O Último Beijo 152
Capítulo 3 — O Confronto das Sombras
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 3 — O Confronto das Sombras
A tarde caía preguiçosa sobre a cidade, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados. Helena sentia a inquietude crescer dentro de si. A conversa com Dr. Mendes havia deixado mais perguntas do que respostas. A recusa inicial do cliente em se encontrar com ela só aumentava a suspeita de que havia algo mais por trás daquela proposta. Algo que ele desejava manter oculto.
Naquela noite, enquanto Dona Clara rezava em seu quarto, Helena se viu presa em um turbilhão de pensamentos. O caderno de Gabriel, as anotações sobre os Valença, o interesse peculiar de A.V. pelo "Recanto da Lua"... tudo parecia conspirar para um confronto iminente. Ela sentia que estava à beira de descobrir algo importante, algo que poderia mudar o curso de sua vida e, talvez, revelar verdades há muito tempo enterradas.
O telefone tocou abruptamente, quebrando o silêncio da casa. Helena atendeu, o coração disparado.
"Sra. Helena de Almeida?", uma voz masculina, profunda e melodiosa, soou do outro lado da linha. Era diferente da voz formal de Dr. Mendes. Havia uma certa urgência, mas também um tom de melancolia.
"Sim, sou eu. Quem fala?", respondeu Helena, a voz tensa.
"Meu nome é Alexandre Valença. Dr. Mendes me informou sobre seu desejo de me encontrar. Acredito que possamos ter muito a conversar sobre o 'Recanto da Lua'."
Helena sentiu o ar faltar em seus pulmões. Alexandre Valença. A confirmação era um soco no estômago. O nome que Gabriel mencionou em seu caderno.
"Alexandre Valença...", repetiu Helena, a voz quase inaudível. "O senhor é quem está interessado em comprar minha casa?"
"Eu sou", confirmou ele. "Ou melhor, a propriedade que pertenceu à minha família e que, acredito, ainda carrega a essência dela. O 'Recanto da Lua' tem um significado profundo para mim, Sra. Helena. Um significado que vai além de qualquer valor financeiro."
A menção à "essência da família" e ao significado profundo fez Helena lembrar-se das anotações de Gabriel. Ele parecia sentir que havia algo mais naquele lugar, algo que se conectava com seus antepassados.
"O senhor sabe que a casa pertence a mim agora, Sr. Valença", disse Helena, tentando manter a compostura. "E que ela guarda memórias importantes para mim também."
"Eu sei. E lamento se o meu interesse causa algum desconforto", respondeu Alexandre, com um tom sincero. "Mas a verdade é que essa propriedade é uma peça chave na história da minha família. Uma história que foi interrompida, e que eu sinto a necessidade de resgatar."
Helena sentiu um calafrio. Interrompida? Resgatar? O que ele queria dizer com isso?
"Quando o senhor gostaria de se encontrar?", perguntou Helena, decidida a encarar o mistério. "Estou disposta a conversar."
"Amanhã à tarde, na própria propriedade. Às três horas. O senhor pode me encontrar lá?", propôs Alexandre.
Helena hesitou. Ir ao "Recanto da Lua" agora, com ele lá, parecia uma provocação cruel. Mas, ao mesmo tempo, era a única maneira de entender o que estava acontecendo.
"Sim", disse ela. "Eu estarei lá."
Na manhã seguinte, Helena acordou com um misto de apreensão e expectativa. A viagem até o interior de Minas Gerais parecia mais longa do que o habitual. O sol, que antes trazia a promessa de um novo dia, agora parecia um holofote, expondo suas fragilidades e medos.
Ao chegar ao "Recanto da Lua", Helena sentiu um nó na garganta. A casa branca, com suas janelas azuis e a varanda florida, parecia intocada pelo tempo. A grama verde e os ipês floridos criavam um cenário idílico, que contrastava com a tempestade em seu peito.
Ela estacionou o carro e desceu, os pés descalços pisando na terra úmida. O ar era fresco, perfumado com o cheiro de jasmim e terra molhada. Um cheiro que trazia consigo a lembrança vívida de Gabriel, de seus risos, de seus abraços.
Enquanto se aproximava da casa, avistou uma figura parada na varanda. Era ele. Alexandre Valença.
Ele era exatamente como ela imaginara, e ao mesmo tempo, completamente diferente. Alto, com cabelos escuros e olhos de um azul profundo, que pareciam carregar a melancolia de um oceano. Seus traços eram marcantes, e havia uma aura de elegância e mistério em torno dele. Ele a observava com uma intensidade que a fez sentir um arrepio.
Quando Helena se aproximou, Alexandre se moveu para recebê-la. Seus olhares se cruzaram, e por um instante, Helena sentiu uma conexão estranha, um reconhecimento silencioso.
"Sra. Helena", disse Alexandre, com um leve inclinar de cabeça. Sua voz era a mesma do telefone, grave e melodiosa. "É uma honra conhecê-la."
"Sr. Valença", respondeu Helena, tentando manter a voz firme. "A honra é minha."
Eles se aproximaram, a tensão no ar quase palpável. Helena sentiu o perfume sutil de Alexandre, um aroma amadeirado e intrigante. Era um perfume que a fazia pensar em florestas antigas e em histórias esquecidas.
"Eu sei que o senhor tem interesse nesta casa", disse Helena, indo direto ao ponto. "Mas ela tem um valor sentimental imensurável para mim."
Alexandre assentiu, seu olhar fixo no dela. "Eu entendo. E respeito isso. Mas a verdade é que eu também tenho uma conexão profunda com este lugar. Meus antepassados construíram essa casa, Helena. Ela carrega o nome da minha família, os Valença."
Helena sentiu um arrepio. "Gabriel também mencionou os Valença em seu caderno. Ele sentia que havia algo importante ligado a essa família."
"Gabriel?", Alexandre franziu a testa. "Quem é Gabriel?"
O nome de Gabriel, dito por ela, pareceu ressoar de forma diferente no ambiente. Helena percebeu o deslize. Gabriel era o amor de sua vida, a razão de sua dor. Mas para Alexandre, ele era apenas um estranho.
"Gabriel era... era meu noivo", disse Helena, a voz embargada. "Ele faleceu há um ano. Ele adorava este lugar, e foi ele quem me deixou as anotações sobre a história da sua família."
Um silêncio pairou entre eles. Alexandre observava Helena com uma expressão de compreensão misturada com algo que parecia pesar.
"Eu sinto muito pela sua perda, Helena", disse ele, a voz baixa. "Gabriel deve ter sido uma pessoa extraordinária para ter se apaixonado por este lugar e por você."
As palavras de Alexandre, tão sinceras, tocaram Helena profundamente. Era reconfortante saber que ele entendia a importância que aquele lugar tinha para ela, e para Gabriel.
"Obrigada", respondeu Helena. "Mas voltando ao assunto... o que exatamente o senhor busca aqui? Por que essa insistência em comprar o 'Recanto da Lua'?"
Alexandre suspirou, seu olhar vagando pela paisagem ao redor. "Há muito tempo, a minha família possuía grande parte destas terras. Um ancestral meu, meu bisavô, construiu esta casa com o sonho de criar um refúgio, um lugar onde a natureza e a arte pudessem coexistir em harmonia. Mas algo aconteceu. Uma tragédia familiar, um desentendimento... e a propriedade acabou sendo vendida, e a história dos Valença ligada a ela se perdeu com o tempo."
Ele voltou seu olhar para Helena, os olhos azuis cheios de uma emoção contida. "Eu sempre soube dessa história. E, há alguns anos, comecei a pesquisar sobre o 'Recanto da Lua'. Queria entender o que aconteceu, e, se possível, resgatar um pouco daquele legado."
Helena ouviu atentamente, sentindo que estava prestes a desvendar um segredo que ligava seu passado ao dele.
"E como o senhor soube que eu era a proprietária?", perguntou Helena.
"Através de pesquisas e de alguns contatos. Descobri que a casa, que um dia pertenceu à minha família, estava agora em sua posse. E, ao saber que você era a noiva de um jovem chamado Gabriel, senti que havia um destino nos guiando."
"Um destino?", Helena questionou, intrigada.
"Sim. Gabriel parecia ter tido um pressentimento, uma conexão com a história da minha família. E eu acredito que essa conexão não foi aleatória. Talvez ele tenha descoberto algo que eu ainda não sei." Alexandre fez uma pausa, olhando para a casa com uma expressão pensativa. "Helena, eu não quero apenas comprar uma propriedade. Eu quero entender o que aconteceu aqui. E, talvez, com a sua ajuda, possamos desvendar os segredos que o 'Recanto da Lua' guarda."
Helena olhou para Alexandre, sentindo uma estranha empatia por aquele homem misterioso. Ele parecia carregar o peso de uma história familiar não resolvida, assim como ela carregava o peso da perda de Gabriel.
"O que o senhor sugere?", perguntou Helena.
"Sugiro que trabalhemos juntos", disse Alexandre, com um sorriso hesitante. "Que você me permita explorar a propriedade, que me conte tudo o que Gabriel lhe disse sobre a história, e que, juntos, possamos descobrir o que realmente aconteceu. Em troca, lhe ofereço uma proposta irrecusável para a venda. Uma proposta que lhe dará a tranquilidade financeira que você merece."
Helena olhou ao redor, para a beleza serena do "Recanto da Lua". O lugar que um dia foi o palco de seus sonhos com Gabriel, e que agora se tornava o palco de um novo mistério, com um novo protagonista. Ela sentiu que estava prestes a embarcar em uma jornada inesperada, uma jornada que a levaria para as profundezas de seu próprio passado e para as origens de uma família que ela nunca conheceu. O último beijo de Gabriel poderia ser o gatilho, mas a história estava longe de terminar. Ela estava apenas começando.