Cativada pelos seus Olhos 157

Capítulo 7 — O Desenho Escondido e o Sussurro do Passado

por Valentina Oliveira

Capítulo 7 — O Desenho Escondido e o Sussurro do Passado

O sol da manhã carioca, implacável e vibrante, penetrava pelas frestas das persianas do estúdio de Clara, pintando listras douradas sobre o piso de madeira desgastado. O aroma de café fresco e o canto dos pássaros anunciavam o início de um novo dia, mas para Clara, a noite anterior havia deixado um rastro de reflexões que a impediam de se entregar à placidez matinal. A conversa com Leo havia sido um bálsamo, mas também um catalisador. A incerteza sobre Rafael, a semelhança com seu pai, tudo isso a impelia a buscar mais, a entender o que a atraía e a assustava nele ao mesmo tempo.

Ela decidiu que não podia mais se esconder em sua arte. Precisava de um confronto, não de um embate, mas de uma conversa franca. Precisava olhar nos olhos dele, sem os filtros da distância ou da galeria. E para isso, ela precisaria encontrá-lo. O desafio era como fazer isso sem parecer desesperada ou, pior, invasiva.

Enquanto tomava seu café, Clara folheava um dos seus cadernos de esboços. Era um compêndio de ideias, de rabiscos que ganhavam vida em suas mãos, de fragmentos de sonhos e de memórias. Em uma das páginas, um desenho em particular chamou sua atenção. Era o esboço de um rosto, um rosto que ela não conseguia identificar completamente, mas que transmitia uma profunda melancolia e uma força latente. Os traços eram fortes, a linha do maxilar bem definida, e os olhos... ah, os olhos eram o ponto focal. Eram profundos, misteriosos, carregados de uma história não contada. Ela não se lembrava de ter desenhado aquilo, ou melhor, não se lembrava de quando o havia desenhado. Parecia familiar, como um fantasma de uma lembrança adormecida.

Um arrepio percorreu sua espinha. Era uma coincidência macabra, ou um presságio? Ela sentiu uma necessidade premente de entender a origem daquele desenho. Era como se ele contivesse uma chave para um segredo que ela precisava desvendar.

Levantou-se abruptamente, o café ainda pela metade. A inspiração, antes fugidia, agora fervilhava em sua mente. Ela precisava ir até a galeria. Precisava ver se Rafael estaria lá, talvez em uma reunião, talvez terminando algum trabalho. Era uma desculpa frágil, mas era a única que tinha.

Ao chegar à Galeria Aurora, o silêncio habitual do local, que antes a acolhia, agora parecia carregado de expectativa. As obras de arte, antes meros objetos, pareciam observá-la, testemunhas silenciosas do seu dilema. Ela caminhou pelos corredores, a cada passo sentindo o coração acelerar. E então, ela o viu.

Rafael estava em seu escritório, um espaço de vidro e aço que contrastava com a opulência artística da galeria. Ele estava debruçado sobre uma mesa cheia de papéis, os cabelos escuros levemente desalinhados, a testa franzida em concentração. A luz que entrava pela janela banhava seu perfil, realçando a linha forte do seu maxilar, a curva dos seus lábios. Por um instante, Clara sentiu o eco do desenho em seu caderno. Era ele. De alguma forma, era ele.

Ela respirou fundo, tentando controlar a ansiedade que a dominava. Hesitou por um momento, mas a determinação a impeliu adiante. Bateu suavemente na porta de vidro.

Rafael ergueu a cabeça, e seus olhos azuis encontraram os dela. Um lampejo de surpresa, seguido por um leve sorriso que suavizou suas feições, cruzou seu rosto.

"Clara. Que surpresa agradável." Sua voz era calma, melodiosa, mas com uma profundidade que sempre a desarmava.

"Rafael. Desculpe incomodar. Eu... eu estava passando perto e resolvi dar uma olhada." A desculpa soou frágil até para seus próprios ouvidos.

Ele se levantou, contornou a mesa e caminhou até a porta, abrindo-a para ela. O cheiro suave de seu perfume, uma fragrância amadeirada e cítrica, a envolveu. Era o mesmo perfume que ela sentira na noite da inauguração.

"De forma alguma. É sempre um prazer vê-la. Especialmente quando você decide me fazer uma visita sem aviso." Ele a olhou nos olhos, e Clara sentiu uma eletricidade sutil percorrer seu corpo. Havia algo ali, um convite implícito, uma curiosidade mútua que não podia ser ignorada. "Entre. Gostaria de um café? Ou talvez um chá?"

"Um café seria ótimo, obrigada."

Enquanto Rafael preparava o café em uma máquina sofisticada, Clara se permitiu observar o escritório. Era organizado, mas não impessoal. Havia algumas fotografias emolduradas em uma prateleira. Ela se aproximou, curiosa. Uma das fotos mostrava Rafael mais jovem, ao lado de um homem idoso, com um sorriso largo e olhos gentis. O outro rosto era um tanto familiar, mas ela não conseguia identificar de onde. Outra foto era de uma mulher com cabelos castanhos e um sorriso radiante, segurando um bebê nos braços. Quem seriam aquelas pessoas? Eram parte da história que ele guardava tão bem?

"São... são sua família?", Clara perguntou, a voz um pouco mais baixa do que pretendia.

Rafael se virou, segurando duas xícaras fumegantes de café. Seus olhos percorreram as fotos, e uma sombra passou por eles. "Sim. O meu pai. E minha mãe e meu irmão mais novo." A última frase foi dita com uma leveza que não conseguia mascarar a dor subjacente.

Clara sentiu um nó se formar em sua garganta. A maneira como ele falava do irmão, com aquela hesitação... ela entendia. A perda, a ausência, deixavam marcas indeléveis.

"Eles... eles estão bem?", ela perguntou, cautelosa.

Rafael entregou-lhe a xícara de café e sentou-se em sua cadeira, fazendo um gesto para que ela se sentasse em uma das poltronas de couro. "Não, Clara. Eles não estão mais conosco."

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de um entendimento mútuo da fragilidade da vida e da dor da perda. Clara sentiu uma onda de empatia por ele, uma conexão que ia além da admiração artística ou da atração física.

"Eu sinto muito", ela murmurou, genuinamente.

"Eu também. Faz tempo, mas a saudade... ela nunca desaparece completamente. Apenas aprende a conviver conosco." Ele olhou para ela, e havia uma vulnerabilidade em seus olhos que Clara nunca havia visto antes. "Mas você não veio aqui para falar sobre a minha família, não é?"

Clara hesitou, o desenho em seu caderno voltando à sua mente. Ela precisava ser corajosa. "Na verdade, Rafael, eu vim falar sobre algo que me intriga." Ela pegou sua bolsa e tirou o caderno de esboços, abrindo-o na página do desenho. Ela hesitou, o coração batendo forte contra as costelas. "Eu encontrei isso. Eu não me lembro de ter desenhado, mas o rosto... ele me parece tão familiar. E eu sinto que tem algo a ver com você."

Rafael pegou o caderno, seus olhos percorrendo o esboço com atenção. Ele ficou em silêncio por um longo momento, sua expressão indecifrável. Clara prendia a respiração, esperando sua reação. Finalmente, ele ergueu os olhos para ela, e a intensidade em seu olhar era palpável.

"Clara...", ele começou, a voz baixa, rouca de emoção. "Este desenho... este é um esboço do meu irmão. Marcos."

As palavras de Rafael a atingiram como um raio. Marcos. O irmão. A semelhança com seu pai não era apenas uma coincidência. Era a semelhança entre dois homens que haviam marcado a vida dela de formas profundas, mesmo que de maneira diferente.

"Seu irmão...", Clara sussurrou, chocada. "Mas... como? Eu nunca o conheci."

Rafael fechou os olhos por um instante, como se estivesse revivendo uma memória dolorosa. "Marcos faleceu há dez anos. Foi um acidente terrível. Ele era músico, Clara. Um pianista brilhante. Tinha um talento imenso, assim como você." Ele olhou para Clara, e um brilho de esperança misturado com tristeza surgiu em seus olhos. "Ele adorava o Rio. Sonhava em morar aqui um dia. E ele sempre disse que sua arte, sua música, era a coisa mais linda que ele já tinha ouvido."

Aquelas palavras fizeram o mundo de Clara girar. Seu pai, o grande amor de sua vida, havia sido um músico. E agora, o irmão de Rafael, que ela nunca conheceu, também era músico. O eco do passado se tornava cada vez mais nítido, e a conexão entre ela e Rafael, antes nebulosa, agora se manifestava com uma força avassaladora.

"Meu pai era músico", Clara confessou, a voz embargada. "Pianista. Ele faleceu quando eu era criança."

Rafael a olhou com uma intensidade renovada, como se estivesse vendo-a pela primeira vez. Seus olhos azuis, antes carregados de mistério, agora refletiam uma compreensão profunda, uma dor compartilhada, uma conexão inesperada.

"Clara", ele disse, a voz suave, mas firme. "Eu acho que o destino, ou quem quer que seja, tem um jeito muito particular de nos apresentar as pessoas. Talvez você e eu tenhamos mais em comum do que imaginávamos."

Naquele momento, sentada na galeria, o cheiro de café no ar e a verdade desvelada pairando entre eles, Clara sentiu que as paredes de sua própria resistência começavam a desmoronar. O desenho escondido havia revelado não apenas a semelhança com o irmão de Rafael, mas também o fio que a ligava ao seu próprio passado, um fio que, para sua surpresa, a conduzia diretamente a ele. O sussurro do passado havia se tornado um chamado para o presente, e Clara sabia que não poderia mais ignorá-lo. A verdade, por mais complexa que fosse, estava à sua frente, e ela precisava abraçá-la.

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