O Último Beijo 152

O Último Beijo 152

por Ana Clara Ferreira

O Último Beijo 152

Capítulo 11 — A Tempestade Interior de Helena

O ar em Arraial do Cabo parecia ter mudado. Não era apenas o cheiro salgado do mar ou a brisa que antes acariciava a pele de Helena com promessas de paz. Agora, cada sopro trazia consigo um eco de dor, uma lembrança cruel do que ela havia descoberto. A caixa de memórias, antes guardada com carinho, tornara-se um baú de tormentos. As cartas de sua mãe, a declaração de amor de um homem que ela mal conhecia, a verdade sobre o destino de sua avó – tudo se misturava em um redemoinho que ameaçava engoli-la.

Sentada na varanda da pousada, com o olhar perdido no azul infinito do oceano, Helena sentia-se à deriva. O sol, outrora um aliado, agora parecia zombar de sua desolação, lançando raios que ardiam como fagulhas em suas feridas abertas. As palavras de Elias, o velho pescador com seus olhos de mar profundo, ainda ecoavam em sua mente: "O mar guarda segredos, moça. E às vezes, ele os devolve com a força de um tsunami." Ele não podia ter previsto o tsunami que devastaria a alma de Helena.

Ela pegou uma das cartas, a caligrafia elegante e familiar de sua mãe, Carolina. Cada palavra era um golpe, um lembrete da vida que lhe fora negada, das escolhas que foram feitas por ela, sem seu consentimento. "Minha querida Helena, se um dia você ler isto, saiba que o fiz por amor. Um amor desesperado, talvez, mas amor. O destino nos reservou caminhos tortuosos, e o meu foi o de proteger você, mesmo que isso significasse mentir. Aquele homem… ele não era quem dizia ser. E o amor que ele lhe oferecia, Helena, era uma armadilha."

Uma armadilha. A palavra ressoava em sua cabeça, fria e cortante. Ela sempre se sentiu atraída por Miguel, uma atração quase magnética que desafiava a razão. Agora, com a verdade nua e crua, essa atração parecia maculada, transformando-se em repulsa. Miguel, o homem que prometera um futuro brilhante, que a olhava com uma intensidade que a desarmava, seria capaz de tanta crueldade? De forjar uma história, de manipular seus sentimentos?

Seus dedos tremiam ao segurar a carta. Lembrou-se do último beijo que dera nele, na praia, sob o luar, momentos antes de descobrir a caixa. Um beijo carregado de paixão, de promessas sussurradas. Agora, a memória desse beijo lhe causava náuseas. Seria aquele o "último beijo" que o destino lhe reservara com Miguel? Um beijo de despedida, sem que ela soubesse?

O som de uma voz a tirou de seu torpor. "Helena?"

Era Miguel. Ele estava ali, parado a poucos metros, com seu sorriso que antes a fazia derreter, mas que agora lhe causava um arrepio de desconfiança. A luz do sol realçava o brilho em seus olhos, mas Helena não via mais a ternura. Via estratégia, via um roteiro bem ensaiado.

"Miguel," ela disse, a voz embargada, tentando controlar a raiva que borbulhava em seu peito.

"Você parece… distante," ele continuou, aproximando-se. "Tudo bem?"

"Tudo bem?", Helena riu, um som seco e sem humor. "Como você pode perguntar se está tudo bem?"

Miguel a observou, a testa franzida em uma expressão de preocupação que Helena agora via como falsa. "O que aconteceu? Você sumiu o dia todo."

"Eu estava processando," ela respondeu, os olhos fixos nos dele. "Processando tudo o que eu descobri."

A expressão de Miguel mudou. Uma leve tensão apareceu em seus ombros, um tremor quase imperceptível em seus lábios. Ele sabia. Helena tinha certeza.

"Elias te contou algo?", ele perguntou, o tom mais cauteloso.

"Elias? Não. Eu descobri sozinha. Naquela caixa. A sua caixa, Miguel."

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de verdades não ditas. O vento pareceu soprar mais forte, agitando as palmeiras, como se a natureza também sentisse a tensão no ar.

"Carolina...", Miguel começou, a voz baixa.

"Não se atreva a dizer o nome dela como se fosse uma vítima!", Helena o interrompeu, levantando-se abruptamente. O copo de água em sua mão tremeu, e algumas gotas caíram no chão de madeira. "Ela mentiu para mim a vida toda! Ela me manteve longe da verdade, me privou de conhecer quem eu realmente sou!"

"Helena, você não entende...", ele tentou novamente.

"Eu entendo perfeitamente, Miguel! Eu entendo que você sabia de tudo. Que você sabia sobre minha mãe, sobre o meu pai, sobre a herança da minha avó. E você… você se aproximou de mim com essa história de amor, explorando a minha ignorância!"

As palavras saíram como flechas, certeiras e cruéis. Miguel deu um passo para trás, a expressão de preocupação substituída por uma máscara de dor e, talvez, de resignação.

"Não é assim que as coisas aconteceram, Helena. Pelo menos, não do jeito que você pensa."

"E como foram, Miguel? Explique-me. Conte-me a sua versão. A versão de quem planejou tudo isso. A versão de quem manipulou os sentimentos de uma garota que só queria encontrar um lugar no mundo!"

Seu peito arfava, a adrenalina correndo em suas veias. Ela estava furiosa, mas por baixo da raiva, sentia um medo avassalador. O medo de ter sido enganada, o medo de que tudo o que ela sentiu por ele fosse uma farsa.

"Eu nunca menti sobre o que sinto por você, Helena," Miguel disse, a voz rouca. "O meu amor por você é real. A conexão que temos… isso não foi planejado."

"Conexão?", ela gargalhou, a voz quebrando. "Você chama isso de conexão? De me usar para ter acesso à minha família, para se vingar de algo que nem sei o que é?"

"Vingança? Que vingança, Helena? Eu não quero vingança. Eu quero você." A intensidade em seus olhos era palpável, mas Helena já não conseguia distinguir o amor da obsessão, a verdade da mentira.

"Você quer o que eu represento, Miguel. Você quer o nome, o dinheiro, o poder. Você não quer a mim."

"Você é a única coisa que me importa!", ele exclamou, dando um passo à frente, a urgência em sua voz.

Helena recuou, o corpo tensionado. Ela sentia o cheiro dele, uma mistura de maresia e o perfume que ela conhecia tão bem. Era o perfume do homem que ela acreditava amar, o homem que agora era um estranho.

"Não chegue perto de mim," ela ordenou, a voz firme apesar do tremor interior. "Eu não quero mais ouvir você. Eu não quero mais ver você."

Miguel parou, o corpo curvado em derrota. A esperança em seus olhos se apagou, dando lugar a uma tristeza profunda. Ele a olhou por um longo momento, como se tentasse memorizar cada detalhe de seu rosto, como se soubesse que aquele era o fim.

"Helena… por favor," ele sussurrou.

"Adeus, Miguel."

Com isso, Helena se virou e entrou na pousada, deixando-o sozinho na varanda, sob o sol impiedoso, com o som do mar como única companhia. O oceano, que antes lhe trazia serenidade, agora parecia um espelho de sua própria turbulência. A tempestade em seu interior havia apenas começado.

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