Amores que Doem 159
Capítulo 19 — A Sombra do Guardião e o Jogo de Esconder
por Camila Costa
Capítulo 19 — A Sombra do Guardião e o Jogo de Esconder
O confronto com Armando Viana deixou Helena e Miguel em um estado de alerta constante. A frieza com que ele falara sobre a morte do pai de Helena, a arrogância com que admitira sua participação e, principalmente, o conhecimento sobre o Guardião, tudo isso alimentava a urgência de suas ações. O casarão, que antes era um santuário, agora parecia um palco onde um perigoso jogo de esconde-esconde estava prestes a começar.
“Ele sabe sobre o Guardião, Miguel”, Helena repetia, a preocupação em sua voz cada vez mais evidente. “Se Viana descobrir quem é o Guardião, ele poderá usar isso contra nós. Ameaçá-lo, chantageá-lo…”
Miguel a segurou pelos ombros, tentando acalmá-la. “Precisamos confiar no Guardião, Helena. Ele é experiente, ele é cuidadoso. Seu pai confiou nele por um motivo. Viana pode saber que ele existe, mas isso não significa que ele saiba quem ele é. E mesmo que saiba, o Guardião não é alguém que se intimida facilmente.”
Eles passaram o resto do dia revirando os documentos deixados pelo pai de Helena, buscando qualquer menção a Armando Viana que pudesse revelar seus planos ou suas vulnerabilidades. O diário era um tesouro de informações, mas Viana parecia ter sido cuidadoso em cobrir seus rastros. Havia referências a reuniões secretas, a transações financeiras suspeitas, mas nada concreto que os levasse diretamente a ele.
Enquanto vasculhavam a biblioteca, Helena sentiu uma estranha sensação de estar sendo observada. Um arrepio percorreu sua espinha, não de medo, mas de uma consciência sutil de uma presença. Ela olhou ao redor, mas não viu nada fora do comum. Apenas os livros silenciosos e as sombras dançando nas paredes.
“Você sentiu isso?”, Helena perguntou a Miguel, sussurrando.
Miguel levantou a cabeça, escutando atentamente. “Sentir o quê?”
“Como se… como se alguém estivesse aqui. Nos observando.”
Miguel deu um sorriso fraco. “Deve ser o efeito Viana. Ele conseguiu nos deixar nervosos. Mas eu não sinto nada. Apenas nós dois.”
Helena tentou se convencer de que era apenas sua imaginação, mas a sensação persistiu. Era uma presença sutil, mas inconfundível. Talvez fosse o Guardião, mantendo sua vigilância.
Mais tarde naquela noite, enquanto o luar banhava o casarão em uma luz prateada, Helena decidiu sair para caminhar pelo jardim. A brisa noturna era refrescante, e o perfume das rosas parecia trazer um pouco de paz à sua mente agitada. Ela se sentou em um banco de pedra, observando as estrelas.
De repente, uma figura emergiu das sombras, movendo-se com uma agilidade surpreendente. Helena se levantou abruptamente, o coração disparado. Seria Viana? Um de seus capangas?
Mas a figura não era ameaçadora. Era um homem, com roupas escuras e um capuz que escondia parcialmente seu rosto. Ele se aproximou lentamente, parando a uma distância respeitosa.
“Helena”, uma voz baixa e rouca soou. Era uma voz que ela não reconhecia, mas que parecia carregar uma familiaridade distante, como um eco de um passado esquecido.
“Quem é você?” Helena perguntou, a voz tensa, mas firme.
O homem retirou o capuz, revelando um rosto marcado pelo tempo e por uma profunda melancolia. Seus olhos, de um verde penetrante, a encaravam com uma intensidade que a fez prender a respiração. Era ele. O Guardião.
“Eu sou aquele que seu pai confiou para te proteger”, ele disse, sua voz ganhando um tom mais suave. “Eu sou o Guardião.”
Helena o observou, tentando absorver a realidade. Ele parecia comum, mas havia algo em seu olhar, uma sabedoria ancestral, uma tristeza profunda, que a fez acreditar nele.
“Eu sei quem você é”, Helena disse, lembrando-se do aviso de Viana. “Armando Viana sabe que você existe.”
Um leve tremor percorreu o rosto do Guardião. “Eu esperava por isso. Viana é um adversário astuto e implacável. Ele não descansará até que toda a verdade sobre Antônio seja apagada.”
“Meu pai deixou pistas”, Helena disse, sentindo uma nova onda de esperança. “No diário dele. Ele estava investigando Viana.”
O Guardião assentiu. “Antônio era um homem corajoso. Ele sabia dos riscos, mas não podia ignorar a injustiça. Eu o ajudei em suas investigações, tanto quanto pude, sem comprometer sua segurança.”
“Mas por que ele não me disse tudo?”, Helena perguntou, a dor ainda presente em sua voz. “Por que ele me pediu para esquecer?”
“Ele te amava, Helena. E temia que você se tornasse um alvo fácil. Ele queria que você tivesse uma chance de ter uma vida normal, longe de toda essa escuridão. Mas o destino, às vezes, nos força a encarar a verdade.” O Guardião olhou para o céu estrelado. “Viana é perigoso. Ele tem muitos recursos, muitos aliados poderosos. Ele manipula as pessoas, as corrompe. Ele se alimenta da ganância e do medo.”
“Como podemos detê-lo?”, Helena perguntou, sua determinação se fortalecendo.
“Precisamos de provas concretas. Algo que possa ligá-lo diretamente à morte de Antônio e aos seus crimes. Viana é cuidadoso. Ele não deixa rastros facilmente.” O Guardião fez uma pausa, seus olhos verdes focando em Helena. “Eu tenho algumas informações. Arquivos que Antônio me confiou. Documentos que provam a ligação de Viana com atividades ilegais e a manipulação de mercados financeiros. Mas Viana sabe que esses documentos existem. Ele tentará recuperá-los a todo custo.”
“Onde estão esses documentos?”, Helena perguntou, ansiosa.
“Em um lugar seguro. Um lugar que Viana jamais encontraria. Mas preciso de ajuda para acessá-los. E preciso ter certeza de que você está pronta para o que virá. Enfrentar Viana significa colocar sua vida em risco.”
Helena olhou para o Guardião, sentindo a força e a sabedoria em seus olhos. Ela sabia que ele estava certo. A verdade exigia coragem, e ela estava disposta a arriscar tudo por seu pai.
“Eu estou pronta”, Helena disse, sua voz firme e clara. “Eu quero justiça para meu pai. Eu quero que Armando Viana pague pelo que fez.”
O Guardião sorriu, um sorriso triste, mas compreensivo. “Eu sabia que você diria isso. Seu pai estaria orgulhoso.”
Naquele momento, Miguel apareceu na entrada do jardim, atraído pela conversa. Ele viu Helena conversando com o homem misterioso e parou, hesitante.
“Helena?”, ele chamou.
Helena se virou, o Guardião também. “Miguel, este é o Guardião. Aquele que meu pai confiou para me proteger.”
Miguel aproximou-se, olhando para o Guardião com uma mistura de curiosidade e cautela. “Eu… eu ouvi falar muito sobre você. Pelo meu avô. Ele dizia que você era um homem de confiança.”
O Guardião assentiu levemente. “Seu avô e seu pai eram amigos, Miguel. Mas nem sempre os caminhos da amizade seguem em linha reta.” Uma sombra passou pelos olhos do Guardião, uma indicação sutil de que ele sabia mais sobre o avô de Miguel e seu envolvimento do que deixava transparecer.
“Precisamos de sua ajuda, Miguel”, Helena disse, sentindo que agora era o momento de uni-los. “Armando Viana está nos ameaçando. Ele sabe que estamos investigando. E o Guardião precisa acessar alguns documentos que podem provar a culpa de Viana.”
Miguel olhou para Helena, depois para o Guardião. Ele sentiu o peso da história de sua família, a possibilidade de seu avô ter sido cúmplice de Viana. Mas a determinação em seus olhos e a urgência da situação o fizeram decidir.
“Eu farei o que puder”, Miguel disse, olhando para o Guardião. “O que precisa ser feito?”
O Guardião assentiu, um leve brilho de aprovação em seus olhos. “Precisamos de um plano. Viana sabe que estamos atrás dele. Ele vai tentar nos deter. Precisamos ser mais rápidos, mais espertos. Precisamos jogar o jogo dele, mas com nossas próprias regras.”
A noite estava avançando, mas para Helena, Miguel e o Guardião, a verdadeira batalha estava apenas começando. O aviso cruel de Armando Viana havia os impulsionado para um novo nível de perigo. Agora, a sombra do Guardião se juntava a eles, e o jogo de esconder ganharia contornos ainda mais dramáticos, onde a verdade e a justiça eram as únicas apostas.