Amor que Transcende III

Capítulo 3 — O Encontro Marcado Sob o Céu Carioca

por Camila Costa

Capítulo 3 — O Encontro Marcado Sob o Céu Carioca

O Rio de Janeiro pulsava com uma energia febril. O calor úmido do verão abraçava a cidade, fazendo o asfalto exalar um vapor denso e o ar vibrar com o som de buzinas e conversas animadas. Isabella, sentada no banco de couro de um carro alugado, observava a paisagem urbana passar pela janela com uma mistura de nostalgia e apreensão. Era a primeira vez que voltava à cidade após o… o desaparecimento de Rafael. Cinco anos haviam se passado, mas as memórias eram vívidas, quase palpáveis. A praia de Copacabana, o Pão de Açúcar ao longe, o calçadão com seus vendedores ambulantes e a energia contagiante do povo carioca. Tudo parecia ter parado no tempo, mas para Isabella, cada canto da cidade era uma lembrança de um tempo que ela havia tentado enterrar.

Sua mãe, Dona Cecília, sentada ao seu lado, tentava manter a calma, mas Isabella podia sentir a tensão em seus ombros. "Você tem certeza de que quer fazer isso, minha filha?", Cecília perguntou, a voz baixa, como se temesse que o próprio ar pudesse ouvir seus medos.

Isabella apertou o volante, os nós dos dedos brancos. "Precisamos fazer, mãe. O papai… ele não tem muito tempo. Essa proposta da Nova Aurora é a nossa única chance. E a única forma de garantir isso é eu ir pessoalmente. Falar com ele."

"Falar com ele", Cecília repetiu, como se saboreasse a palavra, um misto de dor e revolta em seu olhar. "Depois de tudo o que ele fez. Deixar você acreditar que ele estava morto. Isso é inaceitável, Isabella."

"Eu sei. Mas talvez… talvez ele tenha uma explicação. E mesmo que não tenha, eu preciso confrontá-lo. Por mim. Pelo papai." Isabella inspirou profundamente, o ar pesado carregado com o cheiro de maresia e poluição. "Eu não posso viver mais cinco anos atormentada por perguntas sem resposta. Preciso saber a verdade, por mais dolorosa que ela seja."

A reunião fora marcada para o final da tarde, em um dos restaurantes mais badalados da Lagoa Rodrigo de Freitas. Um lugar elegante, com vista privilegiada para o Cristo Redentor, que parecia observá-los de cima, testemunha silenciosa de tantas histórias de amor e desespero. A escolha do local era, sem dúvida, deliberada. Um convite para que ela visse o sucesso dele, a prosperidade que ele construíra.

Enquanto dirigia, Isabella passou em frente a um edifício imponente, a sede da Nova Aurora Empreendimentos. Uma estrutura moderna de vidro e aço, que se destacava na paisagem urbana. Ela lembrou-se de ter passado por ali há anos, quando Rafael a levou para conhecer a pequena empresa que ele estava começando, cheia de sonhos e ambições. Agora, era um império. Uma ironia cruel.

Ela parou o carro em um local próximo ao restaurante e ambas desceram, ajeitando suas roupas. Isabella optara por um vestido elegante, de cor azul marinho, que realçava seus olhos. Queria parecer forte, confiante, mesmo que por dentro estivesse se desmanchando. Cecília, por sua vez, usava um tailleur clássico, emanando a dignidade que sempre a caracterizou.

Ao adentrarem o restaurante, foram recebidas por um garçom impecável, que as conduziu a uma mesa reservada, com a vista deslumbrante que prometia. O ambiente era sofisticado, com música suave ao fundo e o burburinho de conversas de pessoas influentes. Isabella sentiu o olhar de alguns clientes sobre elas, curiosos, mas ela tentou ignorar, focada na porta.

E então, ele entrou.

O tempo pareceu parar. O coração de Isabella deu um salto, acelerado, descompassado. Ele estava mais velho, é claro. Mais maduro. Mas os olhos azuis, o sorriso que ela conhecia tão bem, o jeito de andar confiante… Era ele. Rafael de Andrade. Vivo. Bem. E mais deslumbrante do que ela jamais se lembrara.

Ele usava um terno escuro, perfeitamente cortado, que realçava sua silhueta atlética. Seus cabelos escuros estavam um pouco mais curtos, mas o mesmo brilho de antes emanava de seu olhar. Ao avistar Isabella, um leve espanto cruzou seu rosto, rapidamente substituído por um sorriso contido, quase calculista.

Ele se aproximou da mesa, e Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O ar parecia rarefeito.

"Isabella", ele disse, a voz grave, rouca, carregada de uma emoção que ela não soube decifrar. Era um misto de surpresa, talvez até de culpa, mas acima de tudo, havia uma frieza que a fez recuar por dentro. "Dona Cecília. É uma honra revê-las."

Isabella lutou para manter a compostura. "Rafael", ela respondeu, a voz firme, mas com um tremor quase imperceptível. "Precisamos conversar."

Ele assentiu, sentando-se à mesa, os olhos fixos nos dela. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de anos de dor e mágoas não ditas.

"Eu imagino que você tenha muitas perguntas", ele disse, quebrando o silêncio.

"E você tem as respostas?", Isabella retrucou, a voz mais forte agora, a raiva começando a se sobrepor à mágoa.

Rafael desviou o olhar por um instante, fitando a paisagem ao redor. "Eu tive meus motivos, Isabella. Motivos que na época, me pareceram os únicos possíveis."

"Motivos para me deixar acreditar que você estava morto? Para me ver definhar em dor e desespero?" As lágrimas começaram a se formar em seus olhos, mas ela as conteve com determinação. "Você destruiu a minha vida, Rafael."

"Eu sei", ele disse, a voz baixa, quase um sussurro. "E eu me arrependo todos os dias. Mas na época… eu estava sendo ameaçado. Minha vida corria perigo. E era a única maneira de me proteger, de proteger você."

"Proteger a mim? Deixando-me à mercê da minha própria dor? Deixando minha família sem o meu apoio? Você não me protegeu, Rafael. Você me abandonou." A voz de Isabella falhava, a emoção transbordando.

Dona Cecília interveio, a voz firme. "Rafael, nós estamos aqui para falar sobre a proposta. O Dr. Álvaro está em uma situação delicada. A empresa precisa dessa parceria."

Rafael voltou seu olhar para Cecília, a expressão suavizando um pouco. "Eu sei, Dona Cecília. E é por isso que estou aqui. A Nova Aurora está disposta a investir na Alencar S.A. Tenho acompanhado a situação de vocês há algum tempo."

"Acompanhado? Então você sabia de tudo?", Isabella perguntou, a desconfiança voltando com força.

"Eu soube da dificuldade da empresa. E eu quis ajudar. De certa forma, é uma forma de… reparar o passado."

"Reparar o passado? Com dinheiro?", Isabella ironizou, a voz carregada de sarcasmo. "Cinco anos da minha vida, da minha dor, da minha juventude perdida. Isso não se compra, Rafael."

"Eu sei que não. E eu nunca esperei que você me perdoasse. Mas eu preciso fazer o que está ao meu alcance para ajudar o Dr. Álvaro. Ele foi um pai para mim. E você… você foi o meu grande amor, Isabella. Mesmo que eu tenha falhado terrivelmente."

Ouvir aquelas palavras, ditas com tanta convicção, desarmou Isabella um pouco. A dor da traição ainda estava lá, profunda e latente, mas misturada a ela, uma pequena fagulha de esperança. Seria possível que ele estivesse falando a verdade? Que a razão por trás de seu desaparecimento tivesse sido realmente uma questão de vida ou morte?

"Se você estava em perigo, por que não procurou ajuda? Por que não falou com meu pai? Por que me deixou sofrer tanto?", ela insistiu, a voz embargada.

Rafael suspirou, o olhar perdido em algum ponto do passado. "Naquela época, eu não confiava em ninguém. Eu estava cercado por inimigos. E eu não queria colocar ninguém mais em perigo. Pensei que, desaparecendo, eu estaria protegendo a todos. Foi um erro. Um erro terrível."

Ele estendeu a mão sobre a mesa, como se quisesse tocar a dela, mas hesitou. "Isabella, eu sei que o perdão é algo que você pode ou não me dar. Mas eu preciso que você saiba que eu nunca quis te machucar. O meu amor por você sempre foi real. E a dor de ter te perdido… essa dor me acompanhou todos esses anos."

Isabella olhou para a mão dele, estendida no ar, e depois para o rosto dele, marcado por uma expressão de remorso genuíno. A raiva em seu peito começou a se dissipar, dando lugar a uma tristeza profunda e a um turbilhão de sentimentos confusos. Ela ainda estava magoada, sim. Mas talvez… apenas talvez… houvesse uma chance. Uma chance de entender. Uma chance de curar.

"Eu… eu não sei o que dizer, Rafael", ela murmurou, a voz quase inaudível. "Eu preciso de tempo. Eu preciso pensar."

"Eu entendo", ele respondeu, retirando a mão. "Mas a proposta está sobre a mesa. A Nova Aurora está pronta para investir. E eu estarei à disposição para qualquer coisa que você precisar. Para esclarecer qualquer dúvida."

A conversa continuou, mais amena agora, focando nos detalhes da proposta. Isabella ouvia atentamente, analisando cada palavra, cada gesto. Rafael, por sua vez, demonstrava profissionalismo e seriedade, mas em seus olhos, ela ainda podia vislumbrar o reflexo do amor que um dia os uniu.

Ao final da noite, ao se despedirem, Isabella sentiu que uma porta se abria, um portal para um passado que ela pensava estar fechado para sempre. O encontro havia sido doloroso, mas também revelador. A verdade, mesmo que parcial, começava a emergir.

Ao voltarem para o carro, Dona Cecília olhou para a filha com um misto de esperança e preocupação. "E então, minha filha? O que você achou?"

Isabella sorriu fracamente, um sorriso cansado, mas com um brilho de determinação em seus olhos. "Eu acho, mãe, que vamos ter que trabalhar juntos. E que essa jornada, que parecia ter terminado, está apenas começando."

O céu carioca, agora estrelado, parecia cúmplice de suas incertezas. A noite era longa, e as perguntas que pairavam no ar eram tantas quanto as estrelas. Mas pela primeira vez em cinco anos, Isabella sentia que havia uma luz no fim do túnel. Uma luz incerta, talvez perigosa, mas uma luz. E ela estava disposta a segui-la, mesmo que isso significasse encarar o fantasma do passado de frente.

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