Entre Sombras III
Entre Sombras III
por Camila Costa
Entre Sombras III
Capítulo 6 — O Beijo Roubado Sob o Luar Carmesim
A noite pairava sobre o palácio como um véu de veludo escuro, pontilhado pelas estrelas que pareciam observar, cúmplices mudas, a tormenta que se abatia sobre a alma de Isabella. O ar rarefeito das alturas, carregado pelo perfume adocicado das rosas noturnas, parecia sufocá-la. As palavras de Miguel, proferidas em um tom que misturava desespero e uma paixão avassaladora, ecoavam em sua mente como um sino fúnebre. Ele a amava. Amava-a com a intensidade que ela sempre temera, com a profundidade que a aterrorizava.
Isabella apertou as mãos contra o peito, sentindo o coração martelar descompassado contra as costelas. A imagem do rosto de Miguel, tão próximo, as linhas tensas da sua mandíbula, o brilho febril em seus olhos, tudo se gravava em sua memória, uma pintura a óleo que se recusava a desvanecer. Cada palavra dele era um golpe, cada olhar um convite para o abismo. Ele sabia. Ele sabia o peso das correntes que a prendiam, as expectativas que a esmagavam, o futuro que lhe fora imposto. E, ainda assim, ousara quebrar o silêncio com um amor que ela considerava um sacrilégio.
Voltou para seus aposentados, a seda do seu vestido sussurrando contra o mármore polido do corredor. A solidão do quarto, antes um refúgio, agora parecia um deserto gelado. As tapeçarias que adornavam as paredes, outrora símbolos de poder e glória, agora pareciam retratar apenas a tragédia que se desenrolava. Isabella sentou-se à beira da cama, o corpo tremendo, não de frio, mas de uma febre interna que a consumia. As lágrimas, que ela tentara reprimir com todas as suas forças, começaram a escorrer pelo seu rosto, salgando a pele em um lamento silencioso.
O que ela faria agora? A descoberta da verdade sobre a herança, a revelação do pacto obscuro que selara o destino de sua família, tudo a deixara desorientada. E agora, Miguel. O homem que representava tudo o que ela deveria temer, o símbolo da ameaça que pairava sobre o reino, estava ali, em sua vida, acendendo em seu peito um fogo que ela lutava desesperadamente para apagar. Era uma traição a tudo o que acreditava, a tudo o que jurara proteger.
No entanto, havia algo na paixão de Miguel que a tocava, algo que a fazia questionar tudo. Era a força com que ele a defendia, a maneira como seus olhos a percorriam, como se visse a alma dela por trás da máscara de princesa. Era a vulnerabilidade que ele mostrava, a dor de quem carrega um fardo pesado e que, pela primeira vez, encontrou em alguém um reflexo de sua própria angústia.
Lembrou-se dos momentos em que eles se cruzaram, olhares furtivos em salões lotados, conversas breves e carregadas de tensão, a atração inegável que parecia desafiar a lógica e o bom senso. Miguel era um enigma, um homem de ação, de ambição, mas também de um coração que parecia pulsar com uma intensidade rara. Ele era o inimigo, sim, mas era também o homem que a fizera sentir viva de uma forma que ninguém mais conseguira.
O lamento das corujas quebrava o silêncio da noite. Isabella levantou-se e caminhou até a janela, observando o céu imenso e estrelado. O luar, estranhamente rosado naquela noite, lançava um brilho etéreo sobre a paisagem, pintando as torres do palácio com tons de ametista e rubi. Era uma beleza hipnotizante, mas que também trazia uma melancolia profunda.
De repente, ouviu um leve toque na porta. Seu coração deu um salto. Quem seria a essa hora? Com as mãos ainda úmidas de lágrimas, ela se aproximou e abriu a porta com cautela.
Era Miguel.
Ele estava ali, parado no corredor escuro, a silhueta imponente contra a pouca luz que escapava do seu quarto. Seus olhos encontraram os dela, e Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo diferente nele, uma suavidade misturada à sua habitual intensidade, como se a conversa que tiveram horas antes tivesse deixado marcas profundas em ambos.
"Não consegui dormir", disse ele, a voz rouca, quase um sussurro. "Precisei vir."
Isabella não disse nada. Apenas o observou, o corpo tenso, a mente em turbilhão. A razão gritava para que ela o afastasse, para que fechasse a porta e se escondesse atrás de muros de proteção. Mas seu coração, traidor, sussurrava outra coisa, um desejo perigoso, uma curiosidade insaciável.
Miguel deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O perfume amadeirado dele a envolveu, uma fragrância que ela conhecia, que a perturbava, que a atraía. Ele estendeu a mão, hesitando por um instante antes de tocar seu rosto. Seus dedos eram quentes contra a pele fria dela.
"Isabella", ele murmurou, o nome dela soando como uma prece em seus lábios. "Você sabe o que está acontecendo entre nós, não sabe? Não podemos mais fingir."
O toque dele a desarmou. A resistência que ela construíra durante anos, a armadura de frieza e decoro que a protegia, começou a ruir. Ela ergueu os olhos para os dele, perdendo-se na profundidade de sua escuridão.
"Miguel, isso é impossível", ela respondeu, a voz trêmula, mas firme. "Você sabe disso. Somos inimigos."
"Inimigos?" Ele riu, um som baixo e dolorido. "Você realmente acredita nisso? Ou você apenas usa essa desculpa para não encarar o que sente?"
Ele se aproximou mais, o espaço entre eles desaparecendo. Isabella podia sentir o calor do corpo dele, ouvir a respiração acelerada. O luar rosado banhava seus rostos, criando uma aura mística ao redor deles.
"Eu a vejo, Isabella", ele continuou, a voz carregada de emoção. "Vejo a mulher por trás da coroa, a força em sua alma, a tempestade em seus olhos. E me apaixonei por essa mulher, não pela princesa."
As palavras dele eram uma armadilha, um convite para o perigo. Mas a verdade que elas carregavam era inegável. Isabella sempre se sentira sozinha em seu papel, presa em um mundo de aparências e deveres. Miguel, de alguma forma, conseguia enxergar além disso, alcançando a essência dela.
Ele levou a mão livre ao seu rosto, o polegar traçando a curva de sua bochecha. Isabella fechou os olhos por um instante, rendendo-se ao toque. Quando os abriu novamente, encontrou os olhos dele fixos nos seus, cheios de uma paixão que a fez esquecer o mundo ao redor.
"Eu não deveria", ela sussurrou, a voz embargada.
"Mas você quer", Miguel respondeu, a convicção em sua voz.
E então, ele se inclinou. Isabella não recuou. O mundo ao redor deles desapareceu. Seus lábios se encontraram em um beijo que era ao mesmo tempo terno e voraz. Era um beijo roubado, um beijo proibido, um beijo que selava o destino de dois corações que ousaram desafiar as sombras. O sabor dele era uma mistura de perigo e desejo, de saudade e esperança. Era um beijo que quebrava todas as regras, que reescrevia todas as leis.
A paixão que irrompeu entre eles era um vulcão adormecido que finalmente despertara. As mãos de Miguel encontraram a cintura dela, puxando-a para mais perto, intensificando o beijo. Isabella envolveu os braços em volta do pescoço dele, respondendo com a mesma urgência, a mesma necessidade. Era um reencontro de almas, uma entrega total à emoção que os consumia.
O luar rosado continuava a banhar o palácio, testemunha silenciosa de um amor que nascia nas sombras, um amor que prometia desafiar todas as tempestades. Naquele instante, Isabella não era mais a princesa destinada a um futuro pré-determinado. Era apenas uma mulher, rendida à paixão avassaladora de um homem que a via de verdade. E, pela primeira vez em muito tempo, ela se sentiu verdadeiramente viva.