claro o afeto que unia Helena e sua tia.

"Deixe a moça respirar, Carmem!", disse Marcos, com um tom brincalhão, mas Helena percebeu a sombra de algo mais em seus olhos.

Tia Carmem soltou Helena e a olhou de cima a baixo. "Você está magra, minha filha. Precisa comer mais. Venha, venha para dentro."

Helena entrou na casa, o cheiro de café fresco e de bolo de fubá a envolvendo. Era o aroma da infância, da segurança, do lar. Mas também era o cheiro das memórias que ela tentara esquecer. O sofá onde ela e Marcos se sentavam para assistir a filmes juntos. A mesa da cozinha onde suas conversas se estendiam noite adentro. Tudo estava ali, intacto.

Enquanto tia Carmem a levava para o quarto, Helena lançou um olhar para Marcos. Ele ainda estava na porta, observando-a. Havia uma intensidade em seu olhar que a deixava inquieta. O retorno para Salvador não seria nada fácil. E o reencontro com Marcos era apenas o primeiro de muitos desafios que a esperavam. O passado havia chegado para cobrar seu preço, e Helena sabia que, desta vez, ela não poderia mais fugir.

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