O Homem que Amei
Capítulo 7 — O Labirinto de Sombras de Rafael Almeida
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 7 — O Labirinto de Sombras de Rafael Almeida
A manhã seguinte amanheceu com um sol tímido, como se a própria natureza hesitasse em se expor após a tempestade da noite anterior. Para Isabella, cada raio de luz que entrava pelas janelas de seu apartamento parecia carregar um peso, uma lembrança da fragilidade que a assombrava. O encontro com Gabriel havia sido um bálsamo, uma âncora em meio à turbulência, mas a sombra de Rafael Almeida pairava, densa e ameaçadora.
No escritório, a atmosfera era tensa. O telefonema de Almeida havia sido atendido por Helena, que, com sua habitual perspicácia, percebeu a urgência disfarçada em cordialidade polida. "Ele quer uma reunião, Doutora Isabella. Amanhã. Na casa dele. Diz que é sobre um assunto delicado relacionado à antiga parceria com seu pai."
O convite era uma armadilha, ela sabia. Uma tentativa de laço, de cercá-la em seu próprio terreno. Mas ela também sabia que não poderia mais fugir. Fugir só alimentava o medo, dava mais poder aos fantasmas. Gabriel a havia encorajado a ir. "Precisamos de respostas, Isabella. E se Almeida está nos chamando, é porque ele tem algo a esconder. Ou talvez, algo a temer."
A noite anterior foi de insônia, as lembranças de seu pai misturando-se às visões de Gabriel, e à figura esquiva de Almeida. Ela rebuscou em sua memória cada detalhe das conversas que ouvira quando criança, cada olhar trocado entre seu pai e Almeida, cada silêncio suspeito. As peças do quebra-cabeça, antes espalhadas e sem sentido, começavam a se encaixar em um padrão macabro.
No dia seguinte, o tempo parecia conspirar contra ela. Um céu cinzento e uma garoa fina acompanharam seu trajeto até o suntuoso casarão na Gávea, um reduto de poder e discrição. A casa de Almeida era um monumento à opulência, um reflexo do império que ele construíra sobre as cinzas de outros. A cada passo no mármore polido do hall de entrada, Isabella sentia uma vertigem, um pressentimento de que estava adentrando um labirinto de sombras.
Rafael Almeida a recebeu com um sorriso calculista, os olhos azuis, frios como gelo, fixos nos dela. Vestia um terno impecável, a postura ereta, a voz suave, quase sedutora. Era um predador em seu habitat natural.
"Isabella, que bom que pôde vir", disse ele, gesticulando para que ela se sentasse em um dos sofás de veludo escuro. "É um prazer revê-la em circunstâncias tão... diferentes."
A sutileza da provocação não passou despercebida. Isabella sentou-se, mantendo a compostura, o coração martelando no peito. "Senhor Almeida. Agradeço o convite, embora sua ligação tenha sido um tanto alarmante."
Ele riu, um som seco, desprovido de alegria. "Alarmante? Minha cara, eu apenas desejo discutir o legado de seu pai. Ricardo era um homem de visão, um parceiro inestimável. Sinto muito sua falta."
As palavras de lamento pareciam falsas, ensaiadas. Isabella manteve o olhar fixo nele. "Eu também sinto a falta dele. E é por isso que estou aqui. Quero entender o que aconteceu. Quero saber a verdade sobre os negócios que vocês dois conduziam."
Almeida serviu duas taças de um vinho escuro, o movimento deliberado, estudado. Ele lhe estendeu uma taça. "A verdade, minha cara Isabella, é um conceito relativo. O que para uns é verdade, para outros é apenas uma ilusão." Ele deu um gole longo. "Seu pai e eu tínhamos visões diferentes sobre o futuro. Ele era... sentimental. Eu sou pragmático."
"Pragmático a ponto de arruinar a reputação dele?", Isabella perguntou, a voz subindo um tom.
Almeida a encarou, o sorriso desaparecendo. "Cuidado com o que diz, Isabella. As palavras têm poder. E as acusações, quando infundadas, podem ter consequências desastrosas."
"Eu não estou falando de acusações infundadas, senhor Almeida. Estou falando de mentiras. De traição." A coragem que Gabriel lhe dera a impulsionava. Ela não se deixaria intimidar.
Ele se levantou e caminhou até a janela, observando a chuva que agora caía com mais intensidade. "Seu pai estava em um momento delicado. Tinha dívidas que não podia pagar. Se não fosse por mim, ele teria perdido tudo. Eu o salvei. E em troca, ele me cedeu sua participação na empresa."
"Ele foi coagido", Isabella rebateu, a voz firme. "O senhor se aproveitou da fragilidade dele."
Almeida se virou, os olhos faiscando. "Coerção? Eu ofereci uma saída. Ele escolheu. E agora, você está aqui, invadindo meu espaço, questionando meu caráter. Por quê? O que você realmente quer, Isabella?"
"Quero a verdade. Quero saber o que aconteceu naquele último dia. Quero saber por que meu pai morreu sozinho e desonrado." Ela se levantou, sentindo uma força renovada. "E se o senhor não me der as respostas que eu procuro, eu as encontrarei de outra forma."
Ele deu um passo em sua direção, o olhar penetrante. "Você é teimosa, como seu pai. Mas lembre-se, Isabella, você está lidando com um homem que construiu seu império do nada. E que não hesita em proteger o que é seu."
O ar na sala ficou pesado, carregado de tensão. Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A ameaça era clara, velada nas entrelinhas de suas palavras. Ela sabia que Almeida estava mentindo, que havia muito mais por trás daquela fachada polida.
"Eu não tenho medo do senhor, Almeida", ela disse, a voz mais baixa, mas carregada de convicção. "E não me importo com seu império. Só me importo com a memória do meu pai e com a verdade."
Ela se virou e saiu da sala, deixando Almeida para trás. A porta se fechou com um clique suave, mas o eco da confrontação ressoou em seus ouvidos. Ela sabia que havia acendido um pavio. A resposta de Almeida não seria gentil.
Ao sair da casa, a chuva já havia cessado, mas o céu continuava nublado. Isabella entrou em seu carro, sentindo o cansaço tomar conta de si. A conversa com Almeida fora exaustiva, mas também reveladora. Ele era um homem perigoso, capaz de tudo para manter seus segredos enterrados.
Gabriel a esperava em seu apartamento, com o jantar pronto e um sorriso acolhedor. Ao vê-la, ele percebeu a tensão em seu rosto.
"Como foi?", ele perguntou, abraçando-a.
Isabella se permitiu relaxar em seus braços. "Foi... intenso. Ele mentiu, Gabriel. Ele está escondendo algo grande."
Ela contou a ele tudo o que Almeida havia dito, a história distorcida sobre as dívidas e a cessão da empresa. Gabriel a ouviu com atenção, sua expressão séria.
"Eu sabia que não seria fácil", disse ele. "Mas isso só confirma que estamos no caminho certo. Almeida tem algo a perder. E nós vamos descobrir o quê."
Eles comeram em silêncio, a mente de Isabella trabalhando a mil. Almeida a havia desafiado. E ela aceitaria o desafio. Ela o levaria ao limite, desenterraria cada segredo, cada mentira, até que a verdade sobre a morte de seu pai viesse à tona. A tempestade em sua alma ainda estava lá, mas agora, ela tinha um plano, e, mais importante, tinha Gabriel ao seu lado.