Amar foi meu Erro 153
Capítulo 17 — O Jogo de Sombras de Ricardo e a Vulnerabilidade de Clara
por Camila Costa
Capítulo 17 — O Jogo de Sombras de Ricardo e a Vulnerabilidade de Clara
Ricardo Vasconcelos se movia pela vida como um predador em seu habitat natural: com uma precisão calculista e uma frieza desumana. A confissão para Helena, embora tenha sido um ato de crueldade deliberada, também serviu para solidificar sua determinação. A vingança contra Clara, que ele via como a personificação de tudo o que o ferira no passado, estava em seu ápice. Ele se deleitava com a dor que causava, com o desespero sutil que emanava dela quando ele a tratava com descaso.
Naquela noite, no luxuoso escritório de sua mansão, cercado por obras de arte caríssimas e a fragrância amadeirada de um uísque de qualidade, Ricardo revisava documentos. Seus olhos percorriam relatórios financeiros, contratos e cartas que, um a um, desvendavam a teia que ele havia tecido. Ele sabia que Clara, por mais que tentasse, era vulnerável. Sua dependência emocional dele, o desejo ardente por sua aprovação, eram as armas que ele usava para mantê-la sob controle. Ele se lembrava das noites em que ela chorava em seus braços, implorando por seu amor, por sua atenção. E ele, com um sorriso torto, prometia o que nunca daria de verdade.
— Você é tão previsível, Clara — ele murmurou para si mesmo, um brilho sombrio em seus olhos. — Tão fácil de moldar. Pensei que você fosse mais forte. Pensei que a dor que eu te causei no passado tivesse te ensinado algo. Mas não. Você continua a mesma garotinha assustada, buscando um pai em seus amantes.
Uma batida suave na porta o tirou de seus devaneios. Era Clara. Ela entrou timidamente, vestida com um elegante vestido de seda que realçava sua figura esguia. Seus olhos, antes cheios de uma vivacidade contagiante, agora carregavam uma sombra de preocupação.
— Ricardo? — Sua voz era um sussurro, carregada de uma insegurança que ele adorava explorar. — Você está aqui há horas. Está tudo bem?
Ricardo se levantou, um sorriso irônico no rosto. Ele se aproximou dela, passando os dedos suavemente por seu queixo. Clara estremeceu com o toque, um misto de esperança e medo.
— Tudo bem, querida. Apenas… lidando com alguns assuntos de negócios. Nada que você precise se preocupar.
Ele a abraçou, mas o abraço era frio, desprovido de calor. Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo diferente em Ricardo. Uma distância que se tornava cada vez maior, um muro invisível que ela não conseguia transpor.
— Você parece… distante. — Ela ousou dizer, buscando em seus olhos alguma resposta, algum sinal de afeto.
Ricardo afastou-se um pouco, a expressão impassível. — Distante? Eu estou aqui com você, não estou? Talvez você esteja imaginando coisas.
Ele se virou para a escrivaninha, pegando uma taça de conhaque. Clara observou-o, o coração apertado. Ela o amava, amava-o com a intensidade de quem encontrou no outro a única âncora em um mar de incertezas. Mas ultimamente, sentia que essa âncora estava se desfazendo, deixando-a à deriva.
— Ricardo, eu… — ela começou, mas as palavras morreram em seus lábios. O que dizer? Que sentia falta do Ricardo de antes? Que se sentia insegura com a frieza dele? Ele a acharia fraca, e era exatamente isso que ela temia.
Ricardo tomou um gole do conhaque, seus olhos fixos nela. Ele sabia que ela estava sofrendo, que suas inseguranças eram um campo fértil para suas manipulações. E ele se alimentava disso. Ele se lembrava de como Helena, com sua força e determinação, o havia desafiado. Essa força, ele não a permitiria em Clara.
— Você tem estado um pouco… distraída ultimamente, Clara. — ele disse, a voz baixa e insinuante. — Há algo que você queira me contar?
O coração de Clara disparou. Ela sabia que ele se referia ao seu reencontro com Helena, à conversa que tiveram. Ela havia jurado a si mesma que guardaria segredo, que não lhe daria motivos para desconfiar. Mas a habilidade de Ricardo em ler suas emoções era assustadora.
— Distraída? Não, Ricardo. Apenas… cansada.
Ele sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Cansada? Ou talvez… com saudades de velhos tempos? De velhas companhias?
Clara sentiu um nó se formar em sua garganta. A insinuação era clara. Ele desconfiava. Ele sabia. A frieza dele não era apenas um distanciamento, era uma arma. E ela, em sua vulnerabilidade, estava caindo em seu jogo.
— Eu não sei do que você está falando. — Ela disse, tentando manter a voz firme, mas sentindo o tremor em suas mãos.
Ricardo aproximou-se dela novamente, desta vez com um olhar mais penetrante. Ele a encarou fixamente, como se pudesse ler seus pensamentos mais profundos.
— Não minta para mim, Clara. Eu não gosto de mentiras. E sei quando você está escondendo algo. Principalmente quando se trata de Helena.
O nome de Helena ecoou no silêncio do escritório, como um trovão em céu claro. Clara sentiu o sangue gelar em suas veias. Ricardo sabia. Ele sabia sobre o reencontro. A fúria contida em sua voz era um prenúncio de tempestade.
— Eu… eu me encontrei com ela. — Clara confessou, a voz embargada. — Mas não foi nada. Apenas uma conversa.
Ricardo deu uma risada seca e fria. — Uma conversa? Você acha que eu sou idiota, Clara? Eu sei o que você e Helena estão tramando. Eu sei que você ainda sente algo por ela. E isso, minha cara, é inaceitável.
Ele a agarrou pelo braço, a força em seus dedos fazendo Clara gemer de dor. Seus olhos, antes cheios de um brilho sombrio, agora ardiam com uma fúria descontrolada.
— Você vai me pagar por isso, Clara. Você e Helena. Vocês acham que podem me desafiar? Que podem me machucar?
Clara se debateu, assustada com a intensidade da raiva de Ricardo. A imagem dele, tão cruel e implacável, era um pesadelo que se materializava diante de seus olhos. Ela percebeu, naquele instante, que o homem que ela acreditava amar era um monstro. E ela, em sua ingenuidade e vulnerabilidade, havia se tornado mais uma de suas vítimas. O jogo de sombras de Ricardo havia se intensificado, e Clara, sem ter para onde fugir, estava no centro de sua escuridão.