Promessas Quebradas 163

Capítulo 2 — Sombras do Passado e o Rosto Desconhecido

por Valentina Oliveira

Capítulo 2 — Sombras do Passado e o Rosto Desconhecido

Os dias que se seguiram à descoberta do envolvimento de Leonardo na compra da fábrica foram um borrão de melancolia e desespero contido. Isabella sentia-se como um navio à deriva em um mar revolto, sem bússola e sem rumo. A notícia se espalhou como fogo em palha seca pela pequena cidade de Campos do Jordão, gerando burburinhos e olhares curiosos por onde ela passava. A imagem da princesa Isabella, a moça que cresceu em um conto de fadas dourado, agora estava manchada pela sombra do segredo e da aparente traição.

O senhor Armando, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros e a dor da filha, tentava manter a compostura, buscando febrilmente uma solução para a crise financeira. As reuniões com os advogados da "Innovatech" tornaram-se frequentes, e a cada encontro, a cada proposta apresentada, Isabella sentia uma crescente apreensão. Havia algo de sombrio e implacável na maneira como os representantes da empresa conduziam as negociações, uma frieza que a arrepiava.

Dona Cecília, imersa em seu luto, mal saía do quarto. Isabella tentava visitá-la diariamente, levando chás, frutas e palavras de conforto, mas era como se sua tia estivesse em um mundo paralelo, assombrada pelas ausências e pelas perdas. O silêncio de Dona Cecília era tão eloquente quanto qualquer palavra, um testemunho mudo da dor que consumia a família.

Em uma tarde fria e chuvosa, enquanto o céu chorava sobre os telhados do casarão, Isabella encontrou-se novamente na biblioteca. O documento da compra da fábrica ainda estava ali, sobre a mesa, um lembrete cruel daquela tarde fatídica. Ela o pegou, seus dedos traçando a assinatura de Leonardo. Por que ele havia feito aquilo? E por que ele nunca lhe contara? Seria possível que o amor que ele jurava sentir por ela fosse uma farsa?

Enquanto seus pensamentos se perdiam em um labirinto de perguntas sem respostas, seus olhos recaíram sobre um pequeno caderno de anotações, escondido entre os livros. Era um diário de capa de couro desgastado, claramente antigo. Com as mãos trêmulas, Isabella o abriu. As páginas estavam repletas de uma letra elegante e familiar. Era o diário de sua mãe, Dona Clara, que falecera quando Isabella era ainda muito jovem.

Ela começou a ler, cada linha um sopro de vida para uma mãe que mal conseguia recordar. Dona Clara escrevia sobre seus dias, sobre seus sonhos, sobre seu amor por seu marido, o senhor Armando, e sobre a esperança que nutria para o futuro de sua filha. Mas à medida que avançava nas páginas, um tom mais sombrio começou a emergir. Havia menções veladas a preocupações, a segredos que ela sentia que seu marido, o irmão de Leonardo, estava escondendo. E, de repente, Isabella encontrou uma entrada que a fez prender a respiração.

15 de março de 1998

"O peso no peito de Armando aumenta a cada dia. Sinto que ele guarda algo terrível, algo que o consome. Ouvi conversas sussurradas, vindo do escritório dele, sobre negócios arriscados, sobre dívidas que se acumulam. Ele me assegura que tudo ficará bem, que são apenas questões empresariais rotineiras, mas a angústia em seus olhos não mente. Temo pelo futuro de nossa filha, pela segurança de tudo o que construímos. Há sombras se movendo nos bastidores, e elas me assustam mais do que qualquer coisa."

Isabella continuou lendo, o coração acelerado. Sua mãe parecia ter pressentido a ruína que se aproximava. E então, uma outra entrada, datada de poucos meses antes de sua morte:

20 de agosto de 2002

"Tenho descoberto mais do que gostaria. O irmão de Armando, o Eduardo, parece estar envolvido em algo perigoso. Suas viagens são frequentes e misteriosas. E o dinheiro… o dinheiro parece evaporar. Armando se recusa a me contar a verdade, temendo me assustar, mas o silêncio dele é mais perturbador. Sinto que algo está prestes a desmoronar. O futuro de Isabella, o futuro da fábrica… tudo parece incerto. Se algo me acontecer, Armando, por favor, proteja nossa menina. Descubra a verdade que eu não consegui."

As últimas palavras de sua mãe ecoaram em Isabella como um chamado. Ela percebeu que a situação da fábrica, as dívidas, a venda iminente, não eram um problema recente, mas um legado sombrio que vinha se acumulando por anos, possivelmente gerado por seu tio Eduardo e escondido por seu pai. E Leonardo, ao comprar a fábrica, teria descoberto essa verdade? Ou ele seria parte dela?

Uma batida na porta a tirou de seus devaneios. Dona Lurdes entrou, com um semblante preocupado. "Senhorita Isabella, o senhor Armando pediu para a senhora ir à sala de estar. Há visitantes."

"Visitantes? Quem?", Isabella perguntou, a voz tensa.

"Dois homens. Dizem ser representantes da 'Innovatech'. Mas… eles não parecem os mesmos de sempre. Um deles… ele tem um olhar muito intenso."

Isabella sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela se dirigiu à sala de estar, o coração pulsando forte no peito. A sala estava mais escura que o usual, com as pesadas cortinas de veludo fechadas. Ao entrar, seus olhos encontraram dois homens de terno escuro, em pé perto da lareira apagada. Um deles era alto, com uma expressão fria e calculista no rosto. O outro… era mais jovem, com cabelos escuros revoltos e olhos penetrantes que pareciam ver através dela. Havia algo de familiar naquele olhar, algo que ela não conseguia identificar.

"Senhorita Isabella Bastos, suponho", disse o homem mais velho, com uma voz rouca e sem emoção. "Meu nome é Victor Sterling. E este é meu associado, o senhor Julian Vance."

Isabella assentiu, mantendo a compostura. "Senhor Sterling. A que devo a honra desta visita inesperada?"

Sterling sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Viemos discutir os detalhes finais da aquisição da sua fábrica. O tempo urge, senhorita Bastos. E temos algumas informações que podem acelerar o processo."

Enquanto Sterling falava, o olhar de Julian Vance pousou em Isabella. Era um olhar inquisitivo, quase como se ele a estivesse estudando, tentando decifrar algo em seu rosto. De repente, em um lampejo fugaz, Isabella sentiu uma pontada de reconhecimento. Aquele olhar… parecia ter a mesma intensidade, a mesma profundidade, que ela lembrava dos olhos de Leonardo. Mas era impossível. Julian Vance era um estranho.

"Informações?", Isabella perguntou, a voz firme, apesar da confusão interna. "Que tipo de informações?"

Sterling tirou uma pasta de couro da mão e a abriu. "Descobrimos alguns arquivos antigos, deixados para trás em seus escritórios. Documentos que parecem indicar uma… irregularidade em sua contabilidade. Um desvio de fundos, se me permite a expressão."

O estômago de Isabella revirou. Desvio de fundos? Seu tio Eduardo? O que eles estavam insinuando?

"Meu tio… meu tio Eduardo faleceu há algum tempo. E meu pai, o senhor Armando, tem estado à frente dos negócios desde então. Não há irregularidades", Isabella disse, defendendo a honra de sua família com a pouca força que lhe restava.

Julian Vance deu um passo à frente, sua voz grave e calma, mas com um tom de autoridade sutil. "Senhorita Bastos, entendemos que esta é uma situação delicada. Mas a verdade precisa vir à tona. E nós temos provas."

Ele estendeu uma mão, segurando um envelope grosso. Isabella o pegou, o coração acelerado. Dentro, havia cópias de extratos bancários antigos, recibos e cartas que pareciam incriminadores. Eram do período em que seu tio Eduardo estava no comando.

"O que é isso?", ela perguntou, a voz embargada.

Sterling voltou a sorrir, o mesmo sorriso frio. "São provas de que a sua fábrica acumulou dívidas substanciais devido a práticas ilícitas. E, para evitar que essas práticas venham à tona, a venda é a única solução. Uma solução que, diga-se de passagem, beneficia a todos."

Isabella olhou para Julian Vance, buscando algum sinal de empatia em seus olhos, mas encontrou apenas uma determinação implacável. Havia algo nele que a inquietava profundamente. Um misto de familiaridade e estranheza que a perturbava. E, de repente, enquanto olhava mais atentamente para o perfil do jovem, um detalhe lhe chamou a atenção: um pequeno sinal, uma cicatriz quase imperceptível acima da sobrancelha esquerda. Uma cicatriz que ela conhecia. Uma cicatriz que pertencia a Leonardo.

O ar pareceu rarefeito. As palavras de Sterling se tornaram um zumbido distante. A sala girou em torno dela. Julian Vance não era um estranho. Julian Vance era Leonardo. Disfarçado.

"Leonardo?", ela sussurrou, o nome escapando de seus lábios como um fantasma.

Os olhos de Julian Vance se arregalaram por um instante, a máscara de frieza vacilando. Victor Sterling o olhou com surpresa e uma ponta de irritação.

"Você… você é Leonardo?", Isabella repetiu, a voz embargada pelas lágrimas que começavam a brotar.

Leonardo, ou Julian Vance, tirou os óculos escuros que usava, revelando os olhos verdes que ela amou e ainda amava. A máscara caiu, e a verdade, chocante e dolorosa, se revelou. Ele não estava ali para negociar a venda. Ele estava ali para pressioná-la, para forçá-la a aceitar a "Innovatech", a empresa para a qual ele parecia trabalhar, ou para encobrir os segredos que ele mesmo parecia estar investigando. O homem que ela pensava ter perdido para sempre, o homem que havia partido sem explicação, agora estava ali, do outro lado da mesa, como um estranho com um rosto desconhecido e um propósito obscuro.

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