O Homem Perfeito II

Capítulo 2 — Ecos de um Passado Distante

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 2 — Ecos de um Passado Distante

A madrugada em São Paulo era um sussurro melancólico de chuva e tráfego distante. No apartamento de Helena, o silêncio reinava, pontuado apenas pelo tique-taque insistente de um relógio na sala. Helena jazia na cama, o corpo imóvel, mas a mente em turbilhão. As imagens de Daniel, seus sorrisos falsos, suas promessas vazias, dançavam em sua retina, implacáveis. A traição dele não era apenas um evento, era uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar.

Ela se virou na cama, o lençol frio em contato com sua pele febril. O sono era um luxo que ela não conseguia mais comprar. Cada tentativa de fechar os olhos era recebida por um bombardeio de memórias, como fantasmas ressuscitados para atormentá-la. A casa que ela projetou para eles, o futuro que ela imaginou, tudo agora parecia uma peça de teatro cruel, encenada para seu próprio desespero.

A luz fraca do amanhecer começava a se infiltrar pelas frestas da persiana, anunciando mais um dia que ela teria que enfrentar. Helena sentiu um nó na garganta, uma mistura de raiva e tristeza. Como ele pôde? Como ela pôde ser tão cega? As perguntas ecoavam em sua mente, sem respostas, sem consolo.

Ela se levantou com a lentidão de quem carrega um fardo pesado. O reflexo no espelho do banheiro era o de uma mulher em frangalhos. Olhos inchados, pele pálida, uma sombra de dor permanente gravada em seu rosto. Ela sentiu uma pontada de desgosto. Era essa a Helena que ela se tornara? Uma sombra de si mesma?

O café da manhã foi uma luta. O cheiro do café fresco, antes reconfortante, agora parecia sufocante. Ela apenas mexeu no iogurte, incapaz de engolir. O trabalho, sua paixão, seu refúgio, parecia um lugar hostil. Como ela poderia se concentrar em criar beleza e harmonia quando sua própria vida era um caos?

O telefone tocou. Helena hesitou antes de atender. Era seu sócio, Marcos. Um homem prático, leal, mas que nunca compreendera a profundidade da dor de Helena.

"Bom dia, Helena", a voz de Marcos soou, profissional e direta. "Você está pronta para a reunião de hoje? O cliente está ansioso para ver os primeiros esboços do novo complexo comercial."

Helena respirou fundo. A reunião. Ela tinha se esquecido. "Bom dia, Marcos. Sim, estou pronta. Me dê uma hora, por favor."

Ela desligou o telefone, sentindo a pressão aumentar. Tinha que se recompor. Tinha que ser a Helena profissional que todos conheciam. Ela se vestiu com seu habitual tailleur cinza, um uniforme de força e competência. Seus cabelos foram presos em um coque impecável, cada fio no lugar. Ela aplicou uma camada generosa de maquiagem, um véu para esconder a tempestade interior.

No caminho para o escritório, os arranha-céus de São Paulo a fitavam como gigantes indiferentes. Cada prédio era uma história, cada janela uma vida. Ela era uma construtora de sonhos, mas o seu próprio sonho havia sido demolido. A cidade, que antes a inspirava, agora parecia um lembrete constante de sua própria fragilidade.

O escritório, um espaço moderno e elegante, projetado por ela mesma, era um reflexo de sua ambição e talento. Mas, naquele dia, parecia um museu de memórias dolorosas. Cada objeto, cada detalhe, a remetia a Daniel. A caneta que ele lhe dera de presente, a foto de um projeto que fizeram juntos, agora pareciam espinhos.

A reunião com o cliente foi tensa, mas profissional. Helena apresentou os esboços com confiança, sua voz firme, seus argumentos impecáveis. Ela usou toda a sua experiência e criatividade para impressionar, para provar a si mesma e ao mundo que ainda era a arquiteta brilhante que sempre fora. Marcos a observava com admiração, sem saber da batalha interna que ela travava.

No meio da tarde, enquanto revisava alguns documentos em seu escritório, Helena se viu fitando uma caixa antiga, guardada em uma prateleira. Era uma caixa de lembranças, cheia de cartas, fotos e objetos que ela nunca tivera coragem de jogar fora. Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha. Daniel. Ele estava em cada canto de sua vida.

Ela pegou a caixa, seus dedos tremendo levemente. Abriu-a com cuidado. Havia cartas de amor, datilografadas com a letra elegante de Daniel, cheias de promessas e declarações apaixonadas. Havia fotos deles, sorrindo, abraçados, em viagens que agora pareciam distantes e irreais. E havia um pequeno objeto de madeira, esculpido à mão, um pássaro que ele lhe dera em sua primeira viagem juntos. Ela o segurou, sentindo a textura áspera da madeira. Era um símbolo de tudo o que eles haviam construído, e de tudo o que ele havia destruído.

De repente, um estrondo fez Helena pular. Uma trovoada alta e poderosa ecoou pela cidade, seguida por um clarão de relâmpago que iluminou o céu. A chuva que caíra levemente mais cedo agora se transformara em um temporal furioso. As janelas do escritório tremeram com a força do vento.

Helena sentiu um pânico crescente. A tempestade lá fora parecia refletir a tempestade dentro dela. Ela se sentiu sufocada, presa. As lembranças a inundavam, cada vez mais fortes, mais dolorosas. Ela fechou a caixa, sentindo uma urgência em se livrar de tudo aquilo.

Ela pegou um saco de lixo grande e começou a jogar tudo dentro dele. As cartas, as fotos, o pássaro de madeira. Cada objeto era um golpe, mas ela precisava fazer isso. Precisava se libertar. Sentiu uma raiva primitiva crescer dentro dela, uma necessidade de destruir o que a machucava.

Quando o saco estava quase cheio, ela parou, o peito arfando. O que ela estava fazendo? Destruir as lembranças não apagaria a dor. Não apagaria a história. Ela apenas as substituiria por um vazio.

Com mãos trêmulas, ela tirou as cartas e as fotos do saco. Deixou apenas alguns objetos sem valor sentimental, pequenos pedaços de papel, embalagens. Ela olhou para o pássaro de madeira. Não. Ela não podia jogar fora. Era um símbolo de um tempo em que ela acreditou no amor, em um tempo em que ela foi feliz. Mesmo que agora parecesse um fantasma, era parte de sua história.

Ela guardou o pássaro em sua bolsa, um segredo guardado em seu peito. O temporal lá fora diminuía, a chuva se acalmava. Helena sentiu um leve alívio. Ela não havia destruído tudo. Havia guardado um pedaço do passado, um lembrete de que ela era capaz de amar, mesmo que tenha sido traída.

Naquela noite, enquanto a cidade adormecia sob o céu lavado pela chuva, Helena sentiu uma mudança sutil em seu interior. A raiva ainda estava lá, a dor também, mas algo mais começava a emergir. Uma determinação silenciosa. Ela não seria a vítima para sempre. Ela encontraria uma maneira de reconstruir sua vida, de encontrar novas cores para pintar sua tela em branco.

Ela olhou para o pássaro de madeira em sua mão. Ele era pequeno, mas resistente. Assim como ela. A tempestade havia passado, mas deixara marcas. E essas marcas, ela sabia, a tornariam mais forte. A mulher que construía edifícios estava agora começando a reconstruir a si mesma. Era um processo lento, doloroso, mas necessário.

De repente, ela se lembrou do homem que vira na festa de Clara. Aquele sorriso que parecia iluminar tudo. Uma pequena centelha de curiosidade, algo que ela não sentia há muito tempo, acendeu-se em seu peito. Seria possível que o mundo ainda guardasse surpresas para ela?

Ela pegou o celular, hesitando por um momento. A ideia de se conectar com alguém novo era assustadora. Mas, de alguma forma, a imagem daquele homem persistia em sua mente. Ela abriu o aplicativo de mensagens, digitou o número de Sofia.

"Sofia? Sou eu. Desculpe te incomodar a essa hora. Mas eu… eu pensei em algo. Lembra daquela festa? Tinha um homem lá, perto da lareira. Você sabe quem ele é?"

A resposta de Sofia veio quase imediatamente. "Helena! Que surpresa! Sim, sei quem é. O nome dele é Rafael. Ele é amigo da Clara há anos. Um músico talentoso. Por quê? De repente ficou interessada em música?"

Helena sorriu levemente. "Talvez. Quem sabe. Me diga mais sobre ele."

Enquanto esperava a resposta de Sofia, Helena sentiu um fio de esperança se entrelaçar em sua alma. A borboleta ferida ainda precisava voar, mas agora, talvez, ela estivesse começando a sentir o vento a seu favor. O caminho seria longo, mas ela não estava mais sozinha em sua jornada. E isso, por si só, era um começo.

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