Amor que Transcende II

Capítulo 17 — O Encontro na Mata e o Legado de Uma Promessa

por Isabela Santos

Capítulo 17 — O Encontro na Mata e o Legado de Uma Promessa

O ar da mata fechada, úmido e perfumado com o cheiro terroso da terra molhada, parecia abraçar Helena como um manto familiar. A chuva fina da manhã havia cessado, deixando para trás um rastro de orvalho brilhante sobre as folhas e um silêncio reverente quebrado apenas pelo canto distante de um sabiá. A decisão de encontrar Ademar ali, naquele lugar tão carregado de memórias, havia sido impulsiva, mas necessária. Ela precisava confrontar o homem que ela acreditava conhecer, mas que se revelara um estranho em sua própria pele.

Miguel a acompanhara até a entrada da trilha, o olhar preocupado. "Tem certeza que quer ir sozinha, Helena? Ele pode ser… imprevisível."

Ela sorriu, um sorriso frágil, mas decidido. "Eu preciso fazer isso, Miguel. Por mim. Por nós. E, de certa forma, por ele também. Preciso entender a profundidade do que ele fez."

Ele assentiu, a compreensão em seus olhos. "Eu estarei por perto, se precisar. Apenas… tenha cuidado."

Helena adentrou a mata, a luz filtrada pelas copas das árvores criando um jogo de sombras dançantes no chão. Cada passo a levava mais fundo em um passado que ela tentara esquecer, mas que, agora, se apresentava com uma clareza dolorosa. A clareira onde ela e Ademar costumavam brincar quando crianças, o riacho onde ele a ensinara a pescar, a grande figueira sob a qual compartilhavam segredos e promessas – tudo estava ali, intacto, como se o tempo tivesse parado apenas para aquele recanto da fazenda.

Ela o encontrou sentado em uma pedra lisa, perto do riacho. Ademar parecia mais velho, mais abatido do que ela se lembrava. Seus ombros estavam curvados sob um peso invisível, e seus olhos, que antes brilhavam com travessura e ambição, agora transpareciam uma profunda tristeza. Ele ergueu a cabeça ao ouvi-la se aproximar, um misto de surpresa e resignação no rosto.

"Helena", ele disse, a voz rouca, quase inaudível.

Ela parou a alguns metros de distância, o coração batendo forte contra as costelas. "Ademar. Você pediu para me encontrar."

Ele assentiu, sem desviar o olhar da água que corria serena. "Eu precisava. Precisava… me desculpar. E explicar."

"Explicar o quê, Ademar? Explicar como você roubou o futuro de tanta gente? Como você traiu a confiança de todos, inclusive a minha?" A voz de Helena, apesar de firme, carregava a dor de anos de inocência quebrada.

Ademar suspirou, um som que parecia carregar todo o peso de seus erros. "Eu sei que as palavras não bastam. Mas eu estava… cego, Helena. Cego pela ambição, pela necessidade de provar meu valor. Meu pai… ele sempre me cobrou tanto. E eu vi ali uma oportunidade de ter tudo o que ele achava que eu merecia." Ele olhou para ela, os olhos marejados. "Eu não pensei em ninguém. Nem em você."

O remorso em sua voz era palpável, mas não aliviava a ferida aberta em Helena. "Eu confiei em você, Ademar. Acreditamos em você. E você nos destruiu."

"Eu sei. E a culpa me corrói todos os dias. O que eu fiz foi imperdoável." Ele se levantou, aproximando-se um pouco mais dela, mas mantendo uma distância respeitosa. "Mas há algo que você precisa saber. Algo que meu pai guardou em segredo por todos esses anos."

Helena o observou com desconfiança. "O quê?"

"O terreno da reserva… o que ele comprou de forma tão desonesta… ele não fez isso apenas por dinheiro. Ele fez isso por você."

Helena franziu a testa, confusa. "Por mim? Como assim?"

"Meu pai, apesar de toda a sua dureza e ganância, tinha um ponto fraco. E esse ponto fraco era você, Helena. Ele viu em você a pureza que faltava em seu próprio coração. Ele acreditava que, um dia, você seria a guardiã daquelas terras, a protetora da natureza que ele, em sua cegueira, estava destruindo." Ademar fez uma pausa, reunindo coragem. "Ele me fez jurar, no leito de morte, que eu jamais permitiria que aquela terra fosse usada para fins destrutivos. Ele me disse que a única pessoa que ele confiaria para protegê-la era você. Ele me deixou… um legado de promessa, voltada para você."

Helena ficou em silêncio, assimilando as palavras. A revelação era inesperada, chocante. O homem que ela vira como um vilão, um destruidor, carregava em si as sementes de uma intenção diferente, plantadas por seu próprio pai, e direcionadas a ela.

"Mas por que ele não falou nada? Por que usou de meios tão… errados?"

"Ele era um homem de segredos, Helena. E de orgulho. Ele achava que, ao me dar a chance de controlar a situação, eu aprenderia o valor do poder e da responsabilidade. Ele estava errado. Eu falhei com a promessa dele, e falhei com você." Ademar abaixou a cabeça. "Mas a terra… ela ainda está lá. E a minha promessa, quebrada, agora recai sobre mim com mais força. Eu não posso reverter o que fiz, mas posso… tentar consertar."

Um nó se formou na garganta de Helena. A complexidade da situação a oprimia. A ganância de Ademar, a ambição de seu pai, a promessa que ele lhe deixara – tudo se entrelaçava em um drama familiar que ecoava em suas próprias dores.

"O que você quer dizer com 'tentar consertar'?" ela perguntou, a voz baixa.

"Eu sei que você e Miguel estão lutando para reaver aquela terra, para protegê-la. Eu… eu posso ajudar." Ademar a olhou diretamente nos olhos, e pela primeira vez, Helena viu um lampejo do jovem que ela conheceu, um vislumbre de honra escondida. "Eu tenho os documentos que meu pai escondeu. Os originais, que provam a irregularidade da compra. Eu os guardei. Eu os entregarei a vocês. É o mínimo que posso fazer."

A proposta era audaciosa, inesperada. Um ato de redenção, talvez. Helena sentiu o peso de suas opções. A raiva contra Ademar ainda existia, mas a promessa de seu pai, a possibilidade de reaver a terra, de proteger o legado que ela mesma amava… isso despertou uma nova força nela.

Ela olhou para Miguel, que surgira discretamente na borda da clareira, observando a cena com atenção. Seus olhos se encontraram, e em um olhar, eles compartilharam a mesma surpresa e a mesma cautela.

Helena voltou seu olhar para Ademar. "Por que agora, Ademar? Por que depois de tudo?"

"Porque eu não suporto mais carregar esse fardo em silêncio. Porque eu vi em você a força e a integridade que meu pai admirava. E porque… eu não quero mais ser o homem que destruiu sonhos." Ademar estendeu a mão, não para ela, mas para o ar, como se estivesse alcançando algo que já não existia. "A terra é sua, Helena. O legado é seu. Eu só… fui um guardião inútil."

O som de um pássaro exótico ecoou na mata, um chamado para a vida, para a continuidade. Helena sentiu que, naquele momento, naquele lugar sagrado, algo estava mudando. A tempestade em seu peito não havia cessado completamente, mas um raio de luz começava a romper as nuvens. A promessa do pai de Ademar, uma promessa guardada por anos, agora estava em suas mãos. E com ela, a chance de reescrever o futuro daquela terra, e, talvez, de reescrever a si mesma.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%