Amar foi meu Erro 153
Capítulo 2 — O Encontro Inesperado
por Camila Costa
Capítulo 2 — O Encontro Inesperado
A noite anterior pairava sobre Isabella como uma névoa densa, carregada de um misto de pavor e uma faísca de excitação reprimida. O evento da galeria de arte de seu pai, um daqueles encontros sociais glamorosos e, para Isabella, muitas vezes entediantes, transformara-se em um palco para o seu pesadelo mais vívido e, paradoxalmente, para um anseio há muito adormecido. Léo. Vê-lo ali, tão perto, após tantos anos de silêncio, era como ser atingida por um raio em céu claro.
Enquanto Sofia a ouvia atentamente, Isabella sentia o coração bater descompassado, um ritmo frenético que ecoava as batidas de um tambor tribal. Cada detalhe daquela noite ressurgia em sua mente com uma nitidez cruel. Ela estava ao lado de seu pai, o renomado galerista Arthur Silveira, recebendo cumprimentos e sorrisos forçados, quando seus olhos pousaram nele.
Ele estava conversando com um grupo de colecionadores de arte, sua silhueta recortada contra a iluminação suave da galeria. O cabelo, antes um pouco desalinhado, agora parecia mais curto e polido, mas a forma como ele gesticulava, a inclinação do corpo ao falar, eram inconfundíveis. E então, ele virou-se, e seus olhares se cruzaram.
Por um instante, o tempo pareceu parar. O burburinho da festa se desvaneceu, as luzes se apagaram, e o mundo se resumiu àquele único ponto de conexão. Os olhos de Léo, aqueles mesmos olhos que ela guardava em sua memória com uma devoção quase religiosa, encontraram os dela. E por um segundo, Isabella viu neles o reconhecimento, a surpresa, e algo mais... algo que ela ousou acreditar ser um lampejo do passado que os unira.
Ele sorriu. Um sorriso leve, quase imperceptível, mas que fez um tremor percorrer todo o corpo de Isabella. Ela sentiu o rosto esquentar, as mãos suarem, e a necessidade de fugir, de se esconder, de desaparecer. Mas o dever, e a presença do pai ao seu lado, a mantiveram presa ao chão.
Ela viu Léo se despedir do grupo e começar a caminhar em sua direção. O desespero tomou conta dela. O que ele queria? O que ele diria? Ela se preparou para o pior, para a confrontação, para as perguntas que ela temia e, ao mesmo tempo, ansiava por ouvir.
"Isabella?", a voz dele, mais grave e rouca do que ela lembrava, a fez pular.
Ela se virou para ele, tentando disfarçar o tremor em sua voz. "Léo."
O sorriso dele se ampliou um pouco, revelando uma covinha discreta na bochecha esquerda. "Eu não acreditava que era você. Anos se passaram, mas você não mudou nada. Continua linda."
O elogio, tão simples e direto, a desarmou completamente. Ela sentiu um rubor ainda maior subir pelo pescoço. "Você também... está diferente." Uma resposta pobre, ela sabia, mas era tudo o que sua mente atordoada conseguia formular.
"Diferente? Espero que para melhor", ele brincou, com uma leveza que a fez desconfiar. Era a mesma malícia que ela lembrava, a mesma capacidade de fazê-la rir mesmo em meio à sua confusão.
"Arthur!", uma voz masculina e estridente interrompeu a troca de olhares. Era o Sr. Valente, um dos mais importantes clientes da galeria, um homem corpulento e de voz alta. "Que bom te encontrar aqui! E quem é essa beldade?" Ele direcionou seu olhar para Isabella, com uma curiosidade que beirava a invasão de privacidade.
Arthur sorriu para o cliente. "Sr. Valente, quero lhe apresentar minha filha, Isabella. Isabella, este é o Sr. Valente."
Isabella forçou um sorriso. "Prazer em conhecê-lo."
Léo observava a cena com uma expressão difícil de decifrar. Havia algo em seu olhar que Isabella não conseguia identificar. Uma mistura de curiosidade, talvez ciúmes, ou apenas a observação de um estranho.
"Arthur, você anda com sorte! Sua filha é um colírio para os olhos!", Sr. Valente exclamou, com um tapinha nas costas de Arthur. "E você, meu jovem?", ele se dirigiu a Léo, com um olhar avaliativo. "Parece que você conhece minha doce Isabella."
"Nós nos conhecemos...", Léo começou, sua voz carregada de uma sutileza que fez o estômago de Isabella revirar.
"Na verdade, ele é um antigo amigo da família", Isabella interrompeu, com uma rapidez que surpreendeu até a si mesma. A mentira saiu fácil, como se fosse a verdade. Ela não queria que aquele homem, que representava seu passado doloroso, fosse apresentado ao seu círculo social atual como um simples "amigo" da Bahia.
Léo a olhou por um instante, uma sobrancelha arqueada, mas não contestou. Ele apenas sorriu levemente. "Exatamente. Um antigo amigo."
Sr. Valente, alheio à tensão que pairava no ar, continuou. "Que ótimo! O mundo é pequeno mesmo! Bem, Arthur, precisamos conversar sobre aquela obra que te falei..."
O Sr. Valente se afastou com Arthur, deixando Isabella e Léo sozinhos novamente. O silêncio que se instalou era denso, carregado de palavras não ditas e de um passado que insistia em ressurgir.
"Antigo amigo da família?", Léo perguntou, com um tom irônico. Seus olhos fixaram-se nos dela, procurando uma resposta.
Isabella sentiu um nó na garganta. "Eu não sabia o que dizer, Léo. Foi... inesperado te ver."
"Inesperado? Eu te vi e sabia que você estava lá. Sua presença é sempre notável, Isabella." Ele disse, e pela primeira vez, um toque de amargura coloriu sua voz.
"E você? O que faz aqui?", ela questionou, tentando desviar o foco da sua própria reação.
"Estou aqui a convite do seu pai. Ele me disse que a galeria estava procurando por novos talentos em fotografia, e eu... bem, eu sou fotógrafo agora."
Fotógrafo. A palavra ressoou na mente de Isabella. Aquele rapaz que adorava capturar a beleza do mar com sua velha câmera, agora era um fotógrafo profissional. Uma pontada de orgulho, misturada com uma estranha tristeza, a atingiu.
"Fotógrafo?", ela repetiu, sem disfarçar a surpresa. "Isso é... incrível, Léo."
"Obrigado. E você, continua trabalhando com seu pai na galeria?", ele perguntou, um leve sorriso voltando aos seus lábios.
"Sim. Ajudo na organização, nas exposições, no que ele precisar." Isabella tentava manter a compostura, mas a proximidade dele, o perfume suave que emanava dele, a estava desestabilizando.
"Você sempre teve um olhar apurado para arte. Lembro que você desenhava muito naquela época."
"Eu parei de desenhar há muito tempo.", ela disse, a voz baixa.
"Por quê?", a pergunta dele era direta, quase acusadora.
Isabella hesitou. Ela não queria reviver a dor daquela época, nem explicar como a desilusão amorosa a fez desistir de tantas coisas. "Questões da vida, Léo."
Ele assentiu lentamente, como se entendesse mais do que ela dizia. "A vida tem um jeito peculiar de nos tirar as coisas que amamos, não é mesmo?"
O comentário dele a atingiu em cheio. Era uma acusação velada? Ou apenas uma constatação amarga da vida? Ela não sabia.
"Eu preciso ir.", Isabella disse, de repente sentindo uma urgência em se afastar. "Meu pai deve estar me procurando."
"Claro.", Léo respondeu, com um sorriso que não alcançou seus olhos. "Foi... bom te ver, Isabella. De verdade."
Ela apenas assentiu e se afastou, sentindo os olhos dele em suas costas. Ao se reencontrar com Sofia, que a observava de longe com um olhar curioso, Isabella sentiu um alívio imediato. A festa, que antes parecia apenas um evento social, agora era o palco de um reencontro que prometia abalar as estruturas de sua vida. O Sussurro da Tempestade, que ela sentira na praia, agora se tornara um furacão prestes a explodir.