O Homem Perfeito II
O Homem Perfeito II
por Ana Clara Ferreira
O Homem Perfeito II
Autor: Ana Clara Ferreira
---
Capítulo 1 — O Voo da Borboleta Ferida
O ar de São Paulo, naquele fim de tarde de outubro, pairava pesado e úmido sobre a cidade, um presságio silencioso da tempestade que se avizinhava, tanto no céu quanto na alma de Helena. O sol, teimoso, tentava romper as nuvens cinzentas que engoliam o horizonte, lançando feixes de luz dourada sobre os arranha-céus imponentes, como se chorasse pelas desventuras que a metrópole tantas vezes testemunhava. Helena, em seu apartamento moderno e minimalista no vigésimo andar, sentia a mesma dualidade. A beleza fria e calculada do ambiente contrastava com o turbilhão de emoções que a consumia.
Ela encarava o reflexo no vidro da janela, mais a observava do que se via. Os olhos verdes, outrora tão vibrantes, agora carregavam um véu de melancolia, um reflexo das noites mal dormidas e dos dias arrastados. Os cabelos castanhos, geralmente presos em um coque elegante, caíam em ondas rebeldes sobre seus ombros, emoldurando um rosto pálido, marcado pela exaustão. Helena Viana, a renomada arquiteta, a mulher que construía sonhos em concreto e aço, sentia-se em ruínas. A borrão de uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha, e ela não se deu ao trabalho de enxugá-la. Era um alívio quase cruel permitir que as emoções transbordassem, por mais doloroso que fosse.
Há seis meses, sua vida havia desmoronado. O "homem perfeito", como ela ousara chamar Daniel em sua ingenuidade juvenil, havia se revelado um arquiteto de ilusões, um mestre na arte de construir uma fachada impecável para esconder uma realidade sombria. A traição, a mentira, a dor aguda da descoberta, tudo isso ainda latejava em suas veias como veneno. Ela havia se doado por inteiro a ele, acreditando em cada palavra, em cada juramento de amor eterno. E ele, com sua frieza calculada, havia quebrado tudo em pedacinhos.
O celular em seu pulso tocou, um toque suave que, em outra época, traria um sorriso aos seus lábios. Agora, apenas um leve tremor percorreu seu corpo. Era Sofia, sua melhor amiga, sempre atenta, sempre presente, mesmo quando Helena tentava se isolar em sua dor.
"Helena? Você está aí?", a voz animada de Sofia soou do outro lado da linha. "Eu sei que você disse que queria ficar quieta hoje, mas a Clara ligou. Ela está empolgadíssima com o novo projeto, quer que a gente vá lá dar uma olhada. Vai ser divertido, amiga! Sabe, sair um pouco, ver gente… a Clara tem aquele vinho italiano que você adora!"
Helena suspirou, fechando os olhos. A ideia de sair, de fingir que estava tudo bem, parecia uma montanha intransponível. "Sofia, eu… eu não estou me sentindo muito bem. Acho que vou ficar por aqui mesmo."
Houve um breve silêncio do outro lado, e Helena sabia que Sofia estava tentando decifrar as entrelinhas, buscando a verdade por trás da desculpa esfarrapada. Sofia a conhecia como ninguém.
"Helena, querida", a voz de Sofia mudou, tornando-se mais suave, carregada de preocupação genuína. "Eu entendo. De verdade. Mas você não pode continuar se escondendo. A vida não pode parar por causa de um… de um idiota. Você é forte, Helena. Você é mais forte do que imagina."
"Eu não me sinto forte, Sofia", Helena sussurrou, a voz embargada. "Eu me sinto quebrada. Como um vaso que caiu e se espatifou no chão. Por mais que a gente tente juntar os cacos, as marcas ficam. E algumas marcas são fundas demais."
"Eu sei que é difícil", Sofia respondeu, sua voz firme, mas gentil. "Mas você não está sozinha. Eu estou aqui. A Clara está aqui. E a vida continua, Helena. Novas oportunidades, novas pessoas… quem sabe o que o futuro reserva?"
Helena riu, um som amargo e sem alegria. "O futuro… o futuro para mim parece uma tela em branco, Sofia. E eu não tenho mais cores para pintar."
"Ah, bobagem!", Sofia exclamou, tentando injetar ânimo na conversa. "Você só precisa de um pequeno empurrão. Pense nisso como um novo começo. Um novo capítulo. E eu prometo, não vamos falar dele. Vamos falar de arte, de música, de fofocas antigas… o que você quiser."
O apelo de Sofia era sincero, Helena sabia. E, por mais que sua alma estivesse em luto, uma pequena centelha de gratidão e um desejo tímido de se reconectar com o mundo acenderam-se dentro dela. Talvez Sofia estivesse certa. Talvez ficar ali, em seu casulo de dor, fosse a pior coisa que ela pudesse fazer.
"Tudo bem", Helena cedeu, a decisão mal formulada em sua mente. "Eu vou. Mas só por um tempinho. E se eu me sentir mal, eu vou embora."
"Isso!", Sofia comemorou, como se tivesse acabado de ganhar uma batalha. "Que bom, amiga! Eu passo aí em uma hora. Se arruma, hein? Quero ver a minha Helena de volta!"
A ligação terminou, deixando Helena em um silêncio que agora parecia menos opressor. Ela se olhou novamente no espelho, e desta vez, tentou focar nos traços que ainda eram seus. A determinação em seus olhos, apesar da tristeza. A elegância natural em seus gestos. Ela ainda era Helena Viana. E por mais ferida que estivesse, ela ainda tinha uma vida para viver.
O ritual de se arrumar foi quase terapêutico. Um banho longo e quente, o cheiro suave de lavanda preenchendo o banheiro. A escolha de um vestido azul-marinho que realçava a cor de seus olhos, um sapato de salto discreto, mas elegante. Ela se maquiou levemente, apenas o suficiente para disfarçar as olheiras e dar um toque de cor aos lábios. Era uma armadura, sim, mas uma armadura que a permitia enfrentar o mundo, mesmo que por um breve momento.
Ao sair do apartamento, o ar da noite já anunciava a chegada de uma brisa refrescante, afastando o calor sufocante do dia. A cidade, vista de cima, era um espetáculo de luzes cintilantes, um oceano de estrelas artificiais. Helena sentiu uma pontada de admiração, uma lembrança fugaz de sua paixão pela arquitetura, pela beleza que podia ser criada a partir do nada.
O carro de Sofia a esperava na porta do prédio. Ao entrar, foi recebida pelo sorriso caloroso da amiga, que parecia irradiar otimismo.
"Pronta, meu bem?", Sofia perguntou, seus olhos verdes curiosos avaliando a aparência de Helena.
"O melhor que posso", Helena respondeu, um pequeno sorriso genuíno escapando em seus lábios.
O caminho até a casa de Clara foi preenchido por conversas leves, risadas e a música suave que tocava no rádio. Helena se permitiu relaxar um pouco, absorvendo a energia positiva de Sofia. Clara, uma artista plástica vibrante e cheia de vida, morava em uma casa charmosa no bairro de Higienópolis, um refúgio de arte e boemia em meio à agitação da cidade.
Ao chegarem, a casa já fervilhava de gente. Amigos em comum, artistas, intelectuais. O clima era descontraído e acolhedor. Clara a recebeu com um abraço apertado e um sorriso radiante.
"Helena! Que bom que você veio! Eu estava com saudades!", Clara exclamou, seus olhos expressivos transmitindo sinceridade. "Sofia me disse que você não estava muito animada, mas eu sabia que você ia aparecer. Você não perde um bom vinho italiano por nada!"
Helena riu, sentindo-se um pouco mais leve. "Você me conhece bem, Clara."
A noite avançou. Helena se sentou em um canto, observando as pessoas, ouvindo as conversas. Ela bebeu o vinho, sentindo seu calor reconfortante se espalhar por suas veias. Ela até conseguiu participar de algumas conversas, rindo de piadas e comentando sobre arte. Mas, em alguns momentos, a melancolia voltava a assombrá-la, como uma sombra persistente. Ela se pegava olhando para o celular, temendo uma mensagem de Daniel, temendo uma ligação que nunca viria.
Foi em um desses momentos de distração, enquanto olhava para a janela embaçada pela chuva fina que começara a cair, que ela o viu. Um homem alto, de cabelos escuros e intensos, com um sorriso que parecia iluminar o ambiente, conversava animadamente com um grupo de pessoas perto da lareira. Havia algo nele que a atraiu, uma energia magnética que a fez desviar o olhar da janela para ele. Ele parecia seguro de si, com uma elegância natural que a fez se perguntar quem ele seria.
Por um instante, Helena sentiu uma curiosidade genuína, um desejo de saber mais sobre aquele homem. Mas a lembrança de Daniel a atingiu como um raio. O que ela estava fazendo? Olhando para outros homens? Ela ainda estava presa ao passado, presa à dor.
Ela se levantou, sentindo-se subitamente cansada. "Sofia, eu acho que vou para casa", ela disse, sua voz um pouco mais baixa do que o normal.
Sofia a olhou com preocupação. "Já? Mas você acabou de chegar!"
"Eu sei. Mas a dor de cabeça voltou. E eu… eu preciso descansar."
Sofia a abraçou. "Tudo bem, amiga. Se precisar de alguma coisa, me liga. E se quiser conversar, a qualquer hora."
Helena agradeceu com um aceno de cabeça e se despediu de Clara. Ao sair da casa, a chuva caía mais forte, lavando as ruas e o céu. Ela chamou um táxi, sentindo um aperto no peito. A noite fora uma tentativa, uma pequena vitória contra a solidão, mas a dor ainda estava ali, esperando para consumi-la novamente. Ao entrar no carro, ela se recostou no banco, o vidro molhado embaçando sua visão enquanto as luzes da cidade se tornavam borrões em movimento. Ela era como uma borboleta com asas feridas, tentando voar em meio à tempestade.
---