Amar foi meu Erro 153
Romance: Amar foi meu Erro 153
por Camila Costa
Romance: Amar foi meu Erro 153 Autor: Camila Costa
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Capítulo 11 — O Abismo da Desconfiança
A luz fria do amanhecer mal ousava penetrar as cortinas pesadas do quarto de Sofia. O sol, que normalmente anunciava um novo dia cheio de promessas, parecia zombar da escuridão que havia se instalado em seu peito. As palavras de Miguel, proferidas na noite anterior com a voz embargada pela dor e pela confissão, ecoavam em sua mente como um sino fúnebre. "Eu não a toquei, Sofia. Eu juro. Mas eu estava lá." Aquela admissão, a mais honesta que ele poderia ter lhe oferecido, era um punhal cravado em seu coração.
Ele havia sido pego em flagrante, não pela traição em si, mas pela mentira. Clara, com sua astúcia venenosa, havia conseguido desenterrar o fantasma de um passado que Sofia sequer imaginava existir. A história de Miguel e Clara, daquela noite fatídica que ele tentara apagar de sua memória, era agora um muro intransponível entre eles. A confiança, que antes parecia um alicerce inabalável, desmoronava em grãos de areia sob a força de uma tempestade que eles mesmos haviam inadvertidamente invocado.
Sofia se levantou da cama, o corpo pesado, os olhos vermelhos pelo choro contido. Cada músculo parecia protestar, cada movimento era um lembrete da fragilidade de sua alma. Ela caminhou até a janela e afastou uma fresta da cortina, observando a cidade acordar. Carros passavam, pessoas apressadas em suas rotinas, alheias à tragédia que se desenrolava em seu pequeno universo. Era um contraste cruel.
Lembrou-se do sorriso de Miguel naquela manhã. Tão genuíno, tão cheio de amor. Como ele podia ter escondido algo assim? Como ela pôde ter sido tão cega? O amor, que ela acreditava ser sinônimo de transparência e entrega total, parecia agora um labirinto sombrio, cheio de armadilhas e decepções.
Ouviu a porta do quarto se abrir e Miguel apareceu, os olhos também inchados, o rosto marcado pela mesma dor que a consumia. Ele a olhou com uma súplica silenciosa, um desejo de ser compreendido, de ser perdoado.
"Sofia...", ele começou, a voz rouca.
Ela se virou, os olhos fixos nos dele, um misto de mágoa e uma pontada de esperança cruel em seu olhar. "Não. Não diga mais nada, Miguel. Eu não sei se consigo ouvir."
Ele deu um passo hesitante em sua direção. "Eu sei que te magoei. Quebrei sua confiança. Mas por favor, me deixe explicar."
"Explicar o quê? Que você estava com ela? Que você mentiu para mim durante todo esse tempo? Que você permitiu que eu acreditasse em uma história que não era a verdade completa?", a voz de Sofia começou a tremer, a mágoa transbordando em palavras amargas.
"Eu menti por medo, Sofia. Medo de te perder. Medo de que você me olhasse da mesma forma que está me olhando agora. Aquela noite... foi um erro. Um erro terrível, mas não o que você pensa."
"E o que eu devo pensar, Miguel? Você esteve lá. Você sabia que ela estava se declarando para você. E você não me contou. Você me deixou acreditar que era apenas uma amiga, uma colega de trabalho. Enquanto isso, você carregava esse segredo. Como você espera que eu confie em você agora?", as lágrimas começaram a rolar livremente pelo rosto de Sofia.
Miguel fechou os olhos por um instante, como se a dor de suas palavras o atingisse fisicamente. Ele se aproximou mais, a distância entre eles diminuindo, mas a distância em seus corações parecia se expandir a cada segundo.
"Sofia, eu nunca te traí. Eu nunca a amei. O que aconteceu naquela noite... foi uma confusão. Ela estava bêbada, disse coisas que não devia. Eu estava confuso, sim. Saí de lá. Mas eu nunca... eu nunca fui para a cama com ela. Nunca houve nada mais do que a amizade dela, que eu sempre tentei manter à distância por respeito a nós dois."
"Mas você não me contou! Por que não me contou, Miguel? Por quê?", Sofia o questionou, a voz falhando. "Isso é o que mais me dói. Não o que aconteceu naquela noite, mas o fato de você ter escondido isso de mim. Parece que você não me deu o crédito de que eu seria forte o suficiente para lidar com a verdade."
"Eu não queria te assustar. Eu não queria que você visse em mim algo que eu não sou. Clara sempre foi... insistente. E eu estava sob pressão. A empresa, minha carreira... e você. Eu queria te proteger. Proteger nosso futuro."
"Proteger? Você me machucou mais ao me esconder a verdade, Miguel. O medo não justifica a mentira. O amor não se constrói com segredos. Eu preciso de tempo. Eu preciso pensar."
Sofia se afastou dele, buscando um refúgio nas cortinas frias. A realidade a atingiu com força total. Clara havia conseguido o que queria: plantar a semente da dúvida, do desconfiança. E essa semente, em terra fértil de mágoa, estava germinando com velocidade assustadora.
Miguel a observou, a esperança esvaindo-se de seus olhos. Ele sabia que as palavras não eram suficientes. A ferida era profunda. Ele se aproximou novamente, mas parou a um passo de distância.
"Eu entendo", ele disse, a voz baixa e resignada. "Mas saiba que eu te amo, Sofia. E que nunca houve e nunca haverá outra mulher para mim. O que eu sinto por você é real. É a única coisa real que eu tenho."
Sofia não respondeu. Ela apenas fechou os olhos, permitindo que as lágrimas molhassem seu rosto. O peso do que ela sentia era esmagador. Ela o amava, sim. Amava com uma paixão avassaladora que a consumia. Mas como amar alguém em quem você não confia mais completamente? Como reconstruir um castelo desmoronado tijolo por tijolo, quando a base se mostrou instável?
O silêncio no quarto era ensurdecedor, preenchido apenas pelo som das respirações ofegantes e pelos corações que pareciam bater em ritmos dissonantes. O abismo da desconfiança se abriu entre eles, vasto e aterrador, ameaçando engolir todo o amor que haviam construído. Sofia sabia que, a partir daquele momento, nada seria como antes. O jogo de sombras de Clara havia deixado suas marcas, e a luta para resgatar o que restava de seu amor seria a mais árdua que eles já enfrentariam.