O Último Beijo 152

Capítulo 18 — A Teia de Mentiras e o Legado do Pai Desconhecido

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 18 — A Teia de Mentiras e o Legado do Pai Desconhecido

Ricardo Alencar, com seu porte impecável e a voz polida, parecia uma figura fora de lugar na pacata vila de Pescadores. Ele se aproximou de Helena com uma delicadeza que contrastava com a frieza que ela sentira em seu olhar inicial. Elias, o velho pescador, observava a cena com a sabedoria de quem já viu muitas marés subirem e descerem na vida. Ele sentiu a tensão no ar, a eletricidade de um encontro prestes a desvendar segredos antigos.

"Você diz que sua mãe teve um filho que nunca pôde criar?", Helena perguntou, a voz trêmula, mas firme. A possibilidade de Ricardo ser João Pedro a deixava em um turbilhão de emoções. Tantos anos de solidão, de um vazio que ela nem sabia que existia, e agora, talvez, a chance de encontrar um irmão.

Ricardo assentiu, seus olhos fixos nos de Helena. "Sim. Minha mãe, Dona Elisa, era uma mulher de grande coração, mas de circunstâncias difíceis. Ela amou um homem, mas por motivos que ela nunca explicou completamente, eles não puderam ficar juntos. Ela me teve, mas… as condições não permitiam que ela me criasse. Fui dado para adoção, para uma família que pôde me dar um bom futuro."

Helena sentiu um nó se formar na garganta. As palavras de Ricardo espelhavam a história de sua mãe, mas com uma inversão de papéis. Ele era o filho que não pôde ser criado pela mãe. Seria possível que sua mãe, Laura, fosse Elisa? E que o Arthur da fotografia fosse o pai de ambos?

"E o pai?", Helena ousou perguntar, a voz mal saindo. "Você sabe quem era o pai?"

Ricardo hesitou. Um véu de tristeza e talvez um pouco de resignação cruzou seu rosto. "Minha mãe nunca falou muito sobre ele. Dizia que era um homem bom, mas que as circunstâncias os separaram. Que ele era de uma família poderosa, e que a relação deles era um escândalo."

"Arthur", Helena murmurou, um nome que agora parecia ecoar em sua alma. Ela pegou a fotografia de sua mãe e a mostrou a Ricardo. "Este era o homem que minha mãe amou. Arthur. Ele se parece com quem sua mãe descrevia?"

Ricardo pegou a fotografia com mãos respeitosas. Seus olhos percorreram o rosto jovem de sua mãe, Laura, e depois o de Arthur. Um suspiro escapou de seus lábios. Ele virou a foto e leu o nome escrito no verso: "Arthur."

"Arthur…", Ricardo repetiu, a voz carregada de uma emoção contida. "Minha mãe falava de um amor em sua juventude, um amor que ela guardou para sempre em seu coração. Ela nunca disse o nome dele, mas… pela descrição, pela época… é muito provável que Arthur seja o meu pai."

A confirmação atingiu Helena como uma onda. Elias, que até então permaneceu em silêncio, se aproximou. "Então, Helena, minha menina, você pode ter um irmão. E eu… eu conheci sua mãe, sei que ela sofreu muito. É bom saber que a história dela, e a história desse Arthur, pode ter um desfecho mais feliz."

Ricardo olhou para Helena com uma profundidade que a fez se sentir exposta. "Se Arthur era o pai de ambos, e se ele era de família poderosa, é possível que ele nunca tenha sabido da existência de nenhum de nós. Ou talvez soubesse, mas foi impedido de agir." Ele respirou fundo. "Eu sempre senti uma falta, sabe? Uma sensação de que algo estava faltando. Uma busca por minhas origens. Talvez você seja a resposta para essa busca."

Helena sentiu uma mistura de alívio e apreensão. Encontrar um irmão era algo que ela nunca imaginara, e agora, de repente, a vida lhe apresentava essa possibilidade. Mas a história de seus pais era envolta em segredos e mentiras. "Minha mãe nunca me contou sobre você, Ricardo. Ela guardou esse segredo por toda a vida."

"E a minha mãe também guardou o segredo sobre o pai. Provavelmente para nos proteger. Ou por vergonha, ou medo. O mundo naquela época era muito mais cruel com mães solteiras e com amores que desafiavam as normas", Ricardo disse, a voz tingida de amargura.

"Eu encontrei o diário da minha mãe", Helena confessou, sentindo a necessidade de compartilhar a carga. "Ela falava de um amor avassalador por Arthur, mas também de medo e de arrependimento. Ela teve um filho, João Pedro, e o pai não podia saber. Ela precisou tomar uma decisão dolorosa."

Ricardo olhou para Helena, a compreensão começando a clarear em seus olhos. "João Pedro… Esse era o nome que minha mãe considerou dar a mim, se eu fosse um menino. Ela me contou isso uma vez, em um momento de confissão." Ele fez uma pausa, a voz embargada. "Então, Helena, eu sou o João Pedro. E você é a minha irmã."

As palavras pairaram no ar, carregadas de um peso emocional imenso. Irmã. A palavra soou estranha, mas ao mesmo tempo, profundamente certa. A sensação de vazio que Helena sentia há tantos anos começou a diminuir, substituída por uma nova e poderosa conexão.

"Precisamos descobrir quem era Arthur", Helena disse, a determinação crescendo em sua voz. "Precisamos saber por que ele não pôde ficar com sua mãe, e por que não pôde ficar com a minha. E se ele sabia da existência de João Pedro."

"Eu tenho algumas pistas sobre a família dele", Ricardo revelou. "Minha mãe me deu um nome, o sobrenome Alencar. Ela disse que era o sobrenome da família do pai. Eu nunca investiguei a fundo, porque não queria mexer com um passado que parecia tão doloroso. Mas agora… agora faz todo o sentido."

Alencar. Um sobrenome que soava familiar em círculos de poder e influência. "Então você se chama Alencar?", Helena perguntou, surpresa.

Ricardo sorriu, um sorriso melancólico. "Meus pais adotivos me deram o sobrenome deles. Mas o meu sangue… o meu sangue é Alencar. E, aparentemente, o seu também, através de nossa mãe que amou um Alencar."

Elias, o velho pescador, observou a cena com um brilho nos olhos. "Vejo que o mar traz e leva tesouros. A verdade, por mais escondida que esteja, sempre encontra um caminho. Que bom que vocês se encontraram, meus jovens. Sua mãe, Laura, era uma mulher de ouro. Merecia ser feliz. E esse Arthur… se ele amou sua mãe, então ele também era um homem de valor. Espero que a história dele não seja apenas de dor e separação."

"Precisamos encontrar Arthur", Helena repetiu, a urgência em sua voz. "Ou descobrir o que aconteceu com ele. Se ele sabia de nós, talvez haja algo que ele deixou. Um legado. Algo que explique tudo."

"Eu tenho alguns contatos em São Paulo, onde a família Alencar supostamente tinha suas raízes", Ricardo disse, pensativo. "Posso começar a investigar por lá. Procurar por registros, por notícias antigas."

O dia que começou com a solidão de Helena, e a revelação de um irmão desconhecido, terminava com a promessa de uma investigação conjunta. A teia de mentiras que cercava a vida de seus pais começava a se desenrolar, e a figura de Arthur, o pai que os unia e os separava, emergia como o centro de um mistério ainda não desvendado. A busca pelo último beijo de amor entre Laura e Arthur, um beijo que talvez tivesse gerado duas vidas, se tornava a missão deles.

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