O Ladrão do meu Coração 151

O Ladrão do Meu Coração

por Camila Costa

O Ladrão do Meu Coração

Autor: Camila Costa

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Capítulo 1 — A Sombra do Passado e o Perfume de Rosa

O sol, implacável, castigava o asfalto da Rua das Flores, transformando o ar numa estufa úmida e sufocante. Maria Eduarda, ou Duda, como preferia ser chamada, apertou o passo, o tecido fino do seu vestido de verão grudando nas costas. O aroma das roseiras, geralmente um bálsamo para sua alma atribulada, hoje parecia se misturar à tensão que a envolvia como uma segunda pele. Mais uma vez, a justiça teimava em cobrar o seu preço, e Duda sentia o peso de cada dívida antiga, cada erro que insistia em assombrá-la.

Seu coração batia descompassado, um tambor frenético no peito. Não era apenas o calor ou a pressa. Era a memória. Aquele lugar, a sede da família Vasconcelos, um casarão antigo com ares de mansão colonial, sempre a trazia de volta a um tempo que ela tentava desesperadamente enterrar. Um tempo de luxo, de sorrisos falsos e de um amor que se revelara uma miragem.

Ao se aproximar dos portões imponentes de ferro forjado, ela hesitou. Cada detalhe parecia gritar um aviso. A fonte borbulhante no centro do jardim, as estátuas de mármore impecavelmente polidas, o jardim meticulosamente cuidado. Era o oposto do caos que reinava em sua vida. Duda era uma sobrevivente, uma artista de rua que transformava sucata em beleza, uma mulher que lutava para manter a dignidade num mundo que parecia conspirar contra ela. E agora, estava ali, a caminho de um compromisso que a conectava diretamente ao seu passado mais doloroso.

“Seja forte, Duda”, ela murmurou para si mesma, respirando fundo o aroma pungente das rosas vermelhas que adornavam a entrada. Eram as mesmas rosas que o Coronel Antônio Vasconcelos, o patriarca da família, ostentava com orgulho. Um homem de aço, de olhar penetrante e uma fortuna construída sobre pilares de silêncio e segredos.

Um segurança corpulento, com o uniforme impecável, abriu os portões com um movimento quase robótico. Duda sentiu o olhar dele varrê-la de cima a baixo, um julgamento silencioso que ela já conhecia bem. Aquele mundo não a via com bons olhos.

Ao entrar, o silêncio do casarão a engoliu. O mármore frio do piso parecia sugar o calor do seu corpo. O cheiro de cera de abelha e de livros antigos pairava no ar. Era um santuário de riqueza, um contraste gritante com o seu ateliê improvisado num galpão abandonado.

“Senhorita Maria Eduarda?”, uma voz formal e polida ecoou do fundo do hall. Uma senhora de cabelos grisalhos presos num coque impecável e um tailleur cinza se aproximou. Dona Elza, a governanta de longa data da família. Seu semblante era tão impassível quanto as paredes da casa.

“Sim, sou eu”, respondeu Duda, tentando disfarçar o tremor em sua voz.

“O senhor Fernando a aguarda na sala de estar. Por favor, siga-me.”

Fernando. O nome fez seu estômago revirar. Fernando Vasconcelos. Herdeiro da fortuna, o homem que um dia foi o centro do seu universo. O homem que a amou com a intensidade de um furacão e que a deixou à deriva com a mesma facilidade.

Enquanto Dona Elza a conduzia pelos corredores repletos de obras de arte e móveis antigos, Duda sentia o peso dos olhares invisíveis sobre ela. As paredes pareciam sussurrar nomes, memórias, acusações. Cada passo era um retorno a um tempo que ela se esforçava para esquecer.

A sala de estar era grandiosa, com lustres de cristal que refletiam a luz dourada do sol em mil fragmentos. Fernando estava ali, de costas para ela, observando uma pintura abstrata de cores vibrantes. Ele era mais alto do que ela se lembrava, e seus ombros largos pareciam carregar o peso do mundo. Seus cabelos escuros estavam levemente desgrenhados, como se ele tivesse passado as mãos por eles repetidas vezes.

Ao ouvir os passos de Duda, ele se virou. Seus olhos, de um azul profundo e intenso, encontraram os dela. Por um instante, o tempo pareceu parar. Aquele olhar, ainda tão familiar, ainda tão capaz de desarmá-la. Um misto de surpresa, dor e algo que ela não conseguia decifrar cruzou seu rosto.

“Duda”, ele disse, a voz rouca, carregada de emoção contida. “Você veio.”

“Eu disse que viria”, respondeu ela, a voz firme, mas por dentro, uma tempestade se formava. “O que você quer, Fernando?”

Ele deu um passo à frente, e Duda sentiu a necessidade primordial de recuar, de se proteger. Mas seus pés pareciam pregados no chão.

“Precisamos conversar sobre o acordo”, ele disse, desviando o olhar para o chão, como se as palavras fossem difíceis de pronunciar.

O acordo. Sim, o acordo. A razão pela qual ela estava ali. Um contrato absurdo, assinado anos atrás, em um momento de desespero e inocência. Um acordo que a ligava à família Vasconcelos de uma forma que ela não conseguia mais suportar.

“Eu sei do que se trata”, ela respondeu, o tom mais frio do que pretendia. “E eu não vou mudar de ideia.”

Fernando suspirou, um som pesado que ecoou na sala. Ele se aproximou um pouco mais, e Duda podia sentir o calor que emanava dele. O perfume amadeirado que ele usava, misturado com algo mais sutil, talvez o cheiro de seu próprio corpo, invadiu suas narinas, despertando memórias adormecidas.

“Duda, por favor, me escute”, ele implorou, seus olhos azuis fixos nos dela novamente. Havia uma urgência neles, uma súplica silenciosa que a atingiu em cheio. “As coisas mudaram.”

“Mudaram para você. Para mim, as coisas continuam as mesmas. Eu não quero mais nada com a sua família, Fernando. Com o seu passado. Com a sua vida.” As palavras saíram cruas, doloridas. Ela sabia que estava ferindo a ele, mas também estava se defendendo.

“Eu… eu fui um idiota”, ele admitiu, a voz embargada. “Eu sei que fui. Mas eu nunca te esqueci, Duda. Nunca.”

As flores. As rosas. Aquele perfume. Tudo a lembrava dele. Aquele amor intenso, avassalador, que a consumiu e a deixou em pedaços. E agora, ali estava ele, com os mesmos olhos, a mesma voz, tentando reacender uma chama que ela jurou ter apagado para sempre.

“Você não me esqueceu, mas me deixou. Me abandonou. E agora, depois de todos esses anos, você me chama aqui para falar de um acordo que me prende a você como uma amarra? Não, Fernando. Eu não sou mais a garota ingênua que você conheceu.”

Ela sentiu uma lágrima solitária escorrer pelo seu rosto, quente e amarga. Ela a enxugou rapidamente, não querendo mostrar sua vulnerabilidade. Mas Fernando a viu. Ele sempre soube ler seus sentimentos, mesmo quando ela tentava escondê-los.

“Eu sei que errei, Duda”, ele disse, dando mais um passo à frente. Agora eles estavam a poucos centímetros de distância. “E eu estou aqui para tentar consertar as coisas. O acordo… ele pode ser desfeito. Mas você precisa me dar uma chance.”

“Uma chance de quê, Fernando? De você me machucar de novo? De me iludir mais uma vez? Eu construí minha vida longe de vocês. Eu sou feliz do meu jeito.” A sua voz tremia, mas ela mantinha o olhar fixo no dele, uma batalha silenciosa se travando entre eles.

“Feliz?”, ele repetiu, um leve sorriso irônico nos lábios. “Eu vejo a felicidade nos seus olhos, Duda. Vejo a mesma chama que sempre me fascinou. Mas eu também vejo a dor. E a dor é minha culpa.”

Ele estendeu a mão, hesitando por um momento antes de tocar o rosto dela. Duda estremeceu, mas não se afastou. O toque dele era familiar, mas ao mesmo tempo, era como um choque elétrico. O passado e o presente colidindo de forma avassaladora.

“Eu te amo, Duda”, ele sussurrou, e a confissão, tão esperada e temida, caiu sobre ela como um raio. “Eu sempre te amei.”

As rosas vermelhas, que antes pareciam um convite à beleza, agora pareciam sangrar no jardim. E Duda, a artista que transformava sucata em arte, sentiu seu coração ser roubado novamente, não por um ladrão de objetos, mas por um ladrão de sentimentos, por um ladrão do seu passado, por um ladrão do seu coração.

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