Cap. 2 / 25

Amor Clandestino

Capítulo 2 — O Perfume de Jasmim e a Sombra do Passado

por Isabela Santos

Capítulo 2 — O Perfume de Jasmim e a Sombra do Passado

Os dias que se seguiram ao encontro com Sofia foram tingidos por uma melancolia diferente, uma saudade que não era apenas do passado, mas também de um futuro incerto. Helena se pegava olhando para o mar com mais frequência, esperando, quase contra sua vontade, avistar a figura de Sofia emergindo das ondas. A pousada, antes um fardo, agora parecia um palco esperando a entrada de uma nova atriz.

A rotina de Helena era pontuada por momentos de distração e por longos devaneios. As conversas com os poucos hóspedes eram superficiais, suas respostas monossilábicas, sua mente vagando em busca da cantora misteriosa. Ela tentava voltar à sua vida de antes, mas a música de Sofia, o olhar profundo de seus olhos verdes, haviam deixado uma marca indelével.

Uma tarde, enquanto arrumava um dos quartos da pousada, Helena encontrou, escondido sob um travesseiro, um pequeno lenço de seda bordado com um delicado jasmim. Reconheceu-o imediatamente. Era de Sofia. Um perfume suave e envolvente emanava do tecido, um aroma floral que a transportou de volta àquela noite na praia. Segurou o lenço com delicadeza, sentindo uma onda de calor percorrer seu corpo. Era a primeira vez em muito tempo que um cheiro, além do sal e da madeira antiga da casa, trazia consigo uma sensação tão vívida de… vida.

Enquanto admirava o lenço, um carro diferente estacionou em frente à pousada. Um sedã preto, imponente, que destoava do ambiente rústico do local. Dele desceu um homem alto, vestindo um terno escuro impecável, seus cabelos grisalhos emoldurando um rosto de traços marcados, mas ainda assim belos. Seus olhos azuis, penetrantes, varreram a fachada da pousada com uma expressão de quem procura algo, ou alguém, que não encontra.

Helena sentiu um frio na espinha. Aquele homem parecia pertencer a um mundo diferente, um mundo de negócios, de poder, de segredos. Ele se aproximou da entrada, e Helena, sentindo a obrigação profissional falar mais alto, saiu para recebê-lo.

"Boa tarde", disse ela, tentando manter a voz firme. "Posso ajudá-lo?"

O homem a observou por um instante, seus olhos azuis estudando-a com uma intensidade que a fez sentir-se exposta. "Sim", respondeu ele, sua voz grave e possante. "Procuro por Helena. Helena Vasconcelos."

"Sou eu", confirmou Helena, um pouco apreensiva.

Um leve sorriso surgiu nos lábios do homem, um sorriso que não alcançava seus olhos. "É um prazer, senhora Vasconcelos. Meu nome é Ricardo Montenegro."

O nome ecoou na mente de Helena. Montenegro. Um dos mais poderosos empresários do país, conhecido por sua ambição implacável e por um passado envolto em controvérsias. O que um homem como ele faria em seu humilde refúgio à beira-mar?

"Senhor Montenegro", disse Helena, esforçando-se para soar profissional. "Não esperávamos por nenhum hóspede hoje. A pousada está um pouco… fora de mão para quem não conhece a região."

"Eu sei onde procurar", respondeu ele, com uma segurança que a desarmou. "E sei que o senhor João Vasconcelos, seu falecido marido, tinha alguns negócios que se estendiam para além de sua arte."

O estômago de Helena se revirou. A menção de João, a sugestão de negócios obscuros, a deixaram em alerta máximo. João era um artista, puro e simples. Ele não se envolvia em nada que pudesse manchar sua alma ou sua arte.

"Meu marido era um artista. Ele não tinha negócios", disse Helena, sua voz firme, defendendo a memória do homem que amava.

Ricardo Montenegro soltou uma risada seca. "Senhora Vasconcelos, a vida é complexa. As pessoas têm facetas que, muitas vezes, escondem até daqueles que amam. Ou talvez, especialmente daqueles que amam." Ele fez uma pausa, seus olhos azuis fixos nos dela. "Eu vim aqui porque algo que pertenceu a João Vasconcelos está em sua posse. Algo de grande valor."

Helena sentiu o sangue gelar. "Não sei do que o senhor está falando."

"Tenho certeza que sabe", insistiu Montenegro, seu tom endurecendo. "Uma pequena caixa de madeira entalhada. Com símbolos antigos gravados. Ela contém… informações cruciais."

O lenço de jasmim escapou das mãos de Helena, caindo no chão. A caixa de madeira. João a recebera de um cliente misterioso, alguns meses antes de morrer. Ele a guardara em seu ateliê, prometendo a Helena que lhe mostraria os entalhes assim que tivesse tempo. Tempo que nunca chegou.

"Essa caixa…", começou Helena, sua voz embargada pela emoção. "Ela me foi dada por meu marido. Pertence a ele."

"Pertenceu", corrigiu Montenegro, com frieza. "E agora, pertence a mim. Ou melhor, o conteúdo dela. É uma questão de honra, e de negócios."

Helena sentiu uma raiva crescente. A audácia daquele homem, a maneira como ele falava de João, de seus pertences, como se fossem meros objetos de barganha, era intolerável.

"O senhor não pode simplesmente entrar aqui e exigir algo que é meu por direito", disse Helena, recuperando um pouco de sua força.

Montenegro deu um passo à frente, invadindo o espaço de Helena. Ela recuou instintivamente, sentindo-se ameaçada. "Eu não vim pedir, senhora Vasconcelos. Eu vim buscar. E se não mo entregar voluntariamente, terei que tomar medidas mais drásticas."

Naquele instante, um grito rasgou o ar. Vindo da direção da praia. Helena e Montenegro se viraram, assustados. O grito era de desespero, de angústia.

"Sofia!", Helena exclamou, um medo súbito a tomando.

Sem hesitar, Helena correu em direção ao som. Montenegro a seguiu, seus olhos azuis agora carregados de uma frieza calculista. Ao chegarem à praia, encontraram Sofia caída na areia, lutando contra a água que insistia em levá-la. Em volta dela, surgiam os contornos de um barco pequeno, escuro, que parecia emergir das profundezas.

"O que está acontecendo?", perguntou Montenegro, a voz carregada de suspeita.

Sofia, ofegante, olhou para Helena, seus olhos verdes cheios de pânico. "Eles… eles me pegaram", sussurrou ela, a voz fraca.

Helena correu até Sofia, tentando ajudá-la a se erguer. Mas a força de Sofia parecia ter sido drenada. "Quem, Sofia? Quem a pegou?"

"Aqueles que… que não querem que a verdade seja revelada", disse Sofia, antes de perder os sentidos.

Montenegro observava a cena com uma expressão indecifrável. Ele sabia que algo estava acontecendo, algo que ia além de uma simples briga entre artistas. A presença de Sofia, a menção de segredos, tudo isso se encaixava em um quebra-cabeça sombrio que ele começava a montar.

Enquanto Helena tentava reanimar Sofia, os homens do barco, figuras sombrias e silenciosas, se aproximaram. Sem dizer uma palavra, eles agarraram Sofia e a arrastaram para dentro do barco. Helena lutou, tentou impedi-los, mas a força bruta deles era avassaladora.

"Soltem-na!", gritou Helena, a voz embargada pelo desespero.

Montenegro observava, paralisado por um instante, a cena se desenrolar. Ele via a luta de Helena, a impotência de ambos diante daquela violência repentina. Algo em seu interior, talvez um resquício de sua própria humanidade, se agitou.

"Senhora Vasconcelos", disse ele, sua voz soando mais calma, mas com uma nova urgência. "Nós podemos ajudar. Mas precisamos saber o que está acontecendo."

Helena olhou para Montenegro, seus olhos marejados. A súbita aparição de Montenegro, a ameaça que ele representava, e agora o sequestro de Sofia, a deixaram em um estado de choque. O perfume de jasmim em suas mãos, o lenço que ela segurava, parecia agora um símbolo de tudo o que ela estava perdendo.

"Eles levaram Sofia", sussurrou Helena, a voz quebrada. "Eles levaram a única pessoa que me fez sentir… viva de novo."

Montenegro olhou para o mar, para o barco que desaparecia na escuridão. Ele sabia que estava diante de algo perigoso, algo que envolvia a caixa de João e a misteriosa Sofia. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que seus próprios interesses poderiam estar alinhados com os de Helena.

"Não se preocupe, senhora Vasconcelos", disse ele, com uma firmeza que a surpreendeu. "Nós vamos recuperá-la. Juntos."

Juntos. A palavra ecoou na mente de Helena. Ela, uma viúva solitária, e Ricardo Montenegro, o homem de negócios implacável. Dois mundos colidindo em uma noite de terror e incertezas. O perfume de jasmim pairava no ar, um lembrete agridoce do que estava em jogo. A sombra do passado, com suas promessas e seus perigos, pairava sobre eles, e Helena sabia que sua vida, assim como a de Sofia, nunca mais seria a mesma.

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