Cap. 16 / 25

Amor Clandestino

Amor Clandestino

por Isabela Santos

Amor Clandestino

Capítulo 16 — O Eco das Escolhas

O sol da manhã despontava preguiçoso sobre o Rio de Janeiro, pintando o céu com tons de laranja e rosa que pareciam zombar da tempestade que se instalara na alma de Clara. A noite anterior pairava sobre ela como um véu pesado, denso de arrependimento e de uma dor que se aprofundava a cada segundo. As palavras de Miguel, cruas e implacáveis, ecoavam em sua mente, cada uma delas um prego a mais no caixão de seus sonhos. "Você escolheu seu caminho, Clara. E ele não me inclui."

Ela se levantou da cama em que mal dormira, o corpo dolorido de tanto se revirar. A cama de solteiro no pequeno apartamento alugado, tão diferente do luxo que um dia conhecera, parecia um reflexo de sua nova realidade: solitária e despojada de tudo o que importava. A vista da janela mostrava um horizonte de prédios cinzentos, um contraste gritante com a paisagem exuberante que Miguel lhe prometera, uma vida em que o amor seria o único condutor. Agora, a paisagem era um espelho de seu desamparo.

O café da manhã, um pão amanhecido e um café amargo, mal desceu pela sua garganta. Cada gole era um lembrete de sua solidão forçada. Ela se olhava no espelho do banheiro e mal se reconhecia. Os olhos, outrora vibrantes de esperança, estavam fundos e marejados, cercados por olheiras que contavam a história de uma noite sem paz. O cabelo, que ela costumava arrumar com tanto cuidado, estava emaranhado e sem vida. A mulher que vira no reflexo era uma sombra, uma versão pálida e quebrada daquela que Miguel amara.

Lembrou-se da promessa que fizera a si mesma, lá naquela noite em que o desespero a levara ao limite: recomeçar, reconstruir sua vida. Mas como recomeçar quando as fundações foram demolidas e os pilares desmoronaram? Como reconstruir quando a única argamassa que conhecia era feita de amor e agora essa argamassa lhe fora roubada?

Pegou o celular com mãos trêmulas. Havia mensagens de sua irmã, Ana, perguntando como ela estava, se precisava de algo. Respondeu com um emoji de coração e um "Tudo bem, obrigada", mentiras que se tornavam cada vez mais fáceis de proferir. Mentiras para proteger aqueles que a amavam da verdade devastadora de sua própria fraqueza.

Decidiu sair, andar pelas ruas, tentar dissipar a névoa que a envolvia. O bairro era movimentado, um turbilhão de pessoas apressadas em seus afazeres. Carros buzinavam, vendedores apregoavam seus produtos, risadas e conversas se misturavam em um som caótico. Clara se sentia um grão de areia perdido naquela imensidão, invisível, insignificante.

Passou em frente a uma floricultura. Um aroma doce e inebriante emanava das flores expostas na calçada. Rosas vermelhas, lírios brancos, margaridas alegres. Ela parou, fascinada pela beleza efêmera. Uma vez, Miguel lhe dera um buquê de rosas vermelhas, cada pétala um beijo em sua pele. A lembrança a atingiu como um golpe, e as lágrimas ameaçaram transbordar. Virou-se rapidamente e seguiu em frente, a dor apertando seu peito.

O tempo passou lento, as horas se arrastando como séculos. Clara se sentou em um banco de praça, observando as crianças brincando, os casais de mãos dadas. A vida seguia seu curso, alheia ao seu sofrimento. Uma pontada de inveja a invadiu. Por que alguns tinham a sorte de encontrar o amor verdadeiro, de viverem suas histórias de felicidade, enquanto ela, que tudo fizera por amor, fora deixada para trás, marcada pela solidão?

Lembrou-se das palavras de sua mãe, antes de partir: "Filha, a vida é feita de escolhas. E cada escolha tem um preço. O importante é que, no final, você possa olhar para trás e saber que fez o que seu coração mandava." Mas seu coração, naquele momento, estava em pedaços, e ela não sabia mais o que ele mandava, a não ser clamar por Miguel.

A tarde avançava, e com ela, um sentimento de resignação começou a se instalar. Talvez Miguel estivesse certo. Talvez ela realmente tivesse traído a confiança dele, traído a si mesma. A busca incessante por provar seu valor, por se redimir de erros passados, a levara a caminhos tortuosos, onde a ambição se misturara à necessidade de ser amada. E no final, ela acabara perdendo o amor que mais almejava.

Ela pensou em sua carreira, no trabalho que a consumia. A editora. Onde ela lutava para ser reconhecida, para se destacar. Tantas horas dedicadas, tantas noites em claro. E para quê? Para uma vida vazia, sem o calor de um abraço, sem a cumplicidade de um olhar?

Um jovem artista de rua começou a tocar violão em um canto da praça. Uma melodia melancólica, mas bela. Clara fechou os olhos, deixando a música a embalar. As notas pareciam carregar consigo os lamentos de sua alma, a tristeza de um amor perdido. Ela respirou fundo, tentando encontrar um fio de esperança na melodia.

"Não é o fim", murmurou para si mesma, a voz embargada. "Não pode ser o fim."

Ela sabia que o caminho seria árduo. Reconstruir a confiança, curar as feridas, encontrar um novo propósito. Mas a imagem do sorriso de Miguel, do brilho em seus olhos quando a olhava, era um fantasma persistente, um lembrete do que fora e do que poderia ter sido.

Levantou-se do banco, a postura um pouco mais ereta. A resignação ainda estava lá, mas misturada a uma nova determinação. Ela não podia mais se dar ao luxo de se lamentar. Precisava se erguer, por si mesma, mesmo que a cada passo o coração sangrasse.

Ao voltar para casa, o apartamento parecia menos sombrio. A luz fraca da tarde entrava pelas janelas, iluminando o pó que pairava no ar. Clara sentiu uma necessidade súbita de organizar, de limpar, de dar um novo ar ao seu refúgio solitário. Começou a arrumar a pequena cozinha, a lavar a louça acumulada, a varrer o chão. Cada movimento era um passo para frente, uma tentativa de banir a desordem de sua vida.

Ao chegar ao quarto, olhou para a cama desfeita, o lugar onde a dor a consumira. Hesitou por um momento, depois começou a arrumar os lençóis, a colocar os travesseiros no lugar. Era um gesto simples, mas carregava um significado profundo. Era um ritual de encerramento, uma forma de dizer adeus àquela noite de desespero.

Quando terminou, a cama estava impecável, convidativa. Clara sentou-se na beirada, observando o quarto agora mais organizado. A escuridão da noite começava a cair, e as luzes da cidade surgiam, pontilhando o céu como estrelas artificiais.

Respirou fundo novamente. A dor ainda estava lá, um nó apertado na garganta. Mas agora, havia também um resquício de esperança, tênue como a luz de uma vela em meio à escuridão. Ela não sabia como, nem quando, mas sabia que precisava seguir em frente. O eco das escolhas de Miguel a assombraria, mas ela não seria mais escrava delas. A vida era feita de escolhas, e ela faria uma nova escolha: a de sobreviver, a de se reerguer, a de, um dia, talvez, encontrar a paz.

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