Amor que Transcende III

Amor que Transcende III

por Camila Costa

Amor que Transcende III

Autor: Camila Costa

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Capítulo 11 — O Silêncio Que Grite

A madrugada em Ipanema raramente era silenciosa. O som das ondas, o murmúrio distante do Leblon, o eco de uma festa que teimava em não acabar; tudo compunha a sinfonia peculiar da Zona Sul. Mas naquela noite, um silêncio pesado pairava sobre a cobertura luxuosa de Helena. Era um silêncio que gritava, preenchido pelo eco dos gritos de Miguel e pela imagem indelével do rosto devastado de Marina. A verdade, enfim escancarada, deixara um rastro de destruição tão implacável quanto a ressaca que prometia o sol da manhã.

Helena, encolhida no sofá de couro branco, com um roupão de seda desbotado que não condizia com a ostentação do seu lar, encarava o vazio. Seus olhos, antes faíscas de inteligência e determinação, agora eram poças turvas de dor. O copo de uísque, esquecido em sua mão, trepidava levemente, espelhando a convulsão interna que a consumia. Havia um nó em sua garganta, tão apertado que impedia o ar de fluir. Cada inspiração era um esforço, cada expiração um lamento mudo.

Ela revivia os últimos momentos no apartamento de Miguel. A cena se repetia em sua mente, em loop cruel: a revelação sobre a verdadeira paternidade de Sofia, o desespero de Miguel ao se sentir traído por todos, a raiva que transformara o amor em algo grotesco. E Marina... ah, Marina. Helena nunca vira a filha tão fragilizada. A garota, que sempre ostentara uma força interior admirável, parecia ter se desintegrado diante daquela torrente de mentiras. O olhar perdido, o corpo trêmulo, os soluços contidos que rasgavam o peito. Helena queria ter abraçado, consolado, protegido. Mas estava paralisada, vítima da sua própria armadilha, refém do seu passado.

"Não é possível", sussurrou Helena, a voz rouca e áspera, como se não a usasse há dias. "Miguel... como ele pôde? Como eu pude?"

A culpa a dilacerava. Havia orquestrado tudo aquilo. O segredo sobre a paternidade de Sofia, a manipulação de datas, a omissão. Tudo em nome de um amor que, agora, se revelava uma construção frágil, minada por suas próprias mãos. Ela pensava em Carlos, o fantasma do seu passado, o homem que ela amara com a ferocidade de um furacão e que a deixara com a cicatriz de uma promessa quebrada. Era por ele que ela havia criado aquela teia de mentiras? Para protegê-lo? Para manter a imagem de uma família perfeita? A ironia era cruel. Agora, a perfeição se desmoronara, e ela ficara sozinha, no epicentro do seu próprio desastre.

O celular vibrou em cima da mesinha de centro, tirando-a de seu torpor. O nome de Marina brilhou na tela. Helena hesitou. O que diria? Como pediria perdão por algo tão devastador? Cada palavra parecia insignificante diante da magnitude da dor que causara. Respirou fundo, o peito ainda apertado, e atendeu.

"Filha?" A voz saiu embargada.

Do outro lado da linha, o choro era incontrolável. Não eram soluços abafados, mas um lamento profundo, que perfurava a alma de Helena.

"Mãe... eu não sei o que fazer", a voz de Marina era um fio tênue, quase inaudível. "Eu... eu não aguento mais."

"Onde você está, meu amor? Me diga onde você está, por favor." O desespero de Helena era palpável.

"Eu... eu estou no apartamento do Miguel. Ele saiu. Disse que precisava pensar. Eu também preciso, mãe. Eu preciso pensar se essa vida, essa família... se tudo isso é real."

Aquelas palavras atingiram Helena como um soco no estômago. Real? O que era real para Marina agora? A imagem que ela sempre acreditou ser a sua história, a sua identidade, desmoronada em um instante.

"Marina, por favor, não diga isso", implorou Helena. "Eu... eu posso explicar. Eu errei, meu amor. Eu cometi erros terríveis. Mas eu te amo mais do que tudo nesse mundo. Você é o meu tudo."

"É amor que machuca, mãe? É amor que destrói?", a voz de Marina era carregada de amargura. "Eu sempre achei que o amor fosse algo para nos unir, não para nos separar. Eu vi o Miguel... eu vi a dor dele. E eu me senti como uma fraude, uma mentira ambulante."

Helena fechou os olhos com força, a imagem do rosto de Miguel, uma mistura de raiva e mágoa profunda, gravada em sua retina. Ele, o homem que um dia amou com paixão, agora a odiava. E Marina, sua filha, a quem ela sempre quis proteger, agora a via como a vilã.

"Filha, eu sei que você está magoada. E você tem todo o direito de estar. Mas eu fiz tudo aquilo por medo. Medo de te perder, medo de perder o que tínhamos. Eu sou imperfeita, Marina. Eu cometi erros."

"Erros que nos custaram tudo, mãe", a voz de Marina estava mais calma, mas não menos carregada de dor. "Eu preciso de um tempo. Preciso de um tempo para entender quem eu sou, quem essas pessoas são. Eu não sei se consigo olhar para o Miguel da mesma forma. Eu não sei se consigo olhar para mim mesma da mesma forma."

O choro de Marina retornou, mais contido agora, como se estivesse tentando se controlar. Helena sentia o desespero crescer dentro de si. Ela não podia perder a filha. Não podia.

"Não, Marina, não se isole. Por favor, não faça isso. Eu vou aí agora. Podemos conversar. Juntas, vamos superar isso."

"Não sei, mãe. Talvez seja melhor assim. Por enquanto." Um silêncio se seguiu, preenchido apenas pelo som distante das ondas. "Preciso desligar. Por favor, não me procure. Preciso de espaço."

E com um clique seco, a ligação caiu. Helena ficou com o telefone na mão, o silêncio da cobertura voltando a dominá-la, agora mais opressor do que nunca. O silêncio de Marina era um grito de desespero, uma porta que se fechava lentamente, deixando-a do lado de fora, sozinha com seus fantasmas e a incerteza de um futuro desolador. Ela se levantou, cambaleando, e foi até a varanda, o vento frio da madrugada chicoteando seu rosto. A cidade cintilava lá embaixo, indiferente à sua dor. E Helena, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se completamente à deriva. A sombra da Mansão Azul parecia ter se estendido, engolindo não apenas a verdade, mas também a esperança de um recomeço. O peso das suas ações a esmagava, e a perspectiva de reconquistar o amor de sua filha e de Miguel parecia um sonho distante, quase inatingível.

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