O Ladrão do meu Coração 151
Capítulo 2 — Ecos de Traição e um Pacto de Silêncio
por Camila Costa
Capítulo 2 — Ecos de Traição e um Pacto de Silêncio
A confissão de Fernando pairou no ar da sala de estar, densa e carregada de um passado que Duda jurara ter deixado para trás. A mão dele, ainda pousada em seu rosto, era um calor que ela não sentia há anos, um toque que despertava um turbilhão de emoções confusas e contraditórias. Aquele mesmo toque que um dia a fez sentir-se a mulher mais amada do mundo, e que, em seguida, a deixou à beira do abismo.
“Você… você não pode dizer isso”, Duda conseguiu articular, a voz embargada, um fio frágil rompendo a armadura que ela havia construído cuidadosamente ao longo dos anos. Seus olhos marejaram, mas ela se recusou a deixar as lágrimas rolarem livremente. Não ali. Não para ele.
Fernando fechou os olhos por um instante, como se a dor em seu próprio peito fosse palpável. Quando os abriu novamente, o azul profundo estava tingido de uma melancolia que Duda reconheceu com um aperto no coração.
“Posso, Duda. E devo. Porque é a verdade. Uma verdade que eu me neguei a encarar por muito tempo. Uma verdade que me consumiu por todos esses anos em que você esteve longe.” Ele deslizou a mão pelo seu rosto, o polegar acariciando suavemente sua bochecha. “Eu fui um covarde. Fui um imbecil egoísta. E a maior perda da minha vida foi você.”
O som de seus passos ecoou no corredor, e Dona Elza apareceu na porta da sala de estar, seu rosto inexpressivo como sempre. “Com licença, senhor Fernando. O Dr. Almeida está aguardando na biblioteca. Ele pediu para avisá-lo que o tempo é curto.”
O nome do advogado, Dr. Almeida, fez Duda se contrair. Mais uma peça no tabuleiro de xadrez da família Vasconcelos. Mais um lembrete do acordo que a prendia.
“Eu… eu não preciso mais disso”, Fernando disse, seu olhar ainda preso no de Duda, como se ele a visse como a única coisa que importava no mundo. “Diga ao Dr. Almeida que a reunião está cancelada. Por enquanto.”
Dona Elza assentiu com um leve aceno de cabeça, sua expressão imutável, e retirou-se com a mesma discrição com que apareceu. O silêncio voltou a reinar, mais pesado agora, carregado de tudo o que não foi dito e de tudo o que foi.
“Você cancelou o seu encontro com o advogado?”, Duda perguntou, a voz ainda trêmula. “Por quê?”
“Porque eu não quero mais lidar com esse acordo, Duda. Eu não quero mais que ele seja um obstáculo entre nós. Eu quero você de volta.” A sinceridade em sua voz era inegável, e isso a assustava ainda mais.
“Você acha que é tão simples assim?”, ela riu, um riso amargo, desprovido de qualquer alegria. “Você acha que pode simplesmente vir aqui, dizer ‘eu te amo’ e fazer tudo voltar ao que era antes? A vida não é uma novela, Fernando!”
“Eu sei que não é. E eu sei que te magoei. Mas eu estou disposto a fazer o que for preciso para reconquistar sua confiança. Para te provar que eu mudei.” Ele segurou as mãos dela, as palmas quentes e firmes. Duda sentiu um arrepio percorrer seu corpo, uma mistura de repulsa e uma atração irresistível.
“Mudar? E como eu saberia disso? Como eu poderia acreditar em você depois de tudo? Você sumiu, Fernando. Desapareceu sem explicações. Me deixou sozinha para lidar com as consequências de um acordo que eu nem sequer entendi direito quando assinei.” A voz dela subiu de tom, a raiva emergindo das profundezas de sua dor.
“Eu sei. E eu me arrependo todos os dias. Na época, eu estava… confuso. Pressionado. Minha família… meu pai…” Ele hesitou, a menção do Coronel Antônio Vasconcelos trazendo uma sombra para seus olhos. “Ele tinha planos para mim, Duda. Planos que não incluíam você. E eu fui fraco demais para lutar contra isso. Eu preferi fugir do que enfrentar a batalha.”
Duda olhou para ele, a decepção misturada à raiva em seus olhos. A mesma fraqueza, a mesma covardia que ela presenciou anos atrás. “Então, nada mudou mesmo”, ela murmurou, puxando as mãos de volta. “Você ainda é o mesmo homem, escravo da vontade do seu pai.”
“Não, Duda! Eu não sou mais! O Coronel… ele não tem mais o mesmo poder sobre mim. Ele está doente, enfraquecido. E eu… eu finalmente tenho a chance de tomar as minhas próprias decisões.” Ele se aproximou novamente, seu olhar intenso e suplicante. “E a minha decisão é você. Eu quero me casar com você, Duda. De verdade. Sem acordos, sem pressão. Apenas nós dois.”
O coração de Duda disparou. Casar com ele? Depois de tudo? A ideia era absurda, tentadora e aterrorizante ao mesmo tempo. Ela se lembrou do dia em que assinou aquele acordo, um contrato que prometia uma vida de segurança financeira em troca de… de quê, exatamente? Ela nunca soube. Apenas que era uma forma de proteger sua família, de afastar as dívidas que ameaçavam engolir sua mãe. E Fernando, com seus olhos cheios de promessas, a convenceu de que era o melhor a fazer.
“Eu não sei se posso, Fernando”, ela disse, a voz baixa, quase inaudível. “Eu não sei se consigo confiar em você de novo. O que você fez comigo… isso deixou cicatrizes profundas.”
“Eu sei. E eu estou disposto a passar o resto da minha vida tentando curá-las. Eu te amo, Duda. Mais do que a minha própria vida. E eu não vou desistir de você.” Ele deu um passo à frente, emoldurando o rosto dela com as mãos mais uma vez. Desta vez, Duda não recuou. Permitiu que ele a olhasse, que visse a batalha travada em seus olhos.
“Você sabe que eu me tornei artista, não sabe?”, ela perguntou, a voz um sussurro. “Eu crio arte a partir de coisas quebradas, de sucata. Eu transformo o feio em bonito.”
Fernando sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. “Eu sei. Eu vi algumas das suas exposições. Você é incrível, Duda. Você sempre foi. Sua arte… ela reflete a beleza que existe em você, a força que te move.”
“E se eu for apenas sucata, Fernando? Se eu for apenas algo quebrado que você quer consertar para se exibir?”, ela o desafiou, buscando uma fraqueza, uma brecha em sua sinceridade.
“Você nunca foi sucata para mim, Duda. Você sempre foi a inspiração. A musa. A mulher que me mostrou o que era o amor verdadeiro.” Ele inclinou a cabeça, seus lábios se aproximando dos dela. Duda sentiu o mundo girar. O perfume de rosas, o cheiro amadeirado dele, o calor de sua pele. Era tudo tão familiar, tão reconfortante e tão perigoso.
Ela fechou os olhos, esperando o beijo. E quando os lábios dele encontraram os seus, uma torrente de memórias a atingiu com a força de um maremoto. O primeiro beijo, os beijos apaixonados, os beijos cheios de promessas. E, em seguida, a escuridão. O silêncio. A ausência.
O beijo era terno, hesitante no início, mas logo se aprofundou, carregado de anos de saudade, de arrependimento e de um amor que se recusava a morrer. Duda se permitiu sentir, por um momento, a doçura daquele reencontro. Mas, em seguida, a realidade a atingiu como um soco no estômago.
Ela se afastou bruscamente, ofegante, os olhos arregalados. “Não”, ela sussurrou, a voz rouca. “Eu não posso.”
Fernando a olhou, a confusão e a decepção em seu rosto. “Por quê, Duda? O que está te impedindo?”
“O acordo, Fernando! O maldito acordo! Ele ainda existe. E a sua família… a sua reputação… você acha que eles vão aceitar uma artista de rua como sua esposa? Você acha que o Coronel Vasconcelos vai permitir isso?” As palavras saíram em um jorro, a ansiedade tomando conta dela.
“Eu não me importo com o que eles pensam!”, Fernando declarou, a voz firme. “Eu me importo com você!”
“Mas eu me importo!”, Duda retrucou. “Eu não quero ser a causa de mais escândalos para a sua família. Eu não quero ser o motivo de mais desavenças. Eu não quero ser um peão no seu jogo de poder.”
“Não é um jogo para mim, Duda. É a minha vida. E você faz parte dela.” Ele a segurou pelos braços, o olhar sério. “O acordo… ele foi assinado sob falsas premissas. Ele pode ser anulado. Eu vou provar isso. Vou provar para você, para minha família, para o mundo, que o meu lugar é ao seu lado.”
Duda o encarou, buscando em seus olhos uma verdade que pudesse apagar anos de mentiras e traições. Havia algo ali, uma determinação que ela não via antes. Mas o medo ainda a consumia. O medo de se entregar novamente, de ser quebrada mais uma vez.
“Eu… eu preciso pensar, Fernando”, ela disse, a voz baixa. “Eu não posso decidir isso agora.”
Fernando assentiu, um misto de compreensão e resignação em seu rosto. “Eu entendo. Mas por favor, não demore muito. O tempo está passando, Duda. E eu não posso mais viver sem você.” Ele a soltou suavemente, mas o toque de suas mãos permaneceu em sua pele.
“Eu vou… eu vou voltar para o meu ateliê”, Duda disse, sentindo a necessidade de fugir, de se recompor.
“Eu te levo”, Fernando ofereceu.
Duda balançou a cabeça. “Não. Eu prefiro ir sozinha.”
Ela se virou e saiu da sala de estar, deixando Fernando para trás, imerso em seus pensamentos. Ao atravessar o hall, seus olhos pousaram em um retrato a óleo do Coronel Antônio Vasconcelos, um homem de olhar severo e semblante implacável. A imagem parecia zombar dela, um lembrete constante dos obstáculos que a separavam de Fernando.
Do lado de fora, o sol já estava se pondo, lançando longas sombras sobre o jardim de rosas. O perfume das flores, antes suave e convidativo, agora parecia sufocante, um lembrete do amor e da traição que se entrelaçavam em sua vida. Ela sabia que precisava tomar uma decisão, mas seu coração estava dividido entre o desejo de se entregar a Fernando e o medo de se perder novamente. O pacto de silêncio que a ligava a ele, e à sua família, estava prestes a ser quebrado, e Duda sentia que estava prestes a enfrentar a maior tempestade de sua vida.
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Capítulo 3 — A Sombra da Desconfiança e o Chamado da Arte
O ar da noite em São Paulo era um convite à melancolia. Duda dirigia em silêncio, as luzes da cidade refletindo no para-brisa molhado pela garoa fina que começara a cair. Cada gota de chuva parecia lavar um pedaço de sua alma, levando consigo um pouco da confusão e da angústia que Fernando havia despertado. Ela sentia a necessidade de voltar para o seu refúgio, para o seu ateliê, onde a sucata se transformava em vida sob suas mãos.
Seu ateliê era um galpão antigo, nos fundos de um terreno baldio no bairro da Mooca. Um lugar esquecido, longe dos holofotes e do luxo que tanto a assustava. Ali, rodeada por pedaços de metal enferrujado, engrenagens, fios e peças de automóveis descartados, Duda se sentia em casa. Aquele era o seu santuário, onde ela podia dar vazão à sua criatividade e afogar as mágoas no trabalho.
Ao estacionar o carro, ela respirou fundo o cheiro característico de óleo, metal e poeira. Era um perfume cru, honesto, diferente do aroma artificial e opressor das rosas. Com a chave na mão, ela abriu a pesada porta de metal, que rangeu em protesto. A luz fraca que vinha de algumas luminárias penduradas no teto revelava o caos organizado de seu espaço de trabalho. Esculturas inacabadas se espalhavam pelo chão, ferramentas estavam espalhadas sobre as bancadas, e a luz do luar, filtrada pelas janelas sujas, criava um jogo de sombras misterioso.
Ela caminhou até a sua bancada principal, onde estava uma escultura em andamento: um pássaro com asas abertas, feito de peças de bicicleta e molas enferrujadas. Era um símbolo de liberdade, algo que ela almejava mais do que tudo. Duda pegou uma lixa e começou a trabalhar nas asas do pássaro, o som áspero do metal contra metal preenchendo o silêncio. Era um ritmo familiar, reconfortante.
Mas a imagem de Fernando persistia em sua mente. Seus olhos azuis, sua confissão de amor, o beijo que a fez esquecer de tudo por um instante. A desconfiança, no entanto, era um muro intransponível. Ela havia sido enganada antes, e o medo de ser enganada novamente a paralisava. O acordo. A família Vasconcelos. O poder de seu pai. Tudo isso pesava em sua decisão.
“Eu preciso ser forte”, ela murmurou, continuando a lixar as asas do pássaro. “Eu não sou mais a Duda de antes. Eu sou uma artista. Eu sou independente.”
Uma batida na porta a fez sobressaltar. Quem poderia ser a essa hora? Duda olhou para a porta, o coração acelerado. Não era Fernando, ela tinha certeza. Ele teria ligado, mandado uma mensagem. Talvez fosse um dos seus poucos amigos, o Seu Jorge, o dono da oficina mecânica ali perto, que sempre a ajudava com peças.
Ela se aproximou da porta, a lixa ainda na mão, e espiou pelo olho mágico. Seu Jorge estava ali, com um sorriso no rosto e um pacote nas mãos. Duda suspirou aliviada e abriu a porta.
“Seu Jorge! Que surpresa boa!”, ela disse, o alívio em sua voz evidente.
“Boa noite, Duda! Trouxe umas peças que você pediu. Aquele motor antigo lá do ferro-velho que eu falei. Acho que você vai gostar. Tem umas engrenagens bem interessantes aí.” Ele entrou, o pacote nas mãos.
“Ah, que ótimo! Estava ansiosa por elas. Entra, por favor.” Duda o conduziu para dentro do ateliê. “Quer uma água? Um café?”
“Não, obrigado, minha filha. Só vim entregar as peças e dar uma olhada no seu trabalho. Ouvi dizer que a senhora Vasconcelos veio te visitar hoje. A família rica lá da Rua das Flores.” Seu Jorge comentou, olhando ao redor com curiosidade.
Duda sentiu um nó na garganta. “Sim, ele veio. Mas não tem nada a ver com a família dele. Era um assunto pessoal.”
Seu Jorge a olhou com atenção, percebendo a tensão em sua voz. Ele era um homem simples, mas com uma sabedoria que vinha da vida. “Assunto pessoal com o herdeiro Vasconcelos, né? Aquele rapaz bonito que sumiu e apareceu de novo. O mundo dá voltas, Duda.”
“O mundo dá voltas, mas algumas coisas não mudam, Seu Jorge”, Duda respondeu, pegando as peças que ele lhe entregou. “Ele veio falar sobre aquele acordo antigo.”
“Ah, aquele acordo… sempre achei aquilo estranho. Um contrato tão complicado para uma moça tão nova. A senhora sua mãe devia estar em apuros na época.” Seu Jorge comentou, seus olhos expressando uma preocupação genuína.
“Ela estava. E eu fiz o que pude para protegê-la. Mas agora… agora eu não sei o que fazer.” Duda sentou-se em um banquinho, olhando para as peças que Seu Jorge trouxe. Eram antigas, desgastadas, mas em suas mãos, poderiam ganhar uma nova vida.
“O rapaz ainda te ama?”, Seu Jorge perguntou, direto.
Duda hesitou. “Ele diz que sim. Mas eu não sei se acredito.”
“A desconfiança é um veneno lento, Duda. Destrói a gente por dentro. Se você não acredita nele, então talvez seja melhor seguir seu caminho. Mas se você sente algo por ele, se ainda existe amor, talvez valha a pena dar uma chance. Mas com os olhos bem abertos, viu?” Ele a advertiu, colocando a mão em seu ombro. “Não deixe que eles te manipulem de novo.”
As palavras de Seu Jorge ecoaram a própria voz de sua razão. Ela amava Fernando, amava a lembrança do homem que ele foi e a esperança do homem que ele poderia se tornar. Mas o medo de ser usada novamente era um fantasma persistente.
“Eu preciso pensar, Seu Jorge. Preciso encontrar a minha própria verdade nisso tudo.” Duda disse, pegando uma das engrenagens do pacote. Era pesada, cheia de marcas do tempo.
“É isso mesmo. Pense bem. E se precisar de qualquer coisa, é só me chamar. A gente é vizinho aqui, né? Uma mão lava a outra.” Ele sorriu.
“Obrigada, Seu Jorge. De verdade.” Duda sentiu uma onda de gratidão por aquele homem simples e gentil.
Seu Jorge se despediu, e Duda ficou sozinha novamente em seu ateliê. A garoa continuava a cair lá fora, e o som dela parecia acalmar sua mente agitada. Ela pegou a engrenagem em suas mãos e começou a girá-la lentamente. O metal frio em seus dedos a ancorou no presente.
Fernando queria que ela voltasse. Ele falava em anular o acordo, em um futuro juntos. Mas o retrato do Coronel Vasconcelos pairava em sua mente como uma nuvem negra. Aquele homem poderoso, implacável. Ela sabia que ele nunca aceitaria uma união entre seu herdeiro e uma artista de rua como ela. E Fernando, apesar de suas palavras, seria capaz de enfrentar seu próprio pai por ela? Ou seria apenas mais uma promessa vazia?
Duda voltou para sua bancada e pegou a lixa novamente. Começou a trabalhar nas asas do pássaro com mais intensidade, como se pudesse lixar para longe todas as suas dúvidas e medos. A arte era seu refúgio, seu escape. Era onde ela podia controlar seu próprio destino.
“Eu preciso criar algo que represente essa batalha”, ela pensou alto, olhando para as peças espalhadas ao seu redor. “Algo que mostre a força da minha arte, a minha independência.”
Ela pegou um pedaço de metal retorcido, que um dia fora parte de um carro, e começou a moldá-lo. A imagem de Fernando ainda estava lá, mas agora misturada com a imagem de si mesma, forte e resiliente. Ela imaginou um coração, feito de peças brutas e inacabadas, mas com uma beleza única e uma força surpreendente. Um coração que lutava para se libertar, para bater no seu próprio ritmo.
Enquanto trabalhava, Duda sentia a raiva se transformar em inspiração. A frustração em determinação. A arte era sua voz, seu grito. E ela usaria essa voz para se fazer ouvir, para se afirmar.
Ela não sabia o que o futuro reservava. Se Fernando seria capaz de cumprir suas promessas, se a família Vasconcelos a aceitaria, se ela seria capaz de confiar nele novamente. Mas ela sabia de uma coisa: ela não seria mais a mesma Duda de antes. Ela era uma artista. E sua arte falava mais alto que qualquer acordo, qualquer promessa, qualquer amor perdido. Ela criaria seu próprio caminho, com ou sem Fernando. E se ele a quisesse, teria que aceitá-la como ela era, com todas as suas cicatrizes e toda a força que a arte lhe dava.
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Capítulo 4 — O Casarão Sombrio e as Verdades Ocultas
O casarão dos Vasconcelos, que antes parecia um santuário de riqueza, agora se manifestava para Duda como um labirinto sombrio, repleto de segredos e de olhares julgadores. Fernando havia insistido em levá-la para um jantar “familiar”, uma tentativa, ela sabia, de apresentá-la ao seu mundo e, quem sabe, de começar a quebrar as barreiras que os separavam. Mas a ideia a deixava apreensiva. A última vez que pisara naquele lugar, havia saído com o coração em pedaços e um acordo assinado que definia o rumo de sua vida.
Ao chegarem, o porteiro reconheceu Fernando instantaneamente e abriu os imponentes portões com um aceno reverente. Duda sentiu o olhar de Dona Elza, que esperava por eles na entrada, mais penetrante do que nunca. A governanta era um espelho da frieza da casa, uma guardiã implacável dos segredos da família.
“Boa noite, senhor Fernando. Senhorita Maria Eduarda”, ela disse, a voz formal, sem qualquer calor humano. “O senhor Coronel já está à espera na sala de jantar. Ele não tem passado bem e prefere refeições mais leves.”
“Obrigado, Dona Elza”, Fernando respondeu, sua mão pousando levemente nas costas de Duda, um gesto de apoio que ela apreciou, apesar de seus receios.
A sala de jantar era tão grandiosa quanto a sala de estar, com uma longa mesa de mogno polido, adornada com um arranjo de flores delicadas e talheres de prata que reluziam sob a luz dos candelabros. O Coronel Antônio Vasconcelos estava sentado à cabeceira da mesa, um homem magro e frágil, mas com um olhar ainda aguçado e penetrante. Seu rosto, marcado pelo tempo e pela doença, exibia uma expressão de permanente desaprovação.
Ao lado dele, sentada de forma impecável, estava Dona Cecília, a mãe de Fernando. Uma mulher elegante, com cabelos prateados e um sorriso que não alcançava seus olhos. Duda sentiu o peso do olhar dela sobre si, um escrutínio silencioso que a fez sentir-se ainda mais deslocada.
“Fernando, meu filho”, Coronel Vasconcelos disse, sua voz rouca, mas carregada de autoridade. “Você finalmente decidiu nos honrar. E trouxe uma… convidada.” O sotaque carregado de desprezo na última palavra era inconfundível.
Fernando apertou a mão de Duda com mais força. “Pai, esta é Maria Eduarda. Duda, você já conhece minha mãe.”
Dona Cecília se levantou e se aproximou de Duda, estendendo a mão com um gesto calculado. “Maria Eduarda. É um prazer conhecê-la. Ouvi muito sobre você.” A frieza em sua voz era palpável.
“O prazer é meu, Dona Cecília”, Duda respondeu, forçando um sorriso, tentando manter a compostura.
O jantar transcorreu em um silêncio constrangedor, pontuado por poucas palavras ditas pelo Coronel Vasconcelos, sempre críticas e carregadas de desdém. Ele questionou Fernando sobre os negócios da família, sobre o futuro, mas seus olhos frequentemente se voltavam para Duda, como se tentasse decifrá-la ou, mais provavelmente, encontrasse uma falha em sua armadura.
“Então, Maria Eduarda”, o Coronel disse, após um longo período de silêncio. “Fernando nos contou que você é… artista.” A palavra saiu como um insulto.
“Sim, senhor Coronel. Eu trabalho com escultura, transformando materiais reciclados em arte”, Duda respondeu, a voz firme, tentando não se deixar abalar pela hostilidade.
“Arte reciclada?”, ele zombou. “Interessante. E isso te dá o suficiente para viver bem?”
“Eu vivo do meu trabalho, senhor. E tenho orgulho dele”, Duda retrucou, sentindo o sangue subir ao rosto.
Fernando interveio rapidamente. “Pai, Duda é uma artista talentosa. Ela tem um futuro promissor.”
“Futuro promissor, mas sem lastro, não é, Fernando?”, o Coronel rebateu, seu olhar fixo no filho. “Você sabe que a família Vasconcelos sempre prezou pela estabilidade, pela solidez. E você… você parece ter se desviado do caminho.”
Dona Cecília lançou um olhar repreensor a Fernando. “Fernando, seu pai está preocupado com você. Com o seu futuro. E com o futuro da família.”
Duda sentiu a pressão. Ela era o ponto focal da desaprovação deles, a prova viva de que Fernando havia se desviado do caminho que eles traçaram para ele. Ela se sentia como uma intrusa, uma aberração naquele mundo de regras e tradições.
Após o jantar, enquanto Dona Cecília e Dona Elza retiravam a mesa, Fernando conduziu Duda para a biblioteca, um cômodo vasto e silencioso, repleto de livros antigos e o cheiro forte de couro e papel. A luz fraca criava uma atmosfera de mistério.
“Eu sinto muito, Duda”, Fernando disse, sentando-se em uma poltrona de couro. “Meu pai nunca foi fácil. E minha mãe… ela se preocupa com a imagem da família.”
“Eu percebi”, Duda respondeu, sentando-se em frente a ele. “Eles não me veem como uma boa companhia para você, não é?”
“Eles não entendem. Eles não te conhecem. Eles veem apenas o que querem ver. Uma artista de rua, sem berço, sem fortuna.” Fernando suspirou. “Eles não sabem do acordo que você assinou anos atrás. Não sabem dos detalhes. E eu acho que é melhor assim, por enquanto.”
“Por que por enquanto, Fernando?”, Duda perguntou, a desconfiança voltando à tona. “Você disse que ia anular aquele acordo.”
“E eu vou! Eu já pedi ao Dr. Almeida para preparar toda a documentação. Mas é um processo… complicado. Preciso ter certeza de que tudo será feito corretamente, para que não haja brechas no futuro.” Ele olhou para ela, a urgência em seus olhos. “E eu preciso que você confie em mim, Duda. Que me dê tempo.”
“Tempo? Eu já esperei anos, Fernando. Anos sozinha, lutando para construir uma vida. Você aparece agora, com promessas de amor e de um futuro juntos, e me pede para confiar em você de novo? Como eu posso, quando vejo seus pais te olhando como se eu fosse a pior coisa que aconteceu na sua vida?”
“Porque eu não sou mais o mesmo”, Fernando insistiu, levantando-se e aproximando-se dela. “Eles não me controlam mais. Eu vou lutar por nós, Duda. Eu vou provar para eles, e para você, que o nosso amor é mais forte do que qualquer acordo ou preconceito.”
Ele se ajoelhou diante dela, pegando suas mãos. Duda sentiu o calor de suas palmas, mas também a fragilidade de sua posição. Ela sabia que ele a amava, mas o peso da família Vasconcelos era imenso.
“Eu me lembro de quando você me disse que sonhava em construir um mundo onde a arte fosse valorizada, onde a beleza pudesse ser encontrada em qualquer lugar”, Fernando disse, seus olhos fixos nos dela. “Você sempre acreditou nisso, Duda. E eu quero te ajudar a construir esse mundo. Começando pelo nosso próprio mundo.”
Duda o encarou, o coração dividido entre o desejo de acreditar e o medo do fracasso. Ela sabia que Fernando amava a arte, que ele admirava seu trabalho. Mas seria isso suficiente para enfrentar a resistência de sua família?
“E se não der certo, Fernando?”, ela perguntou, a voz trêmula. “E se eles não aceitarem? E se você não conseguir anular o acordo?”
“Então nós encontramos outro caminho”, Fernando respondeu com firmeza. “Mas eu não vou desistir de você. Nunca mais.”
Ele se levantou e a puxou para um abraço. Duda se permitiu ser envolvida por ele, sentindo o calor de seu corpo, o cheiro familiar que a acalmava e a perturbava ao mesmo tempo. Ela sabia que a luta seria árdua, que as verdades ocultas da família Vasconcelos poderiam vir à tona e complicar ainda mais as coisas.
Enquanto estava nos braços de Fernando, ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A atmosfera do casarão, que antes parecia opressora, agora ganhava uma aura de mistério e de perigo. Havia mais do que apenas preconceito naquela casa. Havia segredos. E Duda sentiu que estava prestes a descobrir alguns deles.
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Capítulo 5 — O Segredo do Acordo e a Força da Vulnerabilidade
A noite no casarão Vasconcelos se estendia, cada minuto carregado de uma tensão latente. Duda sentia-se observada, não apenas pelos olhos de Fernando, mas pelas paredes que pareciam guardar histórias não contadas, por objetos que sussurravam segredos há muito enterrados. Fernando, percebendo sua inquietação, a conduziu para um pequeno terraço com vista para o jardim, onde o aroma das rosas era mais suave, quase melancólico sob a luz da lua.
“Você está tensa”, Fernando comentou, sentando-se ao lado dela em um banco de pedra fria. “Eu sei que este lugar não é o seu. Mas eu queria que você visse que eu também luto contra eles, Duda. Que eu não sou mais o filho obediente que aceita tudo calado.”
“Eu vejo, Fernando”, Duda respondeu, olhando para as estrelas. “Mas a força deles é imensa. E o seu acordo… ainda existe. O que exatamente ele me obriga a fazer? Eu nunca soube os detalhes.”
Fernando hesitou. Seus olhos azuis, geralmente tão expressivos, agora pareciam esconder uma relutância. “Era… era um acordo complexo. Para garantir a proteção financeira da sua família. E, em troca, você se comprometeria a… a ficar distante de mim, caso eu me casasse com outra pessoa. Uma garantia para o meu pai, de que a minha vida familiar não seria abalada.”
Duda sentiu um arrepio. “Distante de você? Quer dizer que se você se casasse, eu teria que ir embora?”
“Era uma cláusula para o caso de eu não cumprir a promessa de não me envolver com ninguém que pudesse desestabilizar os planos dele. Uma proteção para ele, caso eu não fizesse o que ele queria.” Fernando suspirou, a voz carregada de auto-aversão. “Eu era um idiota. Um covarde. Fui manipulado para assinar aquilo, e você, inocente, foi usada como moeda de troca.”
“E por que você nunca me contou isso antes?”, Duda perguntou, a voz embargada pela emoção. “Por que me deixou sofrendo sem saber a verdade?”
“Eu estava com medo, Duda. Com medo do meu pai, com medo de perder você. E eu pensei que, ao me afastar, eu te protegeria. Eu estava errado. Foi a pior decisão da minha vida.” Ele pegou a mão dela, seus dedos entrelaçando-se. “Mas agora, eu vou consertar tudo. Eu já pedi ao Dr. Almeida para preparar a anulação do acordo. Ele está cuidando disso.”
“Anulação… E se ele não conseguir?”, Duda perguntou, a voz soando frágil.
“Ele vai conseguir. Eu vou garantir que consiga. E se ele não conseguir, eu vou encontrar outro jeito. Eu não vou deixar que aquele papel ridículo nos separe nunca mais.” Fernando a puxou para mais perto, seu olhar fixo no dela. “Eu te amo, Duda. E eu quero você ao meu lado. Sem acordos, sem amarras. Apenas nós dois.”
Duda sentiu seu coração se aquecer com a sinceridade em sua voz, mas o medo ainda a assombrava. A ideia de se entregar completamente a ele, de arriscar tudo novamente, era assustadora. Ela tinha construído uma vida sólida, independente. Perder isso seria devastador.
“Eu não sei se consigo, Fernando”, ela sussurrou, a vulnerabilidade transparecendo em sua voz. “Eu tenho medo de ser quebrada de novo.”
“Eu sei que você tem. E eu não vou te apressar. Mas por favor, me dê uma chance de te provar que eu sou diferente. Que o meu amor por você é verdadeiro.” Ele se inclinou e a beijou suavemente nos lábios, um beijo terno, cheio de promessas.
De repente, a porta do terraço se abriu. Dona Cecília estava ali, seu rosto contorcido em uma expressão de fúria contida. Ao seu lado, o Coronel Antônio Vasconcelos, apoiado em uma bengala, seu olhar severo fixo em Duda.
“O que significa isso, Fernando?”, o Coronel perguntou, sua voz rouca e cheia de repreensão. “Eu pensei que você tivesse mais respeito pela família do que vir com essa… essa moça para dentro da nossa casa, se exibindo dessa forma.”
Fernando se levantou, protegendo Duda com seu corpo. “Pai, Duda é a mulher que eu amo. E ela não é uma exibição. Ela é a minha futura esposa.”
Dona Cecília soltou um suspiro agudo. “Futura esposa? Fernando, você enlouqueceu? Você não pode se casar com ela! Ela não tem nada! Ela não pertence ao nosso mundo!”
“O meu mundo é onde você estiver, mãe”, Fernando retrucou, sua voz firme, mas carregada de dor. “E se isso significa que eu tenho que enfrentar vocês, então assim será.”
O Coronel Antônio Vasconcelos riu, uma risada seca e sem humor. “Você acha que vai nos enfrentar? Você é um Vasconcelos, Fernando! Você tem responsabilidades! E essa mulherzinha aqui”, ele apontou para Duda com a bengala, “ela é apenas uma distração passageira. Ela vai te arruinar.”
Duda sentiu o sangue ferver. A humilhação, a raiva, a injustiça. Ela não era uma distração, não era uma ameaça. Ela era uma mulher com seus próprios sonhos e sua própria força.
“Senhor Coronel”, Duda disse, dando um passo à frente, sua voz surpreendentemente calma. “Eu não sou uma distração. Eu sou uma artista. E eu sou a mulher que o seu filho ama. Se você não pode aceitar isso, então o problema não é meu, é seu.”
O Coronel a olhou com desdém. “Você acha que tem o direito de falar assim comigo? Você não sabe quem eu sou, nem o que eu sou capaz de fazer.”
“Eu sei que você é um homem que tenta controlar a vida do próprio filho, e que não aceita nada que fuja do seu padrão”, Duda respondeu, seus olhos fixos nos dele. “Mas o amor não se controla, senhor. E o Fernando é um homem livre para amar quem ele quiser.”
Fernando apertou a mão de Duda com força. “Ela está certa, pai. Eu sou livre. E eu escolho a Duda.”
O Coronel Vasconcelos olhou para o filho, depois para Duda, uma expressão de fúria contida em seu rosto. “Você vai se arrepender disso, Fernando. Eu garanto.”
Dona Cecília, com os olhos cheios de lágrimas de raiva e decepção, puxou o marido pela manga. “Vamos, Antônio. Não vale a pena discutir com essa gente.”
Eles se viraram e saíram do terraço, deixando Fernando e Duda sozinhos novamente, imersos em um silêncio carregado de emoções. Duda sentiu as pernas tremerem. Ela tinha enfrentado o Coronel Vasconcelos e sobrevivido. Mas o confronto havia revelado a profundidade da oposição que eles enfrentariam.
“Você foi incrível, Duda”, Fernando disse, abraçando-a com força. “Você é a mulher mais forte que eu conheço.”
“Eu só não quero mais ser tratada como inferior, Fernando”, Duda respondeu, encostando a cabeça em seu peito. “Eu tenho orgulho do que sou, e do que faço. E se o seu amor por mim significa enfrentar tudo isso, então eu estou disposta a lutar.”
Fernando a levantou do chão, girando-a nos braços. “E nós vamos lutar, Duda. Juntos. Eu vou anular aquele acordo, e vamos construir o nosso próprio futuro. Um futuro onde a arte de amar é a única lei.”
Enquanto Fernando a segurava, Duda sentiu uma onda de esperança misturada à apreensão. O caminho seria longo e difícil, mas pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que não estava mais sozinha. A sombra do passado ainda pairava sobre eles, mas a força de seu amor, e a coragem de sua vulnerabilidade, poderiam ser a chave para desvendar os segredos da família Vasconcelos e, finalmente, libertá-los.