Amor Clandestino II

Capítulo 2 — A Sombra da Dúvida

por Isabela Santos

Capítulo 2 — A Sombra da Dúvida

O dia seguinte amanheceu com um sol tímido, como se o próprio Rio de Janeiro estivesse hesitante em se entregar a um novo dia de calor e de promessas. Helena acordou com uma agitação incomum, uma mistura de apreensão e excitação que a impedia de voltar a dormir. O jantar de gala da noite anterior, em homenagem a um político influente, fora um espetáculo de sorrisos forçados e conversas vazias. Rodrigo, como sempre, estivera em seu melhor, impecável em seu terno escuro, cercado de admiradores e de oportunidades de negócios. Ele a apresentou como sua "esposa deslumbrante", e Helena retribuiu com um sorriso polido, sentindo-se como uma estátua em uma vitrine.

Agora, com o dia livre, a mente de Helena corria sem parar. O encontro com Rafael pairava sobre ela como uma nuvem carregada de chuva e incerteza. Havia um ano que não o via, um ano que evitava até mesmo pensar em seu nome em voz alta. O que eles diriam um ao outro? O que restava da paixão que os consumiu?

Ela se levantou e foi até a janela, observando os banhistas na praia de Copacabana. As ondas quebravam na areia, em um ritmo constante e hipnótico, tão diferente da turbulência que a consumia por dentro. Rodrigo ainda dormia. Ele não era um homem de acordar cedo, a menos que fosse para um compromisso de negócios inadiável. Essa era uma das poucas "vantagens" de seu casamento: a liberdade, a solidão, que ela podia usar para alimentar seus pensamentos proibidos.

Enquanto se arrumava para sair, Helena escolheu um vestido discreto, de linho azul, que a fazia parecer menos o centro das atenções. Não queria chamar atenção, queria apenas se encontrar com Rafael. Um encontro que era, em si, um escândalo em potencial.

Rodrigo a encontrou na sala, tomando seu café da manhã com uma calma imperturbável. Ele a olhou de cima a baixo, seus olhos avaliadores. "Vai sair?"

"Sim, vou dar uma volta. Respirar um pouco de ar."

"Com cuidado", ele disse, sem demonstrar qualquer interesse real em seus planos. "Não quero que se perca pelas ruas cariocas."

Helena sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Não me perco, Rodrigo. Tenho boa orientação."

Ela saiu, sentindo o peso do olhar dele nas suas costas até fechar a porta. O ar fresco da manhã a envolveu, e ela respirou fundo, sentindo um misto de alívio e pavor. A caminho da galeria no Leblon, a cidade pulsava ao seu redor. Carros buzinavam, vendedores ambulantes gritavam seus produtos, e o cheiro de maresia misturava-se com o aroma do pão quente das padarias.

Ao chegar à galeria, Helena sentiu um nó na garganta. O lugar era elegante, com paredes brancas e obras de arte dispostas de forma impecável. A sala privada, como Rafael havia sugerido, era um espaço pequeno e isolado, com poltronas confortáveis e uma iluminação suave. Ela entrou e sentou-se, esperando, o coração batendo forte no peito.

Minutos que pareceram horas se arrastaram. Ela observou cada detalhe do ambiente, tentando distrair a mente, mas era impossível. Cada minuto que passava aumentava sua ansiedade. E se ele não viesse? E se ele tivesse se arrependido? E se o que ele sentisse agora fosse apenas raiva ou mágoa?

Então, a porta se abriu.

Rafael estava ali. Mais velho, com algumas rugas ao redor dos olhos que lhe davam um ar de maturidade, mas ainda com a mesma intensidade em seu olhar verde. Ele vestia uma camisa simples de algodão, que deixava seus braços fortes à mostra. O perfume dele, uma mistura de tinta, terebintina e algo mais, algo que era puramente Rafael, invadiu seus sentidos.

Por um momento, eles apenas se olharam, o tempo parecendo parar. A tensão no ar era palpável, carregada de memórias e de desejos reprimidos.

Rafael deu um passo à frente, um sorriso melancólico brincando em seus lábios. "Helena."

"Rafael."

O silêncio que se seguiu foi preenchido por olhares que diziam mais do que qualquer palavra. Ele se aproximou dela, parando a poucos centímetros de distância.

"Você está linda", ele disse, a voz rouca.

"Você também", Helena respondeu, sentindo o rubor subir em suas bochechas.

Ele estendeu a mão, hesitando por um instante antes de tocar seu rosto. O toque era elétrico, como se uma corrente tivesse percorrido o corpo de ambos. Helena fechou os olhos, absorvendo a sensação. Aquele toque, há tanto tempo desejado, era real.

"Por que você me ligou, Helena?", Rafael perguntou, a mão ainda em seu rosto. A pergunta era direta, e ela sabia que não podia fugir dela.

"Eu… eu não aguentava mais", ela confessou, abrindo os olhos para encontrar os dele. "Eu precisava… eu precisava saber se o que sentimos foi real. Se ainda é."

Rafael apertou suavemente seu rosto. "Foi real, Helena. Foi o furacão mais bonito que já me atingiu. E sim", ele fez uma pausa, seus olhos escurecendo de emoção, "ainda é."

As palavras dele eram um bálsamo para sua alma ferida. Ela se inclinou, buscando mais do toque dele, e ele respondeu, envolvendo-a em um abraço apertado. Helena enterrou o rosto em seu peito, inspirando seu cheiro, sentindo o calor de seu corpo. Era um abraço de reencontro, de saudade, de desejo.

"Eu pensei que nunca mais te veria", ela murmurou contra o tecido da camisa dele.

"Eu também", Rafael respondeu, apertando-a ainda mais. "Você desapareceu da minha vida como um fantasma, Helena. Deixou um rastro de dor e de cores inacabadas."

Eles se separaram lentamente, a intensidade do momento ainda pairando entre eles. Rafael a pegou pelas mãos, puxando-a para sentar-se em uma das poltronas.

"Conte-me tudo", ele disse, seus olhos fixos nos dela. "Como você está? O que tem feito?"

Helena começou a contar, a voz embargada pela emoção. Falou de sua vida com Rodrigo, da rotina, da solidão, da sensação de estar presa em uma gaiola dourada. Falou da exposição que a fez reencontrar sua arte, e de como a pintura dele a tocou profundamente.

Rafael a ouvia atentamente, seu rosto expressando uma mistura de compaixão e raiva. Ele entendia a dor dela, a frustração de viver uma vida que não era a sua.

"Eu não suporto a ideia de você presa assim, Helena", ele disse, a voz tensa. "Você nasceu para ser livre, para amar, para sentir. Não para ser um objeto de decoração na mansão de um homem que não te conhece de verdade."

"Ele me ama", Helena disse, mais para si mesma do que para ele. Era a justificativa que ela usava para tentar anestesiar a dor.

Rafael riu, um riso amargo. "Amor? Ele te possui, Helena. Ele te admira como um quadro raro, mas não te vê. Eu te vi. Eu te vi por inteiro." Ele se inclinou para frente, seu olhar intenso. "E eu ainda vejo."

O clima mudou. A conversa, que começara com a dor da saudade, agora se inclinava para a paixão latente. Rafael tocou seu rosto novamente, acariciando sua bochecha com o polegar. Seus olhos verdes brilhavam com uma mistura de desejo e ternura.

"Você ainda é a mulher que roubou meu fôlego, Helena", ele sussurrou, seus lábios se aproximando dos dela.

Helena sentiu o coração acelerar. A memória do beijo roubado, daquela noite em que o mundo deles explodiu, voltou com toda a força. Ela queria aquilo, queria sentir aquela chama novamente, mas o medo era um obstáculo imenso. O medo das consequências, o medo de destruir tudo, o medo de se machucar ainda mais.

"Rafael, nós não podemos…", ela começou, a voz trêmula.

"Por quê?", ele interrompeu, seus lábios roçando os dela. "Porque o seu marido não te ama de verdade? Porque a sociedade julga? Helena, o que nós tivemos não foi um capricho, foi um raio. E raios não pedem permissão."

Ele a beijou. Um beijo que começou suave, mas rapidamente se aprofundou, carregado de um ano de saudade, de desejo reprimido, de paixão que nunca morreu. Helena se entregou, o corpo respondendo ao toque dele com uma fome que a surpreendeu. As mãos de Rafael deslizaram por suas costas, puxando-a para mais perto, e ela o envolveu em seus braços, sentindo o calor de seu corpo contra o seu.

Naquele momento, no silêncio da sala privada, o mundo exterior deixou de existir. Era apenas Helena e Rafael, revivendo a intensidade de um amor clandestino. Mas, por trás da paixão avassaladora, uma sombra de dúvida pairava. Poderia aquele amor sobreviver às suas circunstâncias? Ou era apenas um breve retorno a um passado que não poderia ser revivido?

Quando o beijo finalmente terminou, eles se afastaram, ofegantes, os olhos cheios de uma emoção avassaladora.

"Eu não posso fazer isso de novo, Rafael", Helena disse, a voz embargada pela luta interna. "Não posso me jogar nesse abismo novamente."

Rafael a olhou com uma mistura de tristeza e compreensão. "Eu sei que é difícil, Helena. Mas você se lembra do que sentimos? Você se lembra do que é estar viva?"

Helena assentiu lentamente, incapaz de negar a verdade em suas palavras. Ela se lembrava. E a lembrança era poderosa.

"Eu preciso ir", ela disse, levantando-se abruptamente. O corpo ainda tremia com a intensidade do encontro.

Rafael também se levantou. "Quando nos veremos de novo?"

Helena hesitou. "Eu não sei. Preciso pensar."

"Pensar?", ele repetiu, a voz tingida de mágoa. "Helena, você me ligou. Você veio. Não me diga que tudo isso foi apenas para me dizer que não podemos."

"Não, não foi só isso", ela disse, olhando-o nos olhos. "Foi… foi para lembrar. E para talvez entender o que eu quero. O que eu preciso." Ela se aproximou e o beijou suavemente na bochecha. "Obrigada, Rafael. Por tudo."

Ela saiu da galeria, deixando Rafael para trás, o coração pesado, a mente em turbilhão. A sombra da dúvida pairava sobre ela, mas, pela primeira vez em muito tempo, a esperança também começava a despontar, por mais perigosa que fosse. Ela havia se reencontrado com a paixão, mas agora precisava decidir se estava disposta a enfrentar a tempestade.

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