Amor Clandestino 160

Capítulo 17 — O Labirinto de Papéis e a Voz do Passado

por Camila Costa

Capítulo 17 — O Labirinto de Papéis e a Voz do Passado

O consultório de Dr. Antunes, localizado em uma rua charmosa e arborizada de Petrópolis, emanava uma aura de antiguidade e respeitabilidade. O cheiro de desinfetante misturado com o aroma adocicado de livros empoeirados pairava no ar. Era um lugar onde o tempo parecia ter desacelerado, onde as paredes guardavam segredos sussurrados por gerações de pacientes. Para Clara, no entanto, o lugar agora parecia um labirinto sombrio, cada objeto a ponto de revelar a verdade que ela tanto temia.

Ricardo e Clara chegaram logo após o horário de abertura, apresentando-se como familiares próximos de Dona Helena, preocupados com a saúde dela e com a necessidade de acessar alguns registros médicos antigos. Dr. Antunes, um homem de cabelos brancos e olhar penetrante, recebeu-os com uma cordialidade formal que soou a Clara como um véu sobre uma verdade oculta.

“Dona Clara, Sr. Ricardo”, disse ele, com um leve sorriso que não alcançava seus olhos. “É uma surpresa vê-los. Como está Dona Helena?”

“Ela está… se recuperando, doutor. Mas nós estamos preocupados com o que pode ter sido deixado para trás. Dona Helena tem sido muito reservada sobre o passado, e nós gostaríamos de ter acesso a alguns de seus registros médicos antigos, se possível. Para entendermos melhor seu histórico.” Clara tentava manter a voz firme, mas sentia o coração martelando contra as costelas.

Dr. Antunes franziu levemente a testa. “Registros antigos… O que exatamente vocês procuram?”

Ricardo interveio, sua voz calma e persuasiva. “Qualquer coisa que possa nos ajudar a entender melhor a saúde dela, doutor. Especialmente sobre os períodos de sua juventude, antes de se casar com o Dr. Mendonça. Dr. Raul mencionou que houve algumas complicações em suas gravidezes que poderiam ter raízes mais antigas.”

A menção de Dr. Raul pareceu causar um leve desconforto em Dr. Antunes. Ele hesitou por um instante, seu olhar desviando para um ponto na parede. “Ah, sim… Dr. Raul é um excelente profissional. Bem, eu preciso verificar meus arquivos. Alguns deles são bastante antigos e guardados em nosso depósito. Levará algum tempo para localizá-los.”

Ele os conduziu a uma sala de espera acolhedora, com poltronas de couro e uma mesa baixa repleta de revistas. Clara sentiu um calafrio. Cada instante ali era uma tortura. Ela observava Dr. Antunes se afastar, os passos dele ecoando pelo corredor como um prenúncio.

“Ele está escondendo alguma coisa, Ricardo”, sussurrou Clara, a angústia em sua voz. “Eu sinto isso.”

“Seja paciente, meu amor”, respondeu Ricardo, apertando sua mão. “Ele sabe que Dr. Raul falou conosco. Ele está nervoso. Vamos dar a ele tempo para nos dar o que procuramos. E se ele não der, nós encontraremos outra maneira.”

Enquanto esperavam, Clara não conseguia desviar o olhar de uma fotografia antiga emoldurada na parede. Era uma foto do Dr. Antunes, mais jovem, ao lado do Dr. Mendonça e de Dona Helena, que parecia radiante, mas com um toque de melancolia nos olhos. Pareciam uma família feliz, um retrato enganoso do passado.

Minutos se arrastaram como horas. O silêncio da sala de espera era quebrado apenas pelo tique-taque de um relógio antigo e pelos sons abafados vindos do consultório do médico. Clara sentia a ansiedade corroê-la. Ela revivia as palavras de Dr. Raul: “Dr. Antunes ajudou a orquestrar… ele sabia… ele fez parte da trama para garantir que o Dr. Mendonça tivesse o herdeiro que tanto desejava, mesmo que isso significasse forçar Dona Helena a um destino que ela não queria.”

Finalmente, Dr. Antunes retornou, carregando uma caixa de papelão antiga e empoeirada. Ele a colocou sobre a mesa com um baque surdo.

“Encontrei alguns prontuários que podem ser relevantes”, disse ele, com um tom de voz forçado. “Estes são de Dona Helena, da época em que ela era uma jovem adulta. Há poucas informações detalhadas sobre sua saúde reprodutiva naquele período, pois, como vocês sabem, os registros médicos eram menos completos na época. Mas fiz o meu melhor para selecionar o que pude encontrar.”

Clara e Ricardo se entreolharam. A frieza de Dr. Antunes era palpável. Ele não estava sendo cooperativo, estava apenas cumprindo uma obrigação. Eles sabiam que o que ele trazia era apenas uma pequena parte do quebra-cabeça.

Enquanto Dr. Antunes se desculpava por ter que atender outros pacientes, Clara e Ricardo se debruçaram sobre os papéis. Eram prontuários médicos antigos, com letra cursiva e termos técnicos que exigiam atenção. Clara folheava as páginas com cuidado, a esperança de encontrar uma pista concreta misturada com o medo do que poderiam descobrir.

“Olha isso, Ricardo”, disse Clara, apontando para uma entrada datada de muitos anos atrás. “Aqui fala de um ‘procedimento de acompanhamento pré-natal’, mas não especifica de quem. E a data… coincide com o período em que minha mãe se casou com meu pai. E pouco antes de engravidar de mim.”

Ricardo examinou a anotação com atenção. “É vago. Muito vago. Mas é uma pista. ‘Procedimento de acompanhamento pré-natal’. Para quem? E por que não está especificado?”

Eles continuaram vasculhando. Havia anotações sobre exames de rotina, sobre vitaminas prescritas, mas nada que explicitamente revelasse uma gravidez forçada ou manipulação. No entanto, Clara sentiu algo estranho em um dos relatórios. Uma descrição sobre um tratamento hormonal, algo que ela não esperava encontrar em um prontuário genérico.

“Ricardo, isso é… incomum. Um tratamento hormonal sem um diagnóstico claro. Por que um médico prescreveria isso sem uma razão específica?” Clara sentiu um arrepio. Ela se lembrou de ter lido algo sobre terapias hormonais que poderiam induzir a gravidez.

Ricardo concordou, a testa franzida em concentração. “Isso levanta suspeitas. É muito específico para ser um procedimento de rotina. Talvez isso seja o que Dr. Raul quis dizer. Talvez Dr. Antunes tenha administrado algo a Dona Helena para garantir a concepção, para pressioná-la a engravidar.”

A atmosfera na sala se tornou pesada. Cada palavra escrita naquele prontuário parecia ecoar a voz do passado, a voz de Dona Helena, silenciada por anos de dor e segredo.

De repente, um som vindo do corredor fez Clara e Ricardo se sobressaltarem. Era o barulho de uma porta se abrindo e fechando com força. Parecia ser o Dr. Antunes retornando.

“Precisamos ir”, sussurrou Ricardo. “Não podemos ser pegos fuçando nesses papéis sem a permissão dele. Mas já temos algo. Algo para investigar mais a fundo.”

Eles recolocaram os papéis na caixa com cuidado, lançando um último olhar para o consultório que agora parecia um covil de segredos. Ao saírem, cruzaram com Dr. Antunes no corredor. Ele os olhou com desconfiança.

“Já terminaram?”, perguntou ele, a voz mais firme.

“Sim, doutor. Agradecemos muito sua ajuda”, disse Clara, tentando manter a compostura. “Esperamos que Dona Helena se recupere completamente.”

Ao saírem do consultório, o ar fresco de Petrópolis pareceu um alívio, mas a carga do que haviam descoberto pesava sobre eles. Os registros eram fragmentados, as anotações vagas, mas a presença de um tratamento hormonal sem explicação clara era uma pista substancial. A voz do passado, vinda daqueles papéis antigos, parecia sussurrar a verdade brutal.

“Ricardo, o que você acha que aconteceu?”, perguntou Clara, enquanto caminhavam em direção ao carro.

Ricardo respirou fundo. “Eu acho que Dr. Antunes não apenas sabia, Clara. Eu acho que ele participou ativamente. Aquele tratamento hormonal… ele pode ter sido usado para induzir uma gravidez. E o fato de ele não querer nos dar os registros, o nervosismo dele… tudo indica que ele tem algo a esconder.”

“E o Dr. Mendonça? Ele sabia disso? Ele ordenou isso?” A pergunta continuava a assombrá-la.

“É a questão principal, não é?”, disse Ricardo. “Se Dr. Antunes agiu sob ordens, quem deu essas ordens? O Dr. Mendonça era um homem poderoso. Ele sabia como conseguir o que queria. E ele desejava um herdeiro. Uma história de amor, a sua história, Clara, pode ter começado com uma violação da vontade de sua mãe.”

O peso da verdade ameaçava esmagá-los. Eles tinham mais perguntas do que respostas. O consultório de Dr. Antunes, outrora um símbolo de confiança médica, agora era um labirinto de papéis e a voz do passado, que ecoava em suas mentes, clamava por justiça. Eles sabiam que a batalha pela verdade estava apenas começando, e os próximos passos seriam cruciais para desvendar a teia de mentiras que envolvia a família Mendonça. A cada descoberta, o amor clandestino entre Clara e Ricardo se fortalecia, tornando-se um porto seguro em meio à tempestade de revelações.

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