Segredos do Coração II
Capítulo 19 — A Armadilha do Passado e o Grito de Verdade de Rafael
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 19 — A Armadilha do Passado e o Grito de Verdade de Rafael
A descoberta do diário do pai de Clara adicionou uma nova camada de complexidade à já intrincada teia de dívidas e ameaças. A ligação entre Inês e o passado de Clara, através de suas mães, era inegável. Clara sentia que estava mais perto da verdade, mas também mais exposta, mais vulnerável.
Rafael, por sua vez, sentia a pressão aumentar. A cada dia que passava, a possibilidade de Inês usar as informações sobre seu passado contra ele se tornava mais real. Ele tentava manter a calma, focar na investigação, mas a ansiedade o corroía por dentro.
"Precisamos agir rápido, Clara", disse Rafael, em mais uma de suas reuniões secretas. "Inês não vai esperar. Ela está jogando um jogo longo e calculista, e nós precisamos antecipá-la."
Clara concordou com a cabeça. "O diário do meu pai é crucial. Ele menciona um investimento conjunto com Helena, sua mãe, Inês. Algo que deu errado e que meu pai lamentava profundamente. Eu acho que Inês está usando isso como desculpa para se vingar."
"Vingança pode ser um motor poderoso", Rafael comentou, pensativo. "Mas ainda precisamos de provas concretas de que ela está manipulando as finanças da galeria. As transferências offshore são um bom começo, mas precisamos conectar Inês diretamente a elas."
Eles passaram dias vasculhando documentos, tentando encontrar um fio condutor que ligasse as contas offshore a Inês. Era como procurar uma agulha num palheiro, em um labirinto de números e nomes fictícios.
Enquanto isso, Inês, sentindo a aproximação deles, decidiu acelerar seus planos. Ela sabia que Clara e Rafael estavam investigando as transferências offshore. Então, ela armou uma armadilha. Usando seus contatos, ela fez com que um dos advogados envolvidos nas negociações da galeria vazasse uma informação falsa para Clara: a de que uma das contas offshore pertencia a um ex-sócio do pai de Clara, alguém com quem ele teve desentendimentos no passado.
A informação chegou a Clara através de um canal anônimo, e ela, aflita e querendo resolver o mais rápido possível, compartilhou com Rafael. "Rafael, descobri algo. Essa conta offshore, uma das que estamos investigando, parece pertencer a um antigo sócio do meu pai. Dizem que eles tiveram uma briga feia anos atrás."
Rafael franziu a testa. A informação parecia bem trabalhada, um peixe pequeno para fisgar Clara e distraí-los da verdadeira fonte das transações. Ele sabia que Inês era capaz de tais artimanhas.
"Clara, tenha cuidado", Rafael a advertiu. "Isso parece bom demais para ser verdade. Inês é esperta. Ela pode estar tentando nos desviar do caminho."
Mas Clara, consumida pela ansiedade de salvar a galeria, estava disposta a acreditar em qualquer pista que pudesse levá-la a uma solução. Ela decidiu investigar por conta própria o tal ex-sócio, seguindo a pista que Inês plantara.
Foi um erro fatal.
Enquanto Clara se perdia na investigação da pista falsa, Inês agiu. Ela usou a distração de Clara para pressionar os credores, acelerando o processo de execução da dívida. E, ao mesmo tempo, preparou seu plano para atingir Rafael.
Em uma noite tempestuosa, enquanto Clara estava fora da cidade, tentando rastrear o tal ex-sócio, Inês agiu. Ela sabia que Rafael estaria em seu apartamento, provavelmente revisando os últimos relatórios.
Inês enviou dois de seus capangas, homens brutais e sem escrúpulos, para o apartamento de Rafael. A ordem era clara: recuperar qualquer documento que pudesse ligar Inês às transações, e, se necessário, intimidar Rafael severamente.
Rafael não esperava o ataque. Os homens de Inês o surpreenderam. Houve uma luta violenta. Rafael, apesar de sua força, estava em desvantagem numérica e sem armas. Ele foi brutalmente espancado.
"Onde estão os documentos, idiota?", um dos capangas rosnou, pisoteando Rafael no chão.
"Não sei do que você está falando", Rafael respondeu, ofegante, o sangue escorrendo de seu rosto.
"Não minta para nós! Sabemos que você tem as provas contra a senhora Inês!", o outro disse, dando um chute em suas costelas.
Rafael sentiu uma dor lancinante, mas a raiva o impulsionou. Ele sabia que não podia ceder. Ele se lembrou do pacto com Clara, da promessa de protegê-la. E, de repente, ele pensou em Inês, em sua crueldade, em sua ganância. Um grito de verdade e de fúria escapou de seus lábios.
"Você acha que isso vai resolver alguma coisa, Inês?", Rafael gritou, mesmo sentindo os ossos se quebrando. "Você está destruindo tudo! A galeria, a memória do pai dela, e agora você tenta me destruir! Mas a verdade vai vir à tona! E você vai pagar por tudo isso!"
Os capangas, surpresos com a ousadia de Rafael, o espancaram ainda mais. Mas as palavras de Rafael ecoaram na mente de Inês, que observava a cena através de uma câmera escondida. Ela sentiu um arrepio, uma pontada de incerteza.
Quando os homens de Inês deixaram o apartamento, Rafael estava quase inconsciente, o corpo em frangalhos. Mas em sua mente, uma imagem clara se formou: a imagem de Inês, manipuladora e cruel. Ele sabia que ela estava por trás de tudo. E ele sabia que Clara precisava saber.
Com as últimas forças, Rafael arrastou-se até o telefone. Ele discou o número de Clara, que estava hospedada em um hotel na cidade vizinha, rastreando a falsa pista.
"Clara…", a voz de Rafael era um sussurro rouco e doloroso. "Armadilha… Inês… Ela… ela sabe…"
Clara, ao ouvir a voz de Rafael, sentiu um pânico gélido tomar conta de si. "Rafael? O que aconteceu? Onde você está?"
"Meu apartamento… me atacaram… A pista… era falsa… Inês… ela está vindo atrás de nós… Precisamos… precisamos expô-la…" As palavras de Rafael se tornaram cada vez mais fracas, até que ele perdeu a consciência.
Clara, em choque, pegou o carro e dirigiu em alta velocidade de volta para a cidade. O coração batia descompassado em seu peito. A armadilha de Inês havia sido brutal, mas as palavras de Rafael, o grito de verdade em meio à dor, haviam acendido uma chama de revolta em Clara.
Ela não lutaria mais apenas para salvar a galeria. Ela lutaria para expor a verdade, para fazer Inês pagar por seus crimes, por sua crueldade. O passado de Inês, assim como o de Rafael, estava prestes a vir à tona, e o jogo de espelhos que ela tanto gostava de jogar se transformaria em um pesadelo real.