Amor que Transcende III
Capítulo 23 — O Eco do Medo nas Ruas da Cidade
por Camila Costa
Capítulo 23 — O Eco do Medo nas Ruas da Cidade
O rugido da cidade parecia abafado pela tempestade que se formava dentro de Helena. Os dias que se seguiram à revelação sobre a paternidade de Sofia foram um turbilhão de emoções, de conversas difíceis e de decisões dolorosas. Francisco, apesar do choque inicial, demonstrava uma força interior admirável. Ele se apegou à ideia de que Sofia era sua filha em todos os sentidos que importavam, e que a ligação biológica não mudaria o amor que os unia. No entanto, a sombra de Eduardo pairava, uma ameaça latente que os mantinha em constante alerta.
Helena sentia o peso da responsabilidade aumentar a cada dia. A necessidade de proteger Sofia a impulsionava, mas o medo era um companheiro constante. Ela sabia que Eduardo era um homem perigoso, com recursos e influência. Se ele descobrisse que tinha uma filha, ele não hesitaria em usá-la para atingir Helena ou para satisfazer seus próprios caprichos.
Pedro, com sua calma habitual, era seu porto seguro. Ele a ouvia pacientemente, a aconselhava com sabedoria e a lembrava constantemente de sua força e de seu amor por Sofia. Mas até mesmo ele demonstrava uma preocupação velada. A presença de Eduardo no cenário era algo que ele, mais do que ninguém, sabia ser perigosa.
"Precisamos ser cuidadosos, Helena", disse Pedro, enquanto caminhavam por um parque tranquilo, Sofia correndo livremente na grama, alheia às preocupações dos adultos. "Eduardo é imprevisível. Se ele souber da Sofia, pode tentar se aproximar. E nós não podemos permitir isso."
"Eu sei", Helena respondeu, o olhar fixo na filha, um sorriso melancólico nos lábios. "Eu daria a minha vida para protegê-la. Mas como podemos impedi-lo, Pedro? Se ele descobrir, ele virá atrás de nós."
"Nós não vamos deixar. Vamos manter um perfil baixo. Evitar qualquer contato desnecessário. E se ele tentar algo, nós o confrontaremos. Juntos." Pedro a abraçou, sentindo o tremor em seus ombros. "Você tem a mim, Helena. E Francisco está conosco. Nós somos uma família, e vamos lutar por ela."
A tensão aumentou quando um incidente inesperado agitou a rotina da família. Helena recebeu uma ligação em seu celular, um número desconhecido. A voz do outro lado era fria e calculista.
"Helena", disse a voz, um tom de escárnio em cada sílaba. Era Eduardo.
O sangue de Helena gelou. Seu coração disparou. Ela não sabia como ele havia conseguido seu número, mas o pânico a invadiu. "Quem é você? Como conseguiu meu número?"
"Um amigo me disse que você mudou de número. E que você anda meio sumida. Pensei em dar um 'oi'. Faz tempo que não nos vemos, não é?" A voz dele continha um tom sedutor e ameaçador ao mesmo tempo, um veneno disfarçado em melodia.
"Eu não tenho nada a falar com você, Eduardo. Desligue." Helena tentou manter a voz firme, mas um fio de medo a traía.
"Ah, mas você tem. E muito. Estou curioso para saber como anda sua vida. Especialmente depois de tudo o que aconteceu. Sabe, às vezes, o passado volta para nos assombrar."
A insinuação era clara. Ele sabia. Ou pelo menos suspeitava de algo. O pânico se intensificou.
"Você não sabe de nada", Helena retrucou, a voz mais firme.
"Oh, mas eu sinto. Sinto que algo mudou. E eu gosto de estar por dentro das coisas. Especialmente quando se trata de pessoas que um dia fizeram parte da minha vida." Houve uma pausa, e Helena prendeu a respiração, antecipando o golpe. "Ou que deveriam ter feito."
A provocação era direta, cruel. Helena sentiu um nó na garganta. Ela se recusava a dar a ele o prazer de vê-la temer. "Se era só isso, pode desligar."
"Não seja apressada, Helena. Tenho uma proposta para você. Algo que pode nos beneficiar a ambos. Uma oportunidade de... acertar as contas do passado."
"Não me interessa", Helena disse, decidida. Ela apertou o botão de desligar, o som seco do fim da ligação ressoando em seus ouvidos. Mas a verdade é que ela estava apavorada. Eduardo estava se aproximando, e a ameaça à segurança de Sofia era mais real do que nunca.
Pedro, que estava na sala ao lado, percebeu a mudança em sua expressão. Ele entrou na cozinha, onde Helena estava, pálida e tensa.
"Quem era?", perguntou ele, o olhar preocupado.
"Era o Eduardo", Helena respondeu, a voz trêmula. "Ele... ele sabe. Ou suspeita de alguma coisa. Ele disse que queria conversar, que tinha uma proposta."
Pedro a abraçou imediatamente, sentindo a urgência em seus movimentos. "Calma, meu amor. Ele não sabe de nada concreto. Apenas está provocando."
"Mas e se ele descobrir? E se ele tentar alguma coisa?" As lágrimas começaram a brotar.
"Nós não vamos deixar isso acontecer. Eu vou tomar todas as providências. Vamos reforçar a segurança. E se ele tentar se aproximar, vamos nos certificar de que ele não chegue perto de Sofia." Pedro a segurou firme, a determinação em seu olhar. "Não tema, Helena. Eu estou aqui. E nós vamos protegê-la."
Nos dias seguintes, a atmosfera na mansão dos Montenegro tornou-se mais tensa. A segurança foi reforçada, e Pedro tomou medidas legais para garantir a proteção de Helena e Sofia, mesmo sem ter provas concretas da intenção de Eduardo. Francisco, alertado sobre a ligação, ficou ainda mais vigilante. A ideia de Eduardo interferir na vida de sua filha era algo que ele não toleraria.
Uma tarde, enquanto Helena estava no escritório, um carro preto e imponente parou em frente à mansão. Um homem alto, de terno escuro, desceu e se dirigiu à portaria. Era Eduardo.
Helena viu o carro da janela e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O medo, antes contido, explodiu em seu peito. Ela correu para chamar Pedro.
"Pedro! Ele está aqui! Eduardo está aqui!"
Pedro correu para a varanda, observando o carro e o homem que se aproximava. A expressão em seu rosto era de pura determinação. Ele não permitiria que Eduardo sequer chegasse perto de Helena.
"Fique aqui, Helena. Eu resolvo isso."
Pedro desceu as escadas, encontrando Francisco já na porta da frente, com uma expressão de fúria contida. A tensão era palpável.
Eduardo, com seu sorriso arrogante, se aproximou. "Ora, ora. Helena não está em casa? Que pena. Vim fazer uma visita amigável."
"Amigável?", Francisco retrucou, a voz baixa e ameaçadora. "Sua presença aqui não é bem-vinda, Eduardo. Saia agora."
Eduardo riu, um som desagradável. "Não seja sentimental, Francisco. Eu sei que a Helena anda meio distante ultimamente. E eu vim para... oferecer ajuda. Talvez ela precise de um ombro amigo." Ele lançou um olhar provocador para Francisco.
Pedro chegou ao lado de Francisco, sua presença firme e inabalável. "Eduardo, você está cruzando uma linha perigosa. Helena não quer te ver. E você não tem nada a oferecer a ela. Vá embora."
"E quem é você para me dizer o que fazer?", Eduardo retrucou, lançando um olhar de desprezo para Pedro. "Um mero capacho que vive às custas dela?"
A provocação atingiu Pedro em cheio, mas ele manteve a compostura. "Eu sou o homem que ama Helena e que protege sua família. Algo que você nunca será capaz de fazer."
Eduardo deu um passo à frente, o corpo tenso, a raiva evidente em seus olhos. "Você não sabe do que está falando. Helena e eu temos uma história. E talvez, apenas talvez, ela ainda se lembre disso." Ele olhou em direção à janela onde Helena observava, um sorriso cruel brincando em seus lábios.
Francisco deu um passo à frente, interpondo-se entre Eduardo e Pedro. "Você não tem o direito de falar com ela. E muito menos de aparecer aqui. Saia agora, antes que eu seja forçado a tomar medidas mais drásticas."
Eduardo, percebendo que não obteria o que queria naquele momento, mas determinado a deixar sua marca, deu um passo para trás. "Isso não acabou, Helena. Você não pode fugir do seu passado para sempre." Ele virou-se e caminhou de volta para seu carro, o olhar fixo na mansão, uma promessa de retorno velada em seus olhos.
Assim que o carro de Eduardo desapareceu na curva da estrada, Helena saiu correndo da casa, abraçando Pedro e Francisco com força. O eco do medo ainda ressoava em suas veias, mas o apoio inabalável daqueles dois homens, a força de seu amor, a fazia sentir que, juntas, poderiam enfrentar qualquer coisa. A sombra de Eduardo havia se manifestado, mas a luz de sua família era mais forte.