Cativada pelos seus Olhos 157

Cativada pelos seus Olhos 157

por Valentina Oliveira

Cativada pelos seus Olhos 157

Autor: Valentina Oliveira

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Capítulo 6 — O Labirinto de Emoções e o Fio da Verdade

A noite no Rio de Janeiro desdobrava-se como um véu de veludo negro, salpicado pelas estrelas indiferentes e pela luz artificial que teimava em desafiar a escuridão. Nos Jardins de Copacabana, o ar estava impregnado do perfume adocicado das acácias e do salgado pungente do mar, uma combinação que sempre evocara em Clara uma profunda melancolia e, ao mesmo tempo, uma estranha serenidade. Mas naquela noite, nada parecia capaz de acalmar a tempestade que assolava seu peito.

Desde a conversa com Rafael na galeria, as palavras dele ecoavam em sua mente como um mantra perturbador. "Eu sei que você está sofrendo, Clara. Eu sinto. E eu... eu nunca quis te machucar." Cada sílaba parecia carregar um peso invisível, uma promessa não dita, um desejo reprimido. Ela tentara afastar esses pensamentos, focar no trabalho, na rotina, mas o rosto dele, a intensidade em seus olhos azuis profundos, teimavam em surgir em sua visão periférica, transformando cada tela em branco em um palco para a encenação de seus dilemas.

O violão jazia esquecido em um canto do seu estúdio, seu companheiro fiel de tantos desabafos silenciosos, agora mudo. As partituras, antes um refúgio, pareciam zombar de sua paralisia criativa. A melodia que ela buscava, a canção que prometera a si mesma para dar um novo rumo à sua vida, teimava em não nascer, sufocada pela incerteza que a envolvia.

Em meio a essa turbulência interna, um som familiar quebrou o silêncio da noite: o toque do interfone. Clara sobressaltou-se, o coração disparado. Quem seria a essa hora? Com mãos trêmulas, ela atendeu.

"Alô?"

"Clara? Sou eu, Leo."

Leo. Seu irmão. Uma onda de alívio e, simultaneamente, um receio sutil a percorreram. Leo, com sua franqueza habitual, era um espelho para as verdades que ela tentava evitar.

"Leo! Que surpresa. Está tudo bem?"

"Tudo ótimo por aqui. Só fiquei pensando em você. Soube que você deu um show particular na galeria ontem. Fiquei sabendo que o Rafael ficou... impressionado." A voz dele tinia com um tom de cumplicidade e uma pitada de malícia que Clara reconheceu imediatamente.

Clara revirou os olhos, um sorriso involuntário brincando em seus lábios. "Leo, você sabe que a minha arte é intensa. E sim, o Rafael parecia... atento."

"Atento, é? Aposto que sim. Ele é um homem de muitos segredos, essa história dele é mais complexa do que parece. Mas você, minha irmã, tem um jeito único de desvendar as coisas. E de desvendar pessoas."

As palavras de Leo a atingiram com uma força inesperada. Desvendar pessoas. Era isso que ela fazia com sua arte? Desnudava almas através de cores e formas? E Rafael... seria ele um enigma a ser decifrado?

"Não sei do que você está falando, Leo. Eu apenas... pintei o que sentia."

"Ah, Clara, você sempre tenta se esconder atrás dessa sua modéstia. Mas eu te conheço. Você sentiu algo por ele, não sentiu? Algo que vai além do interesse artístico. Vi nos seus olhos quando você falou dele naquela noite. E hoje, ao ouvir sobre a reação dele... O que está acontecendo, mana?"

O peso da honestidade de Leo era, às vezes, avassalador. Clara suspirou, sentindo as barreiras que erguera começarem a ceder. A solidão daquela noite era insuportável.

"Não sei, Leo. É complicado. Ele... ele me lembra alguém. Alguém do meu passado." A confissão escapou de seus lábios, suave como um sopro.

Houve um silêncio do outro lado da linha, um silêncio carregado de compreensão e de uma antiga dor que ambos compartilhavam.

"O pai?", perguntou Leo, a voz embargada.

Clara assentiu, mesmo sabendo que ele não podia vê-la. As lágrimas começaram a rolar, quentes e salgadas, em seu rosto. "Sim. É o jeito dele falar, o jeito que ele olha... é como um eco distante. E isso me confunde, Leo. Me assusta."

"Eu sei", disse Leo, a voz agora mais grave, tingida de uma tristeza que Clara reconhecia como sua. "É natural. Ele se foi tão cedo, e deixou um vazio tão grande. Mas você não pode deixar o passado te aprisionar, Clara. Você precisa viver o seu presente."

"Mas e se o presente me machucar tanto quanto o passado? E se Rafael for apenas uma ilusão? E se eu estiver me iludindo?" A angústia em sua voz era palpável.

"O medo faz isso com a gente, mana. Ele nos paralisa. Mas a vida é feita de riscos. De se jogar. Você se lembra do que o papai sempre dizia? 'A vida é uma tela em branco, Clara. Você tem que pintá-la com as cores que te trazem alegria, mesmo que às vezes o pincel trema.'"

As palavras do pai, trazidas à tona por Leo, tocaram um lugar profundo em Clara. Era verdade. Ela estava se escondendo. Estava permitindo que o medo ditasse seus passos.

"Você tem razão, Leo. Eu preciso... preciso tentar. Preciso entender o que está acontecendo. E o Rafael... ele parece ser uma peça importante nesse quebra-cabeça."

"Exatamente! E se você precisar de um ombro amigo, de alguém pra te dar um puxão de orelha, eu estou aqui. Não importa a hora."

Clara riu entre as lágrimas. "Obrigada, Leo. De verdade. Você sempre sabe o que dizer."

"É o que irmãos fazem, não é? Agora, tenta dormir um pouco. Amanhã é outro dia, e quem sabe o que ele trará? Talvez um convite para um café. Ou quem sabe, um convite para um brinde... ao inesperado." A última frase foi dita com um sorriso na voz, um eco daquele brinde que os unira semanas atrás.

Após desligar o telefone, Clara sentiu um alívio estranho. A conversa com Leo não resolvera todos os seus problemas, mas a havia trazido de volta à realidade. Havia dissipado um pouco da névoa que a envolvia. Ela olhou para a tela em branco em seu estúdio, e pela primeira vez naquela noite, não sentiu o peso da obrigação, mas sim uma leve faísca de curiosidade. O enigma de Rafael, o eco de seu pai, a incerteza de seus próprios sentimentos... tudo isso se misturava em uma cacofonia de emoções.

Ela caminhou até o violão, pegou-o e sentou-se no chão frio, abraçando o instrumento como um velho amigo. Seus dedos, hesitantes no início, começaram a deslizar pelas cordas. Uma melodia suave, melancólica, mas com uma promessa de esperança, começou a emergir. Não era a canção vibrante que ela buscava, mas era um começo. Um fio solto em um labirinto complexo. E Clara sabia, com a certeza que apenas a arte podia lhe trazer, que ela precisava seguir esse fio. Precisava desvendar a verdade, por mais dolorosa que fosse. E para isso, ela precisaria olhar nos olhos de Rafael, e talvez, apenas talvez, encontrar ali o reflexo de suas próprias respostas. O Rio de Janeiro adormeceu, mas para Clara, a noite estava apenas começando a pintar suas próprias cores.

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