O Último Beijo 152
Capítulo 17 — O Encontro Inesperado e a Sombra da Dúvida
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 17 — O Encontro Inesperado e a Sombra da Dúvida
A noite avançava, mas para Helena o tempo parecia ter parado. Sentada na areia gelada, a caixa de madeira como única companhia, ela revivia cada palavra escrita por sua mãe. O diário e as cartas eram um espelho distorcido de uma vida que ela nunca imaginou existir. Arthur. João Pedro. Nomes que ecoavam em sua mente como ecos de um passado distante e doloroso. A busca por respostas a impulsionava, mas o medo da verdade a paralisava.
O que ela faria ao encontrar Arthur? Ele seria um homem amargurado, que carregava o peso de um amor perdido e de um filho que ele talvez nunca conhecera? Ou seria alguém que seguiu em frente, que construiu uma nova vida, alheio à dor que sua ausência causara? E João Pedro? Como seria encontrá-lo? Seria ele um reflexo de sua mãe, ou teria herdado traços de Arthur?
O céu estrelado, antes um espetáculo de beleza, agora parecia um lembrete da vastidão de sua ignorância. A vila adormecida, com suas luzes piscando timidamente, parecia distante da turbulência em sua alma. Ela se levantou, sentindo os músculos enrijecidos pela posição. Precisava de um plano. Precisava de um lugar para começar.
O nome de Arthur, gravado no verso da fotografia, era a única pista concreta que ela tinha. "Arthur", sua mãe o chamava de "Meu único e verdadeiro amor". A intensidade desse sentimento transparecia nas entrelinhas, um amor que desafiou convenções e provocou sacrifícios inimagináveis. Helena sentiu um misto de admiração e tristeza. Sua mãe, apesar de suas escolhas, havia amado profundamente.
Ela decidiu que precisava começar por onde sua mãe havia começado. A vila de Pescadores era o cenário de seus primeiros anos, o palco de seu romance com Arthur. Talvez ali, entre os moradores mais antigos, houvesse alguém que se lembrasse dele. O velho Elias, com sua sabedoria ancestral, certamente saberia de algo mais.
Voltando para seu quarto modesto, Helena guardou a caixa com cuidado. Dormir era impossível. A adrenalina e a ansiedade a mantinham em alerta. Ela pegou um caderno e uma caneta, decidindo anotar tudo o que se lembrava sobre a vida de sua mãe antes de ela se casar com seu pai. Nomes, lugares, eventos. Tudo poderia ser útil.
Ao amanhecer, com o sol nascendo timidamente sobre o mar, Helena já estava de pé, pronta para agir. O cheiro do café recém-passado na pousada onde se hospedava era um alívio momentâneo para a tensão em seu estômago. Ela procurou Elias, encontrando-o sentado em sua habitual cadeira de balanço na varanda de sua casa simples, os olhos fixos no horizonte azul.
"Bom dia, Elias", disse Helena, a voz um pouco rouca.
O velho pescador virou-se, um sorriso cansado, mas genuíno, iluminando seu rosto marcado pelo sol e pelo tempo. "Bom dia, minha menina. Noites mal dormidas, pelos vistos."
Helena se sentou em um banquinho próximo. "Elias, eu preciso lhe perguntar algo, algo que pode ser difícil para o senhor responder."
Elias a olhou com atenção. Ele sabia que a caixa revelara algo importante. "Diga, Helena. Não há segredos entre nós, sabe disso."
"Na caixa que a senhora Dona Laura me deixou", Helena começou, hesitando, "havia uma fotografia. Minha mãe, com um homem chamado Arthur. O senhor conhece esse nome? Arthur?"
Os olhos de Elias se estreitaram ligeiramente. Uma lembrança distante pareceu aflorar em sua mente. Ele franziu a testa, a testa enrugada aprofundando-se. "Arthur… Sim, lembro-me vagamente. Um rapaz de fora, que apareceu por aqui há muitos anos. Bonito, cheio de vida. Um pouco… diferente. Não era daqui, da nossa gente."
"Ele… ele era próximo da minha mãe?", Helena perguntou, o coração batendo mais forte.
Elias suspirou, olhando para o mar novamente. "Eles eram vistos juntos, sim. De vez em quando. Um amor que diziam ser impossível. Sua mãe era uma moça tão bonita, tão cheia de sonhos. E Arthur… ele parecia ser o tipo de homem que a faria voar. Mas o mundo, Helena, nem sempre permite que os corações voem livremente."
"O senhor sabe o que aconteceu com ele?", Helena insistiu.
"Não, minha menina. Ele sumiu tão de repente quanto apareceu. Disseram que a família dele o levou embora, que o proibiram de voltar. Um escândalo, sabe como são as famílias mais ricas. Não queriam nada com a nossa gente humilde." Elias fez uma pausa, seus olhos encontrando os de Helena. "Ele parecia ter partido o coração da sua mãe. Por um tempo, ela ficou desolada. Depois, apareceu seu pai, um bom homem, que a amou e a cuidou. Mas o primeiro amor… esse a gente nunca esquece completamente."
O coração de Helena apertou. A história parecia se encaixar, mas ainda havia lacunas assustadoras. Se Arthur era o pai de João Pedro, e se ele se fora por pressão familiar, seria possível que ele não soubesse da existência do filho? Ou talvez soubesse e, por algum motivo, não pudesse buscá-los?
"Elias", Helena disse, a voz embargada, "minha mãe teve outro filho. Um filho que ela nunca me contou. Um menino chamado João Pedro."
O rosto de Elias se transformou. A surpresa e a tristeza se misturavam em sua expressão. Ele olhou para Helena como se visse uma pessoa completamente nova. "Um filho? João Pedro? Meu Deus, Helena… Isso muda tudo."
"Eu acho que Arthur é o pai dele", Helena confessou, as palavras saindo em um sussurro.
Elias ficou em silêncio por um longo momento, absorvendo a informação. Ele parecia pesar cada palavra, cada possibilidade. "Se Arthur era o pai… e se ele se foi por pressão da família… talvez ele nunca tenha sabido. Ou talvez, se soubesse, a situação fosse impossível. As famílias de posses naquela época tinham um poder imenso. Podiam fazer qualquer coisa para manter a reputação."
"Mas como minha mãe conseguiu criar um filho sozinha? Ou se ela não o criou, para onde ele foi?", Helena perguntou, a voz cheia de angústia.
"Sua mãe era forte, Helena. Mais forte do que imaginávamos. Mas carregar esse segredo… deve ter sido um peso terrível. E quanto a João Pedro… não sei dizer para onde ele foi. Sua mãe era muito reservada sobre o que aconteceu depois que Arthur se foi." Elias colocou a mão sobre a de Helena. "Mas se você quer encontrar Arthur, talvez ainda haja um caminho. Se ele era de família rica, ele deve ter deixado um rastro. Algum nome, algum sobrenome, alguma empresa."
Helena pegou a fotografia novamente, estudando o rosto de Arthur. Ele parecia ter uns vinte e poucos anos, com cabelos escuros e olhos penetrantes. Havia uma nobreza em seu porte, uma aura de quem estava acostumado a ter o mundo a seus pés. "Eu não tenho um sobrenome dele, Elias. Apenas o nome. Arthur."
"Precisamos pensar", Elias disse, pensativo. "Sua mãe morava em uma cidade grande antes de vir para cá, não é? Talvez ele fosse de lá. Ou talvez tenha vindo para cá por algum motivo específico. Algum negócio, alguma propriedade."
Naquele momento, um carro moderno, destoando completamente do cenário modesto da vila, parou na rua principal. De dentro dele, desceu um homem elegante, na casa dos quarenta anos, vestindo um terno impecável. Ele parecia procurar por alguém. Helena o observou com atenção. Havia algo em seu rosto, na forma como ele se movia, que lhe pareceu vagamente familiar.
O homem caminhou na direção da pousada, e Elias o seguiu com o olhar. "Quem é esse? Nunca o vi por aqui."
O homem se aproximou de Helena e Elias, um semblante de curiosidade e talvez um pouco de desconforto em seu rosto. Ele parou a alguns metros de distância, como se hesitando em se aproximar demais. "Com licença", ele disse, a voz educada, mas com um tom de autoridade. "Estou procurando por uma jovem. Helena, você se chama Helena?"
Helena se virou, o coração disparado. "Sim, sou eu. Quem é o senhor?"
O homem a estudou por um momento, seus olhos percorrendo o rosto dela com uma intensidade que a fez sentir como se estivesse sendo dissecada. "Meu nome é Ricardo Alencar. Eu… eu soube que sua mãe, Dona Laura, havia falecido. E que você estava aqui na vila."
Ricardo Alencar. O nome não dizia nada a Helena. Mas havia algo no olhar dele que a perturbava. Uma sombra de algo que ela não conseguia decifrar. "Como o senhor sabe sobre mim?", Helena perguntou, desconfiada.
"Eu… eu a conhecia de vista. Frequentava a pousada onde a senhora está hospedada. E eu sabia que sua mãe era uma pessoa muito especial." Ricardo Alencar hesitou, como se estivesse procurando as palavras certas. "Eu também tenho um interesse em sua história. Uma história que pode ter semelhanças com a minha."
Helena olhou para Elias, que a observava com preocupação. A aparição de Ricardo Alencar, tão repentina e com um interesse tão pessoal, a deixava apreensiva. Ele parecia saber mais do que dizia. "Semelhanças com a sua história?", Helena repetiu, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.
Ricardo Alencar respirou fundo. "Sim. Porque minha mãe também teve um filho. Um filho que ela amou profundamente, mas que nunca pôde criar. Um filho que se perdeu no tempo."
A menção de um filho perdido, de uma mãe que não pôde criar, fez o sangue de Helena gelar. Seria possível? Seria aquele homem, Ricardo Alencar, o João Pedro? O irmão que ela nunca conheceu? A sombra da dúvida pairou sobre ela, misturada com uma esperança avassaladora e um medo profundo. O encontro inesperado na vila de Pescadores acabara de abrir um novo capítulo, repleto de incógnitas e a promessa de revelações que poderiam abalar o alicerce de sua vida.