Entre Sombras III
Capítulo 5 — O Preço da Revelação
por Camila Costa
Capítulo 5 — O Preço da Revelação
O sol da manhã banhava o quarto de Helena em uma luz dourada, contrastando violentamente com a escuridão que a envolvida. Ao acordar, sentiu o peso de cada decisão tomada na noite anterior, a euforia da paixão misturada a um frio na espinha de apreensão. A presença de Rafael ainda pairava no ar, um eco de toques e beijos que a faziam corar e tremer ao mesmo tempo.
Ela se levantou, o corpo dolorido e a mente confusa. Caminhou até a janela, observando a cidade acordar sob o sol radiante. A beleza de Salvador parecia zombar da turbulência que a assolava. Ela havia se permitido sentir, havia se entregado ao desejo que Rafael despertava nela, mas agora, as consequências começavam a se apresentar.
Rafael ainda dormia, sereno ao seu lado. Helena o observou, o coração apertado. Ele era um homem bom, um homem que a via, que parecia entendê-la em um nível profundo. Mas a complexidade de suas vidas, os segredos que os cercavam, tornavam aquela relação um campo minado.
O celular de Helena vibrou em cima da mesa de cabeceira. Era uma mensagem de Sofia, sua fiel secretária. “Bom dia, Helena. A Srta. Guedes da Empreendimentos Sol Nascente ligou novamente. Ela insiste em falar com você sobre a proposta do terreno em Porto Seguro.”
Helena suspirou. A proposta da Srta. Guedes era agressiva, uma oferta que ela vinha recusando há meses. A mulher era conhecida por sua persistência e por métodos nada ortodoxos.
Enquanto se vestia, os pensamentos de Helena vagavam. Ela precisava ser forte, profissional, e não permitir que a vida pessoal interferisse em seus negócios. Mas a presença de Rafael, a intensidade da paixão que compartilharam, tornava tudo mais difícil.
Rafael acordou com o movimento dela. Seus olhos escuros encontraram os dela, e um sorriso tímido surgiu em seus lábios. “Bom dia”, ele murmurou, a voz rouca de sono.
“Bom dia”, Helena respondeu, tentando manter a compostura. “Precisamos conversar, Rafael.”
Ele assentiu, sentando-se na cama. A seriedade em seu olhar a fez sentir um nó na garganta. “Eu sei. Ontem à noite… foi intenso. E eu não quero que isso complique nossas vidas profissionais.”
“Eu também não quero”, Rafael disse, a voz firme. “Mas o que aconteceu entre nós… não pode ser simplesmente ignorado. Você sentiu, Helena. Eu senti. E foi real.”
“Real, mas perigoso”, Helena retrucou. “Você sabe que a Srta. Guedes está de olho naquele terreno em Porto Seguro. Se ela descobrir que estamos juntos… ela usará isso contra nós. Ela fará qualquer coisa para me prejudicar.”
Rafael franziu a testa. “Você acha que ela é tão… implacável assim?”
“Eu a conheço, Rafael. Ela não tem escrúpulos. Se ela vir uma oportunidade, ela a agarrará com unhas e dentes. E o meu relacionamento com você, meu braço direito, seria um alvo fácil.”
Rafael a observou por um momento, a intensidade em seu olhar um misto de preocupação e determinação. “Então, precisamos ser cuidadosos. E precisamos descobrir o que a Srta. Guedes realmente quer. Talvez haja algo mais profundo por trás dessa oferta em Porto Seguro.”
“Não sei, Rafael. Ela é uma caçadora de oportunidades. E eu me tornei um alvo valioso para ela.” Helena sentiu um arrepio na espinha. A ideia de ser exposta, de ter sua vida pessoal usada como arma contra ela, a apavorava.
Naquele momento, o celular de Rafael tocou. Ele atendeu, a expressão mudando de preocupação para apreensão. “Alô?… Sim, sou eu… O quê?… Quando?… Entendo. Mantenha tudo sob controle. Eu já estou a caminho.”
Ele desligou o telefone, o rosto pálido. “O que houve?”, Helena perguntou, o coração disparado.
“É a Srta. Guedes. Ela foi vista entrando no escritório de um advogado especialista em litígios imobiliários. E não um qualquer. Um que você conhece muito bem.”
Helena sentiu o chão desaparecer sob seus pés. “Quem?”, ela sussurrou.
Rafael a encarou, a gravidade em seus olhos confirmando seus piores temores. “O Dr. Almeida. O mesmo advogado que representou a família de Lucas em todos os processos após a… a partida dele.”
Um choque elétrico percorreu o corpo de Helena. Dr. Almeida. O nome ecoava em sua mente como um presságio. Ele era o guardião das memórias de Lucas, o defensor de seus interesses póstumos. A ideia de que a Srta. Guedes estivesse se aliando a ele era, no mínimo, perturbadora.
“Por que ela faria isso?”, Helena perguntou, a voz embargada. “O que ela quer?”
“Eu não sei, Helena. Mas não é bom sinal. Se ela está buscando aconselhamento jurídico de alguém tão ligado a você, a algo que você valoriza tanto… ela está planejando algo grande.”
Helena se sentou na cama, sentindo-se impotente. A paixão da noite anterior parecia agora um luxo que ela não podia se permitir. O passado, com suas sombras e segredos, havia retornado com força total, ameaçando engolir seu presente e seu futuro.
“Precisamos ser cautelosos, Rafael”, ela repetiu, as palavras soando vazias diante da ameaça iminente. “Muito cautelosos.”
Rafael a olhou, seus olhos transmitindo uma mistura de preocupação e determinação. “Eu não vou deixar nada acontecer com você, Helena. Não importa o que a Srta. Guedes planeje.”
Ele estendeu a mão para ela, e desta vez, Helena não hesitou em segurá-la. A mão dele era firme e reconfortante, um porto seguro em meio à tempestade que se formava. A revelação sobre a Srta. Guedes e o Dr. Almeida havia trazido uma nova urgência à situação. O preço da revelação de seus sentimentos, da sua vulnerabilidade, poderia ser alto. E Helena sabia, com uma certeza aterradora, que a luta estava apenas começando. A sombra do passado, alimentada por novas alianças inesperadas, ameaçava engolir a luz que ela tanto lutava para manter acesa.