Amor Impossível
Amor Impossível
por Camila Costa
Amor Impossível
Capítulo 6 — O Fogo Cruzado das Verdades
A brisa marinha, outrora suave e acariciadora, agora parecia carregar o peso de mil tempestades. O sol poente, pintando o céu de tons alaranjados e avermelhados, mal conseguia dissipar a escuridão que se instalara entre Helena e Ricardo. O olhar de Helena, antes repleto de um brilho esperançoso, agora era uma tempestade de mágoa e desconfiança. As palavras de Ricardo, proferidas com a força de quem tentava desesperadamente se defender, ecoavam no silêncio tenso que se instalara na varanda da mansão dos Lins.
"Helena, por favor, me escute!", a voz de Ricardo implorava, rouca de emoção. Ele tentou se aproximar, mas Helena recuou como se a pele dele queimasse.
"Escutar o quê, Ricardo? Mais mentiras? Mais meias verdades? Você acha que eu sou idiota? Acha que pode brincar com os meus sentimentos assim, depois de tudo?", a voz dela tremia, uma mistura de raiva e dor que dilacerava o coração dele. Ela gesticulava com as mãos, as unhas pintadas de um vermelho vibrante parecendo garras prontas para rasgar a fachada que ele construíra.
"Não é mentira, Helena. É… é complicado. Aquele terreno… faz parte do acordo que o meu pai fez com o seu. Um acordo antigo, selado antes mesmo de eu nascer." Ricardo esfregava as têmporas, o suor escorrendo pela testa apesar da brisa fresca. Ele se sentia encurralado, a verdade crua e dolorosa se desdobrando diante dos olhos da mulher que ele mais amava.
"Acordo? Que acordo, Ricardo? O acordo que envolvia a ruína da minha família?", ela exclamou, a voz ganhando um tom agudo de incredulidade. "O terreno era a última esperança do meu pai! E você, com esse seu sorriso sedutor, com essas promessas veladas, sabia disso o tempo todo. Sabia que estava me manipulando!"
"Não é verdade! Eu nunca manipulá-la, Helena! Eu… eu estava tentando encontrar uma forma de… de resolver isso. De honrar tanto o meu pai quanto o seu. Pensei que pudesse achar um caminho onde todos saíssem ganhando. Mas as coisas… elas saíram do controle." As palavras dele eram atropeladas, cada sílaba carregada de desespero. Ele a via se afastar, cada passo dela uma facada em seu peito.
"Sair do controle? Ou você sempre soube exatamente o que estava fazendo, Ricardo? Você sabia que a minha família precisava daquele dinheiro, que o meu pai estava desesperado. E mesmo assim, você comprou o terreno, sabendo que isso significaria a nossa falência. E o pior, fez tudo isso enquanto se aproximava de mim, enquanto me olhava nos olhos e me fazia acreditar que existia algo entre nós." Helena parou, respirando ofegante. O rosto dela estava pálido, mas os olhos ardiam com uma fúria contida.
"Helena, o acordo era para me proteger! O meu pai… ele sabia do problema do seu. Ele queria me dar uma saída para isso. Ele não queria que eu me envolvesse com… com dívidas e disputas. O terreno… era a garantia. A garantia de que eu não seria arrastado para o que quer que seu pai estivesse enfrentando." Ricardo tentava, a cada palavra, reconstruir o quebra-cabeça para ela, esperando que ela pudesse entender a complexidade das motivações de seu pai.
"Garantia? Para você, ou para o seu pai? E o meu pai, Ricardo? O que era ele nesse seu plano? Um peão descartável? Você se lembra dele? Lembra daquele dia na biblioteca, quando ele me contou tudo? Ele estava desolado. Ele confiou em você, Ricardo. Ele te viu como um futuro genro, alguém que poderia ajudar a nossa família a se reerguer. E você o traiu!" As lágrimas, antes contidas, começaram a rolar livremente pelo rosto de Helena, traçando caminhos de dor em sua pele.
"Eu nunca traí o seu pai! E muito menos você!", a voz de Ricardo se elevou, uma pontada de desespero misturada à indignação. Ele se aproximou novamente, mas desta vez, Helena não recuou. Ela o encarou, os olhos marejados fixos nos dele. "O acordo era uma cláusula. Meu pai sabia que o seu pai estava em dificuldades financeiras, ele estava tentando uma forma de ajudar. Ele comprou aquele terreno como um investimento, mas com a intenção de vendê-lo de volta para o seu pai, se ele conseguisse se reerguer. Mas ele colocou uma condição: que eu me afastasse de você até que tudo estivesse resolvido. Ele achava que… que era para o nosso bem."
Helena o observou, o coração batendo descompassado. A história de Ricardo soava plausível, um emaranhado de boas intenções e estratégias familiares. Mas a dor da traição, real e palpável, ainda a sufocava. "Afastar-me de mim? Então você se aproximou de mim sabendo que isso era contra as regras do seu pai? Isso torna tudo ainda pior, Ricardo! Você agiu pelas costas dele também!"
"Eu… eu não consegui. A cada dia que passava com você, era mais difícil me afastar. Eu me apaixonei por você, Helena. E sim, eu sabia que estava desobedecendo o meu pai. Mas eu não me arrependo de ter estado com você. Eu me arrependo de não ter sido honesto desde o início. De ter deixado que o mistério e as suposições criassem essa barreira entre nós." Ricardo estendeu a mão, hesitando no ar, como se temesse o toque dela. "O terreno é nosso, sim. Mas eu juro, Helena, que vou encontrar uma forma de reverter isso. De fazer com que o seu pai recupere o que é dele. Eu prometo."
O olhar de Helena se suavizou um pouco, mas a mágoa ainda estava ali, profunda e dolorosa. As palavras dele eram um bálsamo, mas as cicatrizes da decepção eram recentes. Ela sabia que ele estava falando a verdade, pelo menos parte dela. Mas a confiança, quebrada em tantos pedaços, não seria facilmente restaurada.
"Eu não sei se posso acreditar em você, Ricardo. Você me machucou profundamente. E a minha família… o meu pai está arrasado." A voz dela era um sussurro, carregado de cansaço e desespero.
Ricardo finalmente tocou o rosto dela, com delicadeza, como se tocasse a pétala de uma flor rara. "Eu sei. E eu vou consertar isso. Eu vou te reconquistar, Helena. Vou te provar que o meu amor por você é mais forte do que qualquer acordo, qualquer disputa. E vou ajudar o seu pai a reerguer a família dele. Juntos."
O sol se pôs completamente, mergulhando a varanda na penumbra. A lua, agora alta no céu, lançava uma luz prateada sobre os dois, testemunha silenciosa do furacão de emoções que os consumia. Helena fechou os olhos por um instante, permitindo que o toque de Ricardo a envolvesse. A tempestade ainda estava longe de acabar, mas pela primeira vez naquela noite, uma pequena esperança despontou em meio às ruínas de suas ilusões.