Amor que Transcende III

Amor que Transcende III

por Camila Costa

Amor que Transcende III

Capítulo 1 — O Sussurro do Passado na Brisa do Atlântico

A brisa do Atlântico, salgada e teimosa, açoiteava os cabelos escuros de Isabella, espalhando-os como asas de corvo sobre seus ombros tensos. O sol de final de tarde pintava o céu de tons alaranjados e púrpuras, um espetáculo grandioso que, em outras épocas, teria roubado seu fôlego e despertado nela uma profunda melancolia. Mas hoje, o espetáculo lá fora parecia ecoar apenas a tempestade que se formava dentro de seu peito. A mansão dos Alencar, imponente e silenciosa, erguia-se atrás dela, um monumento de mármore branco e janelas escuras, guardando segredos que ela tentava, desesperadamente, esquecer.

"Isabella!" A voz de Dona Cecília, embargada pela preocupação, rompeu o silêncio pesado. Sua mãe, com seus cabelos prateados cuidadosamente arrumados e um xale de seda sobre os ombros, aproximou-se dela com passos lentos, como se temesse assustar uma ave exótica. O olhar de Cecília era uma mistura de amor incondicional e um medo que Isabella conhecia muito bem, um medo que se instalara em suas vidas há cinco anos, no dia fatídico que mudara tudo.

"Mãe", respondeu Isabella, virando-se para ela, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos. O mar em seus olhos, antes vibrante e cheio de vida, agora carregava a névoa densa da saudade e da dor.

"Você deveria entrar, minha filha. O vento está ficando frio. E amanhã… amanhã será um dia difícil."

A menção de "amanhã" fez um arrepio percorrer a espinha de Isabella. Amanhã. O dia em que a sombra de um fantasma voltaria a pairar sobre a mansão, sobre suas vidas. O dia em que o nome dele, esquecido por tanto tempo, seria evocado mais uma vez.

"Eu sei, mãe", murmurou Isabella, voltando seu olhar para o horizonte, para onde as ondas beijavam a areia com uma ternura que ela sentia ter perdido para sempre. "Mas o mar… o mar sempre me acalma um pouco. Parece que ele entende a minha dor."

Cecília colocou uma mão sobre o ombro de Isabella, um toque suave que, apesar de tudo, trazia um conforto ancestral. "O mar guardou muitas memórias para nós, Isabella. Algumas boas, outras… nem tanto. Mas você precisa ser forte. Pelo seu pai. E por você."

"Eu tento, mãe. Juro que tento." As lágrimas, que ela vinha segurando com unhas e dentes, finalmente se permitiram escapar, traçando caminhos quentes em seu rosto. "Mas às vezes, é como tentar segurar água com as mãos. Ela sempre escorrega, levando um pedaço de mim a cada gota."

O silêncio voltou a reinar, pontuado apenas pelo som das ondas e pelos gritos distantes das gaivotas. Era um silêncio carregado, um silêncio que falava de amores perdidos, de promessas quebradas e de um futuro incerto.

Dentro da mansão, o aroma de jasmim e cera de abelha pairava no ar, um perfume antigo que Isabella associava à infância, à segurança. Mas agora, aquele mesmo aroma parecia sufocá-la, lembrando-a de tudo o que ela havia deixado para trás. O salão principal, ricamente decorado com móveis de época e retratos de antepassados de semblante severo, parecia ainda mais sombrio com as poucas luzes acesas. Um piano de cauda negro, coberto por um lençol de algodão, era um espectro mudo, um lembrete de noites de música e risadas que pareciam pertencer a outra vida.

"Tome um chá, minha filha", disse Cecília, servindo uma xícara de camomila fumegante para Isabella. A caneca, com delicadas flores pintadas, era um presente de seu avô, um artesão talentoso que falecera anos antes.

Isabella pegou a caneca, sentindo o calor reconfortante em suas mãos. "Obrigada, mãe." Ela se sentou em uma poltrona de veludo vermelho, sentindo o peso de anos em seus ombros.

"E então?", Cecília a incentivou, sentando-se em uma poltrona oposta. "Você já pensou no que fará em relação à… à proposta?"

A proposta. A palavra ecoou na mente de Isabella como um trovão distante. A proposta que poderia mudar o curso de suas vidas, mas que também a forçaria a confrontar seu passado de uma maneira que ela temia mais do que tudo.

"Eu… não sei, mãe." Isabella olhou para as próprias mãos, a pele pálida e marcada por um leve tremor. "É uma oportunidade incrível para a empresa. Para nós. Mas…"

"Mas envolve voltar para lá", Cecília completou, a voz baixa. "Para a cidade onde tudo aconteceu. Onde ele…"

"Onde ele está", Isabella sussurrou, sentindo um nó na garganta. As memórias eram como espinhos, cada uma delas perfurando sua alma. Ela se lembrava dos dias dourados, dos verões passados sob o sol escaldante do Rio de Janeiro, das risadas contagiantes, do toque suave de mãos que ela jurou nunca mais sentir. E depois, a noite. A noite em que tudo desmoronou. A noite em que o amor se transformou em desespero, em perda.

"Ele se tornou um homem de negócios respeitado, Isabella. Com um império. A empresa dele é a única que pode nos ajudar a sair dessa situação. Seu pai… ele está tão desesperado."

O desespero de seu pai era um fardo que Isabella carregava com um peso esmagador. A empresa da família, outrora um gigante no mercado, enfrentava uma crise financeira sem precedentes. E a proposta da empresa dele, da empresa de Rafael, era a única tábua de salvação que lhes restava.

"Eu sei, mãe. Eu sei o quanto o papai precisa disso. Mas a ideia de encontrá-lo… de estar perto dele…" Isabella fechou os olhos, tentando afastar a imagem do rosto de Rafael. O sorriso travesso, os olhos azuis como o mar em dia de sol, o corpo que ela conhecia tão bem… Tinha sido ele. O amor de sua vida. E o seu maior pesadelo.

"Cinco anos, Isabella. Cinco longos anos em que você tentou esquecê-lo. Mas o destino, minha filha, tem um jeito muito particular de nos pregar peças. Talvez essa seja a sua chance de fechar esse ciclo. De encontrar a paz."

Paz. A palavra parecia uma utopia distante. Isabella não sabia se conseguiria encontrar paz ao lado do homem que a fez sentir o mais puro amor e, logo depois, o mais profundo abandono.

"Eu não sei se posso, mãe. Não sei se tenho a força necessária para encará-lo. Para ver nos olhos dele o reflexo de tudo o que perdemos."

Cecília pegou a mão de Isabella, apertando-a com firmeza. "Você é mais forte do que pensa, minha filha. Você carrega o sangue dos Alencar. E o amor… o amor verdadeiro, ele transcende o tempo, a distância, até mesmo a dor. Talvez você precise encará-lo para se libertar. Para finalmente curar essa ferida que insiste em não fechar."

As palavras de sua mãe ecoavam em sua mente, um misto de esperança e temor. Voltar para o Rio. Voltar para a cidade onde ela e Rafael haviam sido felizes, antes que a tragédia os separasse. Voltar para o lugar onde a história de amor deles começou e, de uma forma tão cruel, terminou.

Ela olhou para o mar mais uma vez. As ondas continuavam a dançar na areia, indiferentes à sua angústia. O sol terminava seu espetáculo, mergulhando no oceano, levando consigo a luz do dia, mas deixando para trás um rastro de promessas e incertezas. Isabella sabia que, fosse qual fosse sua decisão, sua vida estava prestes a mudar novamente. E dessa vez, o passado parecia ter a força de um tsunami, ameaçando engoli-la em suas águas traiçoeiras.

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