Meu Captor, Meu Amor 154
Capítulo 4 — A Rede de Enganos e a Busca por Verdade
por Isabela Santos
Capítulo 4 — A Rede de Enganos e a Busca por Verdade
A participação no evento social, por mais desconfortável que tenha sido, acendeu uma chama de determinação em Lúcia. A conversa com Roberto Almeida, a troca de olhares carregada de tensão entre ele e Davi, tudo isso a fez perceber que a situação era mais complexa do que ela imaginava. Havia segredos, um passado que ela precisava desvendar para encontrar uma saída.
Nos dias seguintes, Lúcia começou a agir com mais discrição. Fingia aceitar sua nova realidade, permitindo que Davi pensasse que estava se rendendo ao seu domínio. Mas, em segredo, ela vasculhava a mansão em busca de pistas. Aproveitava os momentos em que Davi estava ausente em seus negócios, ou quando Dona Clara estava ocupada com as tarefas domésticas, para explorar os cômodos.
Seu foco principal era o escritório de Davi, um ambiente austero e impenetrável, guardado por uma porta de madeira maciça e um sistema de segurança discreto. Ela sabia que ali estariam as respostas que procurava. Passava horas tentando descobrir como burlar a segurança, estudando a rotina dos seguranças, memorizando os horários de Davi.
Uma tarde, enquanto Davi estava em uma viagem de negócios de dois dias, Lúcia viu sua chance. Dona Clara havia saído para resolver assuntos pessoais, e os seguranças pareciam menos atentos. Com o coração acelerado, ela se dirigiu ao escritório. Havia uma pequena janela nos fundos, raramente usada, que dava para um jardim lateral. Com uma ferramenta improvisada, Lúcia conseguiu forçar a fechadura.
O interior do escritório era exatamente como ela imaginava: imponente e sombrio. Uma grande mesa de mogno dominava o centro do cômodo, cercada por estantes repletas de livros e documentos. Um computador de última geração repousava sobre a mesa. Lúcia sentiu um arrepio de excitação e apreensão.
Começou a revirar as gavetas, procurando por qualquer coisa que pudesse incriminá-lo ou dar-lhe uma vantagem. Encontrou contratos, relatórios financeiros, mas nada que parecesse diretamente ligado à dívida de seu pai ou ao motivo de sua própria "captura". Desanimada, sentou-se na cadeira de couro de Davi, sentindo o cheiro forte de seu perfume no ar.
Foi então que seus olhos pousaram em um pequeno cofre embutido na parede, disfarçado atrás de um quadro. A adrenalina tomou conta dela. Com as mãos trêmulas, tentou abri-lo, mas era inútil. Precisava de uma combinação. Lembrou-se de algo que Roberto Almeida dissera: "Seu pai era impulsivo". Talvez houvesse uma data importante ali. Ela tentou o aniversário de seu pai, o seu próprio, mas nada funcionou.
Desesperada, ela se lembrou de uma conversa que ouvira Davi ter ao telefone sobre "o projeto da fundação". Ele parecia estranhamente sentimental ao falar sobre aquilo. Tentou a data de fundação da instituição, uma data que ela sabia de cor por ter colaborado em alguns eventos beneficentes antigamente. Bingo. O cofre se abriu com um clique suave.
Dentro, havia poucas coisas, mas de grande valor. Uma pasta com documentos sobre a empresa de seu pai, detalhando as dívidas e os credores. Havia também um pequeno diário com capa de couro, e algumas fotos antigas. Lúcia pegou o diário, suas mãos tremendo.
As páginas revelaram um lado de Davi que ela nunca imaginaria. Não eram apenas anotações sobre negócios, mas reflexões sobre a vida, sobre a solidão que o poder trazia. E, para sua surpresa, havia várias menções a ela. Ele falava sobre sua beleza, sua força, e sobre a ironia do destino que os havia unido. Ele parecia genuinamente intrigado por ela, e não apenas como uma moeda de troca.
"Ela tem uma força que me lembra a minha mãe," dizia uma das anotações. "Uma chama que não se apaga, mesmo em meio à escuridão. Preciso protegê-la. Mesmo que seja de mim mesmo."
Lúcia ficou chocada. Proteger? De si mesmo? O que ele queria dizer com isso? As fotos antigas mostravam Davi mais jovem, sorrindo, ao lado de uma mulher bonita e um menino. Era sua família?
De repente, ouviu o barulho de um carro se aproximando. Davi havia voltado antes do previsto. Com o coração na boca, Lúcia jogou os documentos de volta na pasta, escondeu o diário e as fotos em seu vestido e fechou o cofre, voltando a colocar o quadro no lugar. Conseguiu sair do escritório pela mesma janela, correndo pelo jardim e entrando em seu quarto minutos antes de Davi anunciar sua chegada.
"Voltei mais cedo do que o esperado, Lúcia," ele disse, aparecendo na porta de seu quarto, com um sorriso cansado. "O trânsito estava terrível."
Lúcia tentou disfarçar sua ansiedade. "Bem-vindo de volta, Senhor Davi." Ela se sentou na cama, tentando parecer relaxada, enquanto sentia o peso do diário em seu peito.
Davi a observou por um momento, seus olhos penetrantes parecendo desconfiados. "Você parece um pouco pálida. Tudo bem?"
"Apenas um pouco cansada," ela mentiu, forçando um sorriso.
Ele se aproximou, sentando-se ao seu lado na cama. O contato físico a fez estremecer. "Preciso que você entenda, Lúcia. Esta situação é temporária. Mas enquanto você estiver aqui, sob minha responsabilidade, eu preciso ter certeza de que você está segura. E que não está tramando nada."
O tom era gentil, mas a ameaça implícita era clara. Lúcia sentiu o sangue gelar. Ele sabia?
"Eu não estou tramando nada, Senhor Davi," ela disse, olhando diretamente em seus olhos. "Eu só quero que isso acabe."
Ele a estudou por um longo momento, como se pudesse ler seus pensamentos. Então, para sua surpresa, ele sorriu. "Eu sei. E você sabe que eu não machucaria você. Você é importante para mim."
As palavras dele a confundiram ainda mais. Importante? Por quê? Ele estava mentindo? Ou havia uma verdade distorcida em suas palavras?
Naquela noite, quando estava sozinha em seu quarto, Lúcia pegou o diário de Davi. A luz fraca do abajur iluminava as palavras que a intrigavam. Ele falava sobre a perda de sua mãe, a dor que o consumiu, e como ele jurou protegê-la do mesmo destino. Ele mencionava o pai dela, Roberto Mendes, como alguém que ele admirava no passado, mas que se perdeu em ganância.
"Roberto sempre foi um homem de contrastes," dizia uma passagem. "Um bom coração, mas uma mente fraca para as tentações. Ele me deve, não apenas dinheiro, mas um favor. E eu cobrei da única forma que ele poderia me dar: sua filha. Não por vingança, mas por um senso de justiça distorcida. Ele me tirou algo no passado, e agora eu o cobrei de volta. Mas em Lúcia, vejo um reflexo de quem ele foi, e de quem eu perdi."
Lúcia sentiu uma onda de emoções contraditórias. Davi não era apenas um captor, mas um homem ferido, movido por um passado doloroso. Ele via nela algo que o lembrava de sua mãe, e talvez, por isso, a tratava com uma certa proteção. Mas essa proteção vinha com o preço de sua liberdade.
Ela sabia que precisava usar essa informação a seu favor. A rede de enganos era complexa, e Davi, apesar de sua força, também era um prisioneiro de seu próprio passado. A busca por verdade estava apenas começando, e Lúcia sentia que estava mais perto do que nunca de desvendar os segredos que a prendiam naquela mansão. A conexão que sentia com Davi, por mais perigosa que fosse, também era a chave para sua libertação.