Segredos do Coração II

Ana Clara Ferreira

por Ana Clara Ferreira

Ana Clara Ferreira Romance: Segredos do Coração II Gênero: Romance Romântico

Capítulo 6 — O Encontro Inesperado na Chuva

A chuva caía com a força de um pranto cósmico sobre as ruas de Paraty, cada gota um lembrete da tempestade que se formava dentro de Clara. O dia que começara com a promessa de serenidade se desdobrara em um emaranhado de revelações dolorosas. O encontro com o Dr. Eduardo, a descoberta sobre a verdadeira natureza do testamento de seu avô, a frieza calculista de Inês… tudo parecia conspirar para afundá-la em um mar de incertezas.

Ela dirigia sem rumo, o volante entre os dedos trêmulos, o coração apertado como um nó. A paisagem outrora acolhedora de Paraty, com suas casas coloniais e ladeiras de paralelepípedos, agora parecia sinistra, encoberta por um véu cinzento de chuva e desespero. O rádio tocava uma melodia melancólica que só acentuava seu estado de espírito. Por um instante, ela considerou ir para a casa da tia, mas a imagem do abraço sufocante de Inês a fez desviar o pensamento. Onde se esconder quando o próprio sangue te persegue?

A windshield wiper lutava bravamente contra a cortina de água, mas a visibilidade era mínima. Foi então que, em um cruzamento deserto, ela viu. Parado no meio da rua, sob a chuva torrencial, estava um carro velho, com o capô levantado, soltando uma fumaça preguiçosa. Uma figura solitária, encharcada até os ossos, tentava desesperadamente consertar o motor com mãos desajeitadas.

Um impulso, talvez o último resquício de bondade em um dia tão sombrio, a fez reduzir a velocidade. O coração deu um pulo estranho ao reconhecer a silhueta. Não podia ser…

Ela estacionou o carro a uma distância segura e saiu, o vestido fino grudando no corpo molhado. A chuva a chicoteava, mas ela mal sentia. Seus olhos fixaram-se na figura que agora se virava, seus cabelos escuros grudados no rosto pálido e molhado.

Era ele.

Miguel.

O Miguel que ela vira pela última vez em um abraço carregado de promessas não ditas, em um adeus que parecia apenas um até logo. O Miguel que ela tentara esquecer, mas que habitava em cada canto de sua memória, em cada batida acelerada de seu coração.

Ele piscou, surpreso, seus olhos azuis arregalados encontrando os dela. Um raio de sol tímido, quebrou a nuvem pesada, e por um breve instante, a luz pareceu iluminar apenas os dois, em meio à tempestade.

"Clara?", a voz dele saiu rouca, quase um sussurro, misturando-se ao som da chuva.

Ela não conseguiu responder. Apenas ficou ali, parada, sentindo o peso de tudo que os separava e, paradoxalmente, a força inexplicável que os unia. O tempo pareceu congelar. As preocupações com o legado, com Inês, com o futuro, tudo desvaneceu diante daquele reencontro fortuito e surreal.

Miguel largou a ferramenta que tinha nas mãos e deu um passo hesitante em sua direção. A água escorria de seu rosto, formando riachos em suas bochechas. Havia uma mistura de espanto e algo mais profundo em seu olhar.

"O que você está fazendo aqui?", ele perguntou novamente, agora um pouco mais perto.

Clara finalmente encontrou a voz, um fio fino e trêmulo. "Eu… eu estava dirigindo. E vi você. Seu carro… está com problemas?"

Ele deu um sorriso fraco, irônico. "Parece que sim. A chuva decidiu me dar um banho extra depois de me abandonar aqui." Ele gesticulou para o motor. "Acho que o motor fundiu. Completamente."

Ela deu um passo à frente, o coração disparado. "Você… você está bem? Está encharcado, Miguel."

"É o de menos, agora que te vi", ele respondeu, e a intensidade em seu olhar fez o estômago de Clara revirar.

Um silêncio carregado pairou entre eles. A chuva continuava, implacável, mas agora parecia ter perdido sua fúria. Era como se o mundo ao redor tivesse se recolhido, permitindo que eles existissem naquele pequeno espaço de tempo e de dor.

"Eu… eu não esperava te ver aqui", Clara murmurou, tentando preencher o silêncio com palavras banais, mas sua voz traiçoeira a entregava.

"Nem eu. O mundo é pequeno, não é? Ou talvez seja o destino brincando de nos colocar no mesmo caminho, na mesma tempestade." Ele se aproximou mais, o espaço entre eles diminuindo. Clara sentia o calor que emanava dele, mesmo através das roupas molhadas. "Você parece… agitada."

Ela engoliu em seco. "Tive um dia… complicado."

Miguel a olhou com preocupação genuína. "Quer conversar? Posso te levar para algum lugar. Se meu carro não estiver completamente morto, eu posso tentar te dar uma carona. Ou podemos ir para um café, se não se importar de ficar um pouco mais molhada."

O convite era tentador. A ideia de se afogar em conversas com Miguel, de se perder na profundidade de seus olhos azuis, era um bálsamo para a alma machucada. Mas o medo, o receio de reabrir feridas, de se iludir novamente, a freou.

"Eu… eu não sei, Miguel. Talvez seja melhor não", ela disse, a voz embargada.

A decepção cruzou o rosto dele, mas foi rapidamente substituída por uma compreensão melancólica. "Entendo. Você não quer se envolver. Ou não quer lidar com o passado." Ele deu um passo para trás, e o espaço entre eles se abriu novamente, mas agora parecia maior, mais intransponível. "Eu não deveria ter voltado, não é?"

"Não é isso, Miguel! É só que… muita coisa aconteceu", ela se apressou em dizer, sentindo um aperto no peito. Ela não queria que ele pensasse que ela o rejeitava.

"Eu sei. E sinto muito por tudo que aconteceu. Por… tudo." Ele hesitou, o olhar fixo no dela, como se buscasse uma resposta que ela não conseguia dar. "Mas você sempre foi a única que entendeu o meu silêncio. A única que viu além do que os outros viam."

As palavras dele ecoaram em sua mente, ressoando com verdades enterradas. Ele estava certo. Miguel sempre fora o porto seguro, o olhar que a compreendia sem precisar de explicações.

"Eu… eu preciso ir", Clara disse, finalmente, a voz fraca. Ela não podia mais sustentar aquele olhar, aquela proximidade. A tempestade lá fora era um reflexo da tempestade em seu interior, e ela sabia que, no momento, não havia lugar para ele.

Ele assentiu lentamente, seus olhos azuis carregados de uma tristeza profunda. "Tudo bem, Clara. Eu entendo." Ele deu um passo para trás, afastando-se dela, voltando para o carro quebrado, para a chuva que o encharcava. "Tome cuidado."

Clara entrou no carro, o corpo tremendo, não apenas de frio, mas de uma emoção avassaladora. Ela deu a partida, os olhos fixos no retrovisor. Miguel estava ali, sozinho, a silhueta esguia sob a chuva implacável. Por um instante, ela pensou em voltar, em oferecer ajuda de verdade, em se permitir um momento de conexão. Mas o medo a paralisou.

Ela acelerou, deixando Miguel para trás, deixando para trás o que poderia ter sido uma trégua na tempestade. Enquanto as luzes de Paraty se dissipavam na chuva, Clara sabia que a tempestade em seu coração estava longe de acabar. O reencontro com Miguel, por mais inesperado e perturbador que fosse, apenas adicionara mais uma camada de complexidade aos seus já turbulentos segredos. E a pergunta pairava no ar, silenciosa e dolorosa: seria o destino brincando com eles, ou apenas uma cruel ironia?

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%