Cap. 12 / 25

Amor Clandestino

Capítulo 12 — O Refúgio da Memória

por Isabela Santos

Capítulo 12 — O Refúgio da Memória

O silêncio no apartamento de Helena era ensurdecedor, apenas quebrado pelo tic-tac insistente do relógio na sala de estar, marcando o tempo de uma maneira que parecia zombar de sua dor. Arthur havia ido embora, levando consigo uma parte da alma dela, mas deixando para trás o peso insuportável da verdade. Helena sentia-se como um navio à deriva em um oceano de mágoa, sem rumo, sem porto seguro.

Ela se dirigiu à cozinha, buscando refúgio em tarefas banais, na esperança de anestesiar a dor que a consumia. Abriu a geladeira, seus olhos vagando sem foco pelas prateleiras, o aroma adocicado de frutas maduras invadindo suas narinas. Pegou uma maçã, a vermelhidão vibrante contrastando com o vazio em seu peito. Deu uma mordida hesitante, o sabor doce e ácido misturando-se às lágrimas que ainda escorriam.

Os dias que se seguiram foram uma névoa de apatia. Helena se arrastava pela casa, o trabalho se tornando um fardo, as interações sociais um tormento. Ela evitava o celular, temendo qualquer nova mensagem de Arthur, qualquer tentativa dele de se reaproximar. O amor que antes era seu refúgio, agora era a fonte de sua maior angústia.

Em uma tarde chuvosa, o céu cinzento espelhando a melancolia de seu espírito, Helena encontrou-se sentada no chão da sala, rodeada por caixas antigas que ela havia decidido organizar. Eram lembranças empoeiradas de uma vida que parecia pertencer a outra pessoa. Em uma delas, encontrou um álbum de fotos desbotadas. Ao abri-lo, o passado a invadiu com a força de um vendaval.

Ali estavam eles, jovens e cheios de sonhos. Helena, com seus cabelos castanhos revoltos e um sorriso que iluminava o rosto, e Arthur, com seus olhos azuis cintilantes e um ar de cumplicidade que era apenas deles. Fotos de viagens, de jantares românticos, de momentos simples, mas carregados de um amor que ela jurava ser eterno. Um bilhete amassado, escrito com a caligrafia elegante de Arthur, saltou de entre as páginas. "Para Helena, meu amor. Que esta foto nos lembre para sempre deste dia. Te amo mais do que as palavras podem dizer."

As lágrimas voltaram a brotar, mas desta vez eram diferentes. Eram lágrimas de saudade, de um amor que um dia foi tão puro e verdadeiro. Ela se lembrava daquele dia. Era o aniversário dela, e Arthur a levara para um piquenique em Ipanema. O sol beijava a pele, o mar sussurrava segredos antigos, e o amor deles parecia tão vasto quanto o horizonte.

Ela continuou folheando o álbum, cada imagem um portal para um tempo em que a confiança era inabalável e a felicidade, um estado de espírito. Havia uma foto dela e de sua mãe, sorrindo em um jardim florido. A imagem trouxe um aperto no coração. A mãe de Helena, Dona Clara, sua confidente, seu porto seguro, havia partido há alguns anos, deixando um vazio que o tempo não conseguia preencher. A saudade da mãe era um fio constante em sua vida, um lembrete de tudo o que havia perdido.

De repente, seus olhos pousaram em uma foto que a fez congelar. Era Arthur, em uma festa, sorrindo para uma mulher que Helena não reconhecia. A mulher tinha cabelos escuros e longos, e seus olhos brilhavam de uma maneira que não era inocente. Helena se lembrou vagamente daquele evento. Uma festa de gala beneficente, organizada por um cliente importante de Arthur. Na época, ela estava resfriada e não pôde ir. Arthur disse que foi sozinho.

Um arrepio percorreu sua espinha. Ela pegou a foto com as mãos trêmulas, examinando os detalhes. A proximidade entre Arthur e a mulher era inegável. O braço dele repousava de leve em seu ombro, e o sorriso dela parecia direcionado a ele, cheio de uma intimidade que não era de amizade. Aquele era o início da traição? Aquele foi o primeiro vislumbre do abismo que se abriria entre eles?

Ela se levantou, sentindo uma onda de adrenalina correr por suas veias, misturada com uma raiva fria e calculista. A dor do passado se misturou à revolta do presente, criando um coquetel explosivo. Ela precisava de respostas. E precisava de alguém que a ajudasse a desvendar esse emaranhado de mentiras.

Sua mente voou para Clara, a amiga de infância de Arthur, a mulher por quem ele havia se confessado apaixonado no passado. Clara, que sempre fora uma figura enigmática em sua vida, um mistério envolto em sofisticação e segredos. Helena nunca confiou nela completamente. Havia algo nos olhos de Clara, uma frieza calculista, que sempre a incomodou.

Ela pegou o celular e discou o número de Clara, seu coração batendo forte no peito. A voz de Clara, quando atendeu, era melodiosa e polida, mas carregava um tom de surpresa. "Helena? Que surpresa desagradável. O que te traz ao meu modesto número?"

"Clara, eu preciso falar com você. Urgente", disse Helena, sem rodeios. A raiva em sua voz era evidente.

Houve uma pausa do outro lado da linha. "Urgente? Que drama desnecessário, Helena. Mas diga, o que pode ser tão vital a ponto de perturbar minha tarde de repouso?"

"Eu encontrei uma foto antiga. De você e Arthur. Em uma festa. Há alguns anos." Helena esperou a reação de Clara, mas o silêncio persistiu. "Você pode me dizer o que aconteceu naquela noite, Clara?"

"Aquela noite?", Clara riu, um som seco e sem calor. "Querida Helena, você está se tornando obsessiva. Arthur e eu somos amigos de infância. É natural que frequentássemos os mesmos eventos sociais. Nada demais."

"Amigos?", Helena repetiu, a voz carregada de escárnio. "A foto não parece mostrar apenas amigos, Clara. E Arthur me disse que esteve sozinho naquela noite."

A pausa de Clara agora foi mais longa, carregada de um silêncio calculado. Quando ela finalmente falou, sua voz estava um tom mais baixo, quase um sussurro conspiratório. "Ah, o Arthur... sempre tão protetor com você, não é mesmo? Ele nunca te contou tudo, Helena. Nunca te contou sobre a tempestade que ele estava enfrentando."

"Que tempestade, Clara? E o que você tem a ver com isso?" A curiosidade de Helena se misturava à apreensão.

"Talvez eu tenha sido um porto seguro para ele naquele momento de turbulência. Talvez ele tenha buscado em mim o que não encontrava mais em você. A paixão, a intensidade... algo que você, com todo o seu amor platônico, parecia ter esquecido." Clara fez uma pausa dramática. "Ou talvez... eu tenha apenas aceitado um convite que ele não teve coragem de recusar."

As palavras de Clara caíram como um veneno em ouvidos de Helena. A ideia de Arthur ter buscado consolo em Clara, sua eterna rival, a perturbou profundamente. A imagem dele em seus braços, a intimidade que ela negava, mas que a foto sugeria, era insuportável.

"Você está dizendo que vocês...", Helena hesitou, incapaz de proferir a palavra.

"Eu estou dizendo que a vida é cheia de surpresas, Helena. E que o amor, às vezes, encontra caminhos inesperados. Talvez a sua felicidade tenha sido apenas uma fase para Arthur. Talvez ele tenha percebido que o que ele realmente desejava estava em outro lugar. Ou em outra pessoa." Clara riu novamente, um som triunfante. "Ele me procurou, Helena. Ele precisava de algo que você não podia lhe dar. E eu estava lá. Sempre estive."

Helena sentiu o chão sumir sob seus pés. A imagem de Arthur, o homem que ela amava, beijando Clara, ou pior, amando-a, a consumiu. A raiva que ela sentia era tão avassaladora que a deixou sem ar. O refúgio da memória, que antes lhe trazia um misto de dor e saudade, agora se transformava em um campo minado de traição e dor. Ela desligou o telefone, as mãos tremendo. A borboleta em seu peito, antes ferida, agora parecia estar sendo esmagada por um peso invisível. Ela precisava sair dali. Precisava de um novo refúgio, longe das memórias e das mentiras que a sufocavam.

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