Amor Clandestino 160
Capítulo 5 — A Sombra de Um Passado em Crise
por Camila Costa
Capítulo 5 — A Sombra de Um Passado em Crise
O escritório de Arthur era um reflexo de sua personalidade: opulento, frio e impessoal. Paredes revestidas em madeira escura, uma mesa imponente de mogno e uma vista panorâmica da cidade de Santos, que ele via como seu reino particular. Naquela tarde, ele estava sentado atrás de sua mesa, a testa franzida em concentração, enquanto falava ao telefone. A conversa era tensa, cheia de termos técnicos e ordens curtas e ríspidas. Ele estava em meio a uma negociação complexa que poderia expandir ainda mais seu império.
“Sim, eu entendo os riscos, mas o retorno sobre o investimento é considerável,” ele dizia, a voz calma, mas com uma autoridade inquestionável. “Não me importo com os detalhes técnicos, o que me importa é o resultado final. Garanta que tudo esteja em ordem até o final da semana.”
Ele desligou o telefone com um clique seco, um sorriso de satisfação nos lábios. Aquele era o seu mundo, o mundo do poder, do controle, da conquista. E Isabella, com sua beleza e seu nome, seria a joia final em sua coroa. Ele sabia que ela o resistia, que seu coração pertencia a outro. Mas isso, para Arthur, era apenas um detalhe insignificante. Ele estava acostumado a ter o que queria, e Isabella não seria exceção.
Um tapinha discreto na porta o tirou de seus pensamentos. Era sua secretária, Sofia, uma mulher eficiente e discreta, com um olhar que parecia captar tudo.
“Senhor Arthur, o delegado da polícia de São Paulo está aqui para vê-lo,” ela disse, a voz baixa.
Arthur ergueu uma sobrancelha, surpreso. “O delegado? O que ele quer comigo?”
“Ele disse que é sobre uma questão de segurança, senhor. Algo urgente.”
Arthur assentiu, um brilho de apreensão em seus olhos. Urgência, na polícia, raramente era uma boa notícia. “Mande-o entrar, Sofia.”
O delegado, um homem de meia-idade, com um semblante sério e um olhar penetrante, entrou no escritório. Ele se apresentou brevemente e se sentou na cadeira em frente à mesa de Arthur.
“Senhor Arthur,” o delegado começou, o tom formal, mas direto. “Estamos investigando um incidente ocorrido ontem à noite no porto de Santos. Uma tentativa de… digamos, de eliminar uma pessoa.”
Arthur sentiu um frio percorrer sua espinha, mas manteve a compostura. “Uma tentativa de assassinato? E o que isso tem a ver comigo?”
“Encontramos vestígios que sugerem que o senhor pode ter algum envolvimento. Uma pessoa que nos é desconhecida foi encontrada em dificuldades na água, e há informações que a ligam a pessoas de seu círculo social e de seus negócios.”
Arthur engoliu em seco. Ele pensou na mulher que Miguel resgatara. Seria ela? E como eles poderiam ligá-lo a ela?
“Delegado, devo confessar que estou perplexo,” Arthur disse, a voz cuidadosamente modulada. “Eu não tenho conhecimento de nenhum incidente no porto. E meu círculo social é bastante amplo. Não consigo imaginar a quem o senhor se refere.”
O delegado o encarou, seu olhar avaliador. “Estamos falando de uma mulher. Ela usava um pingente em forma de borboleta. E há indícios de que ela foi… ‘descartada’ por um motivo específico relacionado a informações que ela poderia ter. Informações que poderiam prejudicar alguém com muito poder e influência.”
A menção da borboleta fez o sangue de Arthur gelar. Ele pensou em Isabella, em seus pingentes. Seria possível que a mulher fosse de fato alguém próxima de Isabella? Ou alguém que Isabella conhecia? Ele se lembrou da conversa com Isabella na noite anterior, de sua menção a uma mulher no porto.
“Borboleta?” Arthur repetiu, fingindo surpresa. “Não, delegado. Não me recordo de ninguém com esse detalhe. E quanto a ser prejudicada… eu sou um homem de negócios, delegado. Minhas negociações são todas legítimas.”
O delegado não parecia convencido. Ele tirou um pequeno bloco de notas do bolso e começou a anotar algo. “Entendo. Mas precisamos fazer uma investigação completa. E o senhor, por sua posição, é uma pessoa de interesse. Onde o senhor estava ontem à noite, senhor Arthur?”
Arthur descreveu sua noite, omitindo qualquer detalhe que pudesse incriminá-lo, como a conversa com Isabella. Ele era um mestre em manipular informações, em construir narrativas que o favorecessem.
“Estava em casa, delegada. Uma noite tranquila, planejando o futuro,” ele disse, um leve sorriso nos lábios. “Um futuro que incluirá meu casamento em breve. Talvez a senhora conheça a noiva: Isabella Valença.”
O delegado anotou o nome, mas seu olhar continuou frio e calculista. “Valença… sim, o nome me é familiar. Entendo. Bem, senhor Arthur, se surgir qualquer informação relevante, o senhor sabe onde nos encontrar. E se descobrir algo sobre essa mulher, ou sobre o pingente de borboleta, peço que nos informe imediatamente. Isso pode ser crucial para resolvermos este caso.”
O delegado se levantou e se despediu, deixando Arthur sozinho em seu escritório. A calma habitual de Arthur fora perturbada. A mulher do porto, a borboleta… aquilo não podia ser uma coincidência. Ele se lembrou da conversa com Miguel, da ameaça velada que ele fizera sobre proteger Isabella. Seria Miguel o responsável por resgatar aquela mulher? E quem era ela? Por que ela estava em perigo?
Arthur apertou o punho, sentindo a raiva borbulhar. Miguel era um incômodo constante, uma ameaça à sua paz. E agora, essa mulher misteriosa, com o pingente de borboleta, parecia ter se tornado uma peça em um jogo mais perigoso do que ele imaginava. Ele precisava saber quem ela era, e como ela se ligava a Isabella e a Miguel.
Ele pegou o telefone e discou um número. “Quero informações sobre uma mulher. Recentemente resgatada no porto de Santos. Ela usava um pingente de borboleta. Descubra quem ela é. E quem a resgatou. Quero tudo o que puderem saber. E quero isso para ontem.”
Enquanto esperava as respostas, Arthur contemplou a cidade lá fora. A sombra de um passado em crise parecia pairar sobre seus negócios, sobre seu futuro. Ele havia construído seu império sobre regras implacáveis, mas agora, parecia que as sombras de suas ações estavam voltando para assombrá-lo. A luta pela posse de Isabella Valença acabara de se tornar muito mais complicada, e Arthur sabia que precisaria de toda a sua astúcia e crueldade para vencer. A borboleta, que ele via como um símbolo da fragilidade de Isabella, poderia, na verdade, ser a chave para desvendar uma teia de perigos que ameaçava desmoronar tudo o que ele construíra.